Pregões inesquecíveis: Moro desembarca do governo e bolsa reage mal

Regiane Medeiros
Colaborador do Torcedores
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Crédito: Reprodução/Wikipedia

Em março de 2020, os investidores brasileiros passaram por uma árdua prova de nervos. Em decorrência da crise do coronavírus, a Bolsa de Valores viveu pregões difíceis que entraram para a história. E precisou acionar seis vezes o circuit breaker. Isto em apenas oito pregões.

Passado o pior período de tensões, os investidores entraram no mês de abril respirando um pouco mais aliviado e com uma visão mais otimista do mercado.

No entanto, mais uma turbulência estava por vir. Ao final do mês, mais precisamente em 24 de abril, o mercado financeiro viveu mais um dia de caos em meio ao anúncio da saída do então ministro da Justiça, Sérgio Moro, do governo de Jair Bolsonaro.

Leia também: Há um ano, o mundo acionava o “botão do pânico” diante da Covid.

Entenda o caso do pregão de Moro

Um dia antes da renúncia do então ministro, o ex-juiz, que ganhou fama com a Operação Lava Jato recebeu uma notícia do presidente Jair Bolsonaro. Ele tinha decidido exonerar o diretor-geral da Polícia Federal, Maurício Valeixo.

O veredito de Bolsonaro veio uma semana depois da demissão de Luis Henrique Mandetta, ministro que comandava a pasta da Saúde.

Com rumores sobre uma possível saída de Moro diante do descontentamento com a saída de Valeixo, o Ibovespa repercutiu as informações e fechou o pregão de quinta-feira em queda de 1,26%, aos 79.673 pontos. No mesmo dia, o dólar saltou de R$ 5,42 para R$ 5,53.

Um dia depois, em 24 de abril, foi publicada em edição extra do Diário Oficial da União a exoneração de Valeixo.

Logo em seguida, em pronunciamento realizado às 11h, Sérgio Moro anunciava sua saída do Ministério.

A demissão de Moro foi uma reação à decisão de Bolsonaro de exonerar, sem grandes justificativas, o indicado do ex-juiz da Lava Jato para o cargo de diretor-geral da Polícia Federal. Na coletiva à imprensa em Brasília, Moro fez um balanço de ações e resultados da pasta durante o seu comando.

Na sequência, declarou que a demissão de Valeixo, por Bolsonaro, configurava interferência política, de modo que optava então por deixar o governo a fim de preservar a sua biografia.

Ao todo, Sérgio Moro comandou a pasta da Justiça por um ano e quatro meses, tendo sido um dos grandes trunfos de Bolsonaro no discurso de combate à corrupção.

No mercado financeiro, a notícia caiu como uma bomba. Na sexta-feira, dia 24, o Ibovespa chegou a cair 9,5%, fechando aos 72.040 pontos. E o dólar bateu os R$ 5,717.

Moro

Reprodução/Capa de jornais do dia

 

Impactos no mercado financeiro

Sérgio Moro era considerado, até então, uma das figuras mais populares e um dos braços mais fortes do governo Bolsonaro. Por esse motivo, a renúncia ao cargo de ministro pegou muita gente de surpresa.

Além disso, muitos investidores reagiram às acusações do ex-ministro ao presidente Bolsonaro, que, segundo Moro, tentou ter acessos a relatórios da Polícia Federal.

Bolsa de valores reage a Moro

O mercado financeiro reagiu mal à coletiva de Moro. Às 11h23, o Ibovespa recuava mais de 6%, chegando a 74.681 pontos. Ao mesmo tempo, o dólar atingia novo recorde, cotado a R$ 5,60.

Mantendo o forte viés de baixa, às 12h22, o Ibovespa despencava 9,58%, aos 72 mil pontos.

Diante do pânico instalado, o mercado esteve muito próximo de acionar novamente o circuit breaker, também conhecido como o botão do pânico. Isso porque a bolsa chegou muito perto de cair 10%, quando há a suspensão das operações na B3 por 30 minutos – para “acalmar os ânimos”.

Apesar da drástica pressão sobre as vendas, ao fim do dia, o principal índice da Bolsa de Valores reduziu suas perdas e fechou em queda de 5,45%, aos 75.330 pontos.

Ações

No dia da saída de Moro do ministério, grande parte das ações foram afetadas, sobretudo as companhias com maior peso sobre o Ibovespa, que sofreram forte correção.

Para se ter uma ideia, as ações da Petrobras (PETR3) fecharam o dia em queda de 7,32%, valendo R$ 15,91.

Entre os bancos, o Banco do Brasil (BBAS3) registrou a maior baixa do setor, com 13,37% cotado a R$ 23,33. Já as ações do Bradesco (BBDC3) despencaram 10,96% no fechamento da sessão, valendo R$ 15,60, enquanto Santander Brasil (SANB11) fechou o pregão da sexta em queda de 6,35%, cotado a R$ 23,44.

Itaú Unibanco (ITUB3) chegou a registrar queda de 6,53% durante o pregão, mas fechou o dia com desvalorização 3,53%, aos R$ 20.

O EWZ, principal fundo de índice (ETF) do Brasil em Nova York, chegou a despencar 10%. E o risco país medido pelo CDS de 5 anos subiu quase 12%.

Dólar

O dólar também reagiu mal ao discurso de saída de Moro. Às 12h50, registrava alta de 3,22%, cotado a R$ 5,71. Na véspera, estava cotado a R$ 5,527.

Na máxima, a moeda americana chegou a ser vendida a R$ 5,717, maior cotação já registrada, e terminou o dia cotada a R$ 5,66 reais.

Já o euro avançou 2,47%, valendo ao final da sexta-feira R$ 6,11.

Moro de volta ao noticiário

Sergio Moro é sempre citado como um dos possíveis concorrentes à presidência em 2022. E é considerado uma opção mais à centro-direita do que Jair Bolsonaro.

Além de constar em todas as pesquisas eleitorais, seu nome também volta aos noticiários por outra razão. Agora, pelos questionamentos quanto à sua parcialidade nos julgamentos do ex-presidente Lula no âmbito da Operação Lava Jato. Esta semana, o ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal, anulou a condenação referente ao triplex no Guarujá. O imóvel teria sido doado a Lula como propina.

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