Naji Nahas: como um único homem quebrou a bolsa de valores do Rio

Regiane Medeiros
Colaborador do Torcedores
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Naji Nahas é um dos personagens mais famosos do mercado de capitais brasileiro.

O empresário e especulador ficou conhecido por ter sido “o homem que quebrou a Bolsa de Valores do Rio de Janeiro” no ano de 1989.

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Quem é Naji Nahas?

Naji Robert Nahas nasceu em 1947 no Líbano e em 1969 se mudou para o Brasil trazendo consigo uma fortuna, herança de família, de alguns milhões de dólares.

Com 22 anos na época, o objetivo de Nahas era empreender em terras brasileiras por meio de investimentos e compras de empresas de diversos nichos.

Por conta disso, o empresário adquiriu fábricas, bancos, seguradoras e investiu até na criação de coelhos.

Os investimentos deram resultados e multiplicaram. Nahas consolidou seu império e, antes dos 40 anos, já era dono de um conglomerado multimilionário.

Buscando multiplicar ainda mais sua fortuna, na década de 1980 o empresário começou a investir em ações nas bolsas de valores brasileiras.

O homem que quebrou a Bolsa

No final da década de 1980, o contexto econômico era de forte volatilidade. Os Planos Cruzado, Bresser e Verão não foram bem sucedidos no controle da inflação. A taxa de juros era alta, o câmbio, desvalorizado, e a economia brasileira ainda estava fechada para o resto do mundo.

Diante desse cenário, o frágil mercado de capitais brasileiro sofria muitas oscilações, dado o alto nível de incerteza sobre a economia e às políticas governamentais da época.

Em meio a essas circunstâncias, as principais bolsas de valores da época, paulista e carioca, disputavam um certo clima de rivalidade.

Para atrair mais investidores, o conselho de administração da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro (BVRJ) aprovou, em 2 de julho de 1988, uma nova forma de financiamento para os que negociavam no mercado de ações: as operações D-Zero.

Desse modo, a liquidação poderia ocorrer instantaneamente após o fechamento de cada contrato, por meio de financiamentos bancários. E não mais depois de cinco dias úteis, como era feito até então.

Com as novas regras implementadas, o volume de negócios na BVRJ aumentou progressivamente, atraindo muitos especuladores.

Esse movimento ficou ainda mais forte após a então Bovespa, de São Paulo, implementar medidas restritivas com o objetivo de reduzir a especulação nos contratos de opções.

Entre os especuladores que migraram para a Bolsa do Rio em busca de maiores retornos estava Naji Nahas.

Operação Zé-com-Zé

Além de atuar em operações de D-Zero, Nahas realizava ainda uma operação conhecida como Zé-com-Zé. Funcionava assim: ele comprava e vendia ações para si mesmo, através de “laranjas”. Desta forma, manipulava uma alta artificial das ações.

De acordo com a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o megainvestidor chegou a ter mais de 100 laranjas que compravam e vendiam ações para o próprio Nahas, com o objetivo de inflar a cotação dos papéis.

Desse modo, Nahas operava sem precisar usar seu próprio dinheiro. Logo, alavancava o mercado e direcionava-o conforme seus interesses – no caso, manter as ações em alta.

Como na época o mercado não estava aberto para investimento estrangeiro, a manipulação era mais fácil.

Nahas assumiu um forte controle e, praticamente, ditava os preços das ações. Sozinho, representava uma grande parcela do mercado.

Para se ter uma ideia, em cerca de dois meses de atuação na Bolsa do Rio, Nahas pagou US$ 3 milhões somente em corretagem.

Bolha especulativa

Em meio a essa forte especulação, autoridades ligaram o alerta sobre uma provável “bolha” especulativa.

O presidente da Bovespa na época, Eduardo da Rocha Azevedo, convencido de que o esquema do investidor não se sustentaria, solicitou aos bancos que cancelassem os empréstimos feitos a Nahas.

Na manhã do dia 9 de junho de 1989, Nahas teve seu pedido de financiamento negado pelo Planibanc. Na sequência, outros bancos que costumavam financiar as operações do megainvestidor também negaram ajuda.

Entre eles estavam, Banco Mercantil de Crédito (BMC), Bozzano Simonsen, Citibank, e o Banco Pontual.

Diante da recusa generalizada, a empresa Selecta, controlada por Nahas, emitiu um cheque sem fundos de cerca de NCz$ 39 milhões (moeda da época) para o pagamento de operações de compra de ações.

A devolução do cheque abalou as estruturas do mercado. E muitas corretoras que intermediavam as transações ficaram com prejuízos. Eles foram estimados em US$ 500 milhões.

Cinco delas tiveram que ser fechadas pelo Banco Central.

Após a notícia ter chegado nos jornais, o pânico tomou conta do mercado e as negociações da BVRJ ficaram suspensas (o mecanismo de circuit breaker só seria criado em 1997).

Assim que as negociações retomaram, muitos papéis mergulharam em queda livre, perdendo mais de 1/3 do valor.

Naji Nahas e o fim da bolsa do Rio

A partir de então, a Bolsa do Rio de Janeiro não se recuperou mais. E acabou fechando suas operações em 2000.

Em 1997 Naji Nahas foi condenado a 24 anos e 8 meses de prisão. No entanto, após recorrer ganhou o direito de ficar em liberdade.

Dez anos depois, em 2007, a justiça brasileira declarou a inexistência de crime contra o sistema financeiro. E Nahas passou de réu a inocente. Ingressou com um processo contra a Bovespa, pedindo uma indenização de R$ 10 bilhões. Quantia esta equivalente às ações confiscadas após o escândalo. Em 2014 o processo movido por Nahas foi julgado improcedente.

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