Pregões inesquecíveis: relembre os fatos que levaram euforia e desespero às bolsas

Regiane Medeiros
Colaborador do Torcedores
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Crédito: Reprodução/Pixabay

A bolsa de valores de qualquer país é influenciada por uma série de eventos internos e externos que se inter-relacionam e acabam por interferir na oscilação dos preços das ações.

Desse modo, fatores políticos, econômicos, tecnológicos e até mesmo sanitários são capazes de alterar a dinâmica da bolsa. E podem entrar para a lista das datas inesquecíveis para o mercado brasileiro e mundial.

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Abaixo, listamos todos estes eventos. Para quem passou por eles, vale relembrar. Para quem é jovem (vale dizer que as pesquisas apontam que o número de investidores que mais cresce atualmente no Brasil é o da faixa etária entre 16 e 25 anos), é importante ler a respeito. E procurar tirar lições sobre como o mercado se comporta diante do inesperado. Acompanhe!

Pregões inesquecíveis: crash de 1929

O ano era 1929, a economia norte-americana encontrava-se em um momento de plena prosperidade. A indústria vivia um período de forte expansão. Ao mesmo tempo, o  mercado de ações e os preços dos papéis subiam em linha com as perspectivas econômicas otimistas.

No entanto, toda a euforia acabou sendo canalizada para um cenário de pânico. Isso porque o índice Dow Jones mergulhou em queda livre naquilo que seria um dos piores declínios da história dos Estados Unidos.

A principal causa do crash de 1929 foi a especulação de ativos, em um período de grande expansão que os Estados Unidos viviam após a Primeira Guerra Mundial.

Na “quinta-feira negra” de 24 de outubro de 1929, o Dow Jones abriu o pregão em 305,85 pontos. Imediatamente, caiu 11%. Nos dias que seguiram o índice aprofundou os prejuízos.

Diante desse cenário de completo caos, milhares de acionistas perderam, literalmente da noite para o dia, grandes somas em dinheiro. Muitos perderam tudo o que tinham.

O mercado só foi capaz de recuperar os patamares anteriores ao crash de 1929 25 anos depois, no final de 1954.

Pregões inesquecíveis: Naji Nahas e a quebra da bolsa do Rio

Naji Nahas é um dos personagens mais famosos do mercado de capitais brasileiro. O empresário e especulador ficou conhecido por ter sido “o homem que quebrou a Bolsa de Valores do Rio de Janeiro” no ano de 1989.

Além de atuar em operações de D-Zero, Nahas realizava ainda uma operação conhecida como “Zé-com-Zé”. Desta forma, manipulava uma alta artificial das ações.

De acordo com a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o megainvestidor chegou a ter mais de 100 laranjas que compravam e vendiam ações para o próprio Nahas, com o objetivo de inflar a cotação dos papéis.

Em meio à forte especulação, autoridades ligaram o alerta sobre uma provável “bolha”.

Após ter pedidos de financiamentos negados por instituições financeiras, o pânico tomou conta do mercado e as negociações da BVRJ ficaram suspensas (o mecanismo de circuit breaker só seria criado em 1997).

Assim que as negociações retomaram, muitos papéis mergulharam em queda livre, perdendo mais de 1/3 do valor. A partir de então, a Bolsa do Rio de Janeiro não se recuperou mais. E acabou fechando suas operações em 2000.

Pregões inesquecíveis: Plano Collor

Em 1989, Fernando Collor de Mello foi eleito presidente do Brasil na primeira eleição direta desde o golpe de 1964.

Com um discurso pautado na necessidade de implementar um programa nacional de desestatização e eliminar a inflação, o plano acabou por aprofundar a recessão econômica.

Em 16 de março de 1990, por meio de um pronunciamento do próprio presidente, o Plano Collor foi apresentado. Entre as principais medidas estava a mudança da moeda, de Cruzados Novos para Cruzeiros, sem corte de zeros, e o início do processo de privatização das estatais.

Entretanto, o item mais marcante da pauta e que ainda está na memória da população brasileira foi o confisco da poupança.

Três dias após o lançamento do novo plano, no pregão do 19 de março de 1990, a Bolsa de Valores do Rio de Janeiro (hoje extinta) não registrou uma única negociação. Ao mesmo tempo, na Bovespa (hoje B3) somente nove negócios foram transacionados. E o Ibovespa recuou 12,1% no dia.

Um dia após, em 20 de março, uma terça-feira, o pânico tomou conta da Bolsa de Valores. A Bolsa derreteu 20,97%, superando a queda de 16,1% de outubro de 1987, quando ocorreu o crash da bolsa de Nova York.

Já no dia 21 de março, o Ibovespa registrou a maior queda da história da Bolsa brasileira. Recuou 22,27%. Em apenas três dias, a Bolsa registrou mais de 55,34% de desvalorização.

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Collor

Pregões inesquecíveis: crise asiática e russa

Em 1997 uma grave crise econômica se abateu sobre as principais economias emergentes da Ásia.

Entretanto, o que inicialmente era restrito aos tigres asiáticos, rapidamente se espalhou para outros países e por conta disso ficou conhecido como a primeira crise da economia globalizada.

Em 27 de outubro do mesmo ano, a Bolsa de Valores de Hong Kong registrou queda recorde ao cair 1.211 pontos em um só dia, recuando 5,8%.

O pânico gerou efeito dominó em várias bolsas mundiais. Em Nova York, a Bolsa encerrou as operações uma hora antes do normal, com o índice Dow Jones desvalorizando 7,18%, a maior queda desde o crash de 1987.

Em São Paulo, o recuo foi de 14,97%, a quarta maior baixa na história da bolsa brasileira e o pior desempenho entre todas as bolsas do mundo.

Logo após a crise asiática, semelhante evento atingiu a Rússia, em meados de 1998. O colapso financeiro resultou em uma crise política, mergulhando o país em uma turbulência ainda maior. Só na primeira semana de agosto, a Bolsa de Moscou perdeu 24% de seu valor.

Em 17 de agosto de 1998, em meio ao descontrole econômico e financeiro, o governo russo decide desvalorizar o rublo e declarar moratória sobre o pagamento da dívida externa.

A repercussão da crise não ficou restrita à Rússia e muitos países foram impactados. Em Wall Street, o índice Dow Jones caiu 4,2%, a terceira pior queda em 11 anos. O Ibovespa acionou o circuit breaker cinco vezes entre agosto e setembro daquele ano.

Pregões inesquecíveis: câmbio flutuante

O início de 1999 foi marcado por um período emblemático para a economia brasileira. O país, que até então seguia um modelo de âncora cambial, abandonou esse sistema em 15 de janeiro do mesmo ano, passando então a operar em regime de câmbio flutuante.

A repercussão da medida do governo atingiu instantaneamente diversos elementos da economia, de modo que a desvalorização cambial, a inflação e a taxa de juros foram as mais impactadas.

No mercado financeiro, a Bolsa de Valores brasileira passou por um período de grande oscilação em um curto espaço de tempo, indo do pânico à euforia em questão de dias.

No dia 13 de janeiro a bolsa acionou o primeiro circuit breaker e fechou em queda de 5,05%, após despencar 10,78%. Já no dia 14 de janeiro, a bolsa fechou em queda de 9,97%, após despencar 10,09%.

Já o dólar disparou 61% em menos de 15 dias, saltando de R$ 1,32 para R$ 2,13.

Pregões inesquecíveis: o estouro das ‘pontocom’

A bolha da internet surgiu de uma combinação de investimentos especulativos, abundância de financiamento de capital de risco para startups e falhas das empresas “pontocom” em lucrar.

Quantidades recordes de capital começaram a fluir para a Nasdaq em 1997. Em 1999, 39% de todos os investimentos em capital de risco iam para empresas da internet.

Naquele ano, a maioria das 457 ofertas públicas iniciais (IPOs) estavam relacionadas a empresas de tecnologia.

Em 10 de março de 2000, a bolha atinge seu pico e reverte a tendência, de modo a mergulhar em uma profunda queda em seguida.

A desvalorização que se seguiu a partir de então deixou os investidores perplexos e em pânico. O índice Nasdaq recuou de um pico de 5.048,62 em 10 de março de 2000, para 1.139,90 em 4 de outubro de 2002, uma queda de 76,81%.

Levaria 15 anos para a Nasdaq recuperar seu pico, o que fez em 24 de abril de 2015.

Pregões inesquecíveis: terror de 11 de setembro

Os ataques de 11 de setembro às Torres Gêmeas dos Estados Unidos certamente foram uma das maiores tragédias da história contemporânea.

O episódio que marcou a humanidade, ceifando quase 3 mil vidas, foi o estopim para grandes iniciativas dos Estados Unidos no combate ao terrorismo.

No mercado financeiro, os impactos foram sentidos no mundo inteiro. Enquanto os Estados Unidos fecharam as bolsas de valores por dias.

Em 17 de setembro, primeiro dia de negociação da Nyse após o atentado, o Dow Jones caiu 684 pontos, uma queda de 7,1%, batendo o recorde de maior perda para um dia de negociação.

No Brasil, a sessão da terça-feira, 11 de setembro abriu normalmente, mas seu funcionamento durou somente o período da manhã.

Em apenas uma hora após o início dos negócios, o Ibovespa havia derretido mais de 7%. A bolsa paulista suspendeu o pregão às 11h15, ao acionar o circuit breaker.

11 de setembro

Pregões inesquecíveis: pré-sal e investment grade

Em 2007, a descoberta de um supercampo de reserva de petróleo na costa brasileira causou grande alvoroço no mercado financeiro.

Diante da expectativa dos investidores sobre uma possível autossuficiência na produção de energia, mais especificamente de petróleo, as ações da Petrobras (PETR 3 PETR4) dispararam.

No fechamento do mercado, PETR3 saltou 14,44% cotada a R$ 33,57 enquanto PETR4 avançou 14,15%, cotada a R$ 25,37.

No ano seguinte à descoberta do pré-sal, mais notícias favoráveis no Brasil. Em 2008, o Brasil colhia os frutos de mais de uma década de gestão eficiente das políticas fiscal e monetária.

Diante desse contexto favorável, no dia 30 de abril de 2008 o país recebia pela primeira (e única) vez o título de Investment Grade (Grau de Investimento), dado pela agência de avaliação de rating, Standard & Poor’s (S&P).

Nesse dia, o pregão disparou 6,33%, aos 67.868 pontos no fechamento. O ânimo dos investidores se manteve ativo ainda por um bom tempo e, em cerca de duas semanas, o Ibovespa apresentou uma valorização de aproximadamente 15%, batendo o topo histórico de 73.794 pontos, em 19 de maio de 2008.

Pregões inesquecíveis: crise do subprime

Em 15 de setembro de 2008, o Lehman Brothers decretava sua falência. Até então, a instituição, de 164 anos, figurava como o quarto maior banco de investimento dos Estados Unidos. E contava com 25 mil funcionários em todo o mundo.

A quebra do banco varreu os mercados financeiros do mundo todo e deu início a uma grave crise financeira global, que ficou conhecida como crise do subprime.

No dia em que um dos mais tradicionais bancos americanos quebrou, o S&P 500 caiu 4,71%, o Dow Jones desabou 4,42% e o Nasdaq Composite recuou 3,60%.  Ao mesmo tempo, as ações do Lehman Brothers caíram 94,25% no pregão da bolsa de Nova York.

Em terras brasileiras, a bolsa também sentiu. E teve início um período que seria marcado por cinco circuit breakers no decorrer de um único mês.

Pregões inesquecíveis: Joesley Day

Em 18 de maio de 2017, o mercado financeiro viveu um dia que dificilmente vai sair da memória dos investidores. A data entrou para a história da bolsa brasileira como “Joesley Day”.

Naquele pregão, o pânico tomou conta do mercado, após a queda de mais de 10% do índice Ibovespa. E, diante do caos instalado, o mecanismo do circuit breaker teve que ser acionado após quase 10 anos inativo.

A Eletrobras (ELET 3ELET6) foi quem liderou o ranking das perdas, com baixa de 20,96% nas ações ordinárias.

Em seguida vieram Cemig (CMIG4), caindo 20,43% e Banco do Brasil (BBAS3), derretendo 19,9%. Já as ações da JBS (JBSS3) fecharam o dia em queda de 9,64%, muito longe do topo de desvalorizações.

Em sentido contrário, as empresas exportadoras tiveram um excelente desempenho, dado pela forte alta registrada no dólar daquele dia.

Fibria (FIBR3) e Suzano (SUZB3) foram os grandes destaques positivos, avançando  perto de 11% e 10%, respectivamente.

Pregões inesquecíveis: facada em Bolsonaro

Em 6 de setembro de 2018, a notícia a respeito da facada em Jair Bolsonaro, então candidato à presidência, pegou o país de surpresa.

Na época, Bolsonaro estava em um evento, em Juiz de Fora, estado de Minas Gerais, onde promovia sua campanha.

No dia, pouco antes das 16h, o principal indicador de referência da Bolsa de Valores, o Ibovespa, registrava uma leve alta de 0,37%, aos 75.371 pontos.

No entanto, logo após o ataque a Bolsonaro, o índice disparou e passou a operar com alta acima de 1,5%.

No fechamento do pregão, o Ibovespa chegou a 1,76%, saltando dos 75.098 pontos para 76.533 pontos.

facada Bolsonaro

Pregões inesquecíveis: pandemia de Covid-19

Em 2020, os mercados de ações de todo o mundo sofreram perdas históricas, sobretudo nos três primeiros meses do ano.

Em meio a uma venda maciça de papéis, o derretimento dos mercados financeiros foi provocado pela pandemia de coronavírus. Além de uma tragédia sanitária, ela foi também uma tragédia econômica global.

No dia em que o Brasil registrou o primeiro caso oficial de contaminação, em 26 de fevereiro, a reação geral foi de pânico. E o Ibovespa fechou o dia despencando 7%.

Essa foi a primeira grande queda de uma sequência inédita na história da B3.

Em apenas oito pregões de março, o circuit breaker foi acionado seis vezes. Ele é conhecido como o botão do “pânico”. A palavra, aliás, define bem o sentimento do momento.

Pregões inesquecíveis: Moro desembarca do governo

Passado o pior período de tensão com a pandemia, os investidores estavam respirando um pouco mais aliviados. E com uma visão um pouco mais otimista do mercado.

No entanto, mais uma turbulência estava por vir. Ao final do mês, mais precisamente em 24 de abril, o mercado financeiro viveu mais um dia de caos. Isto em meio ao anúncio da saída do então ministro da Justiça, Sérgio Moro, do governo de Jair Bolsonaro.

A demissão de Moro foi uma reação a Bolsonaro. O presidente havia exonerado, sem grandes justificativas, o indicado do ex-juiz para diretor-geral da Polícia Federal.

O mercado financeiro reagiu mal à coletiva de Moro. Às 11h23, o Ibovespa recuava mais de 6%, chegando a 74.681 pontos. Ao mesmo tempo, o dólar atingia novo recorde, cotado a R$ 5,60.

Mantendo o forte viés de baixa, às 12h22, o Ibovespa despencava 9,58%, aos 72 mil pontos. Diante do pânico instalado, o mercado esteve muito próximo de acionar novamente o circuit breaker.

Apesar da drástica pressão sobre as vendas, ao fim do dia, o Ibovespa reduziu suas perdas. E fechou em queda de 5,45%, aos 75.330 pontos.

Moro