Fed mantém taxas perto do zero e eleva expectativas sobre a inflação

Marco Antônio Lopes
Editor. Jornalista desde 1992, trabalhou na revista Playboy, abril.com, revista Homem Vogue, Grandes Guerras, Universo Masculino, jornal Meia Hora (SP e RJ) e no portal R7 (editor em Internacional, Home, Entretenimento, Esportes e Hora 7). Colaborador nas revistas Superinteressante, Nova, Placar e Quatro Rodas. Autor do livro Bruce Lee Definitivo (editora Conrad)

Crédito: Divulgação

O Fed (Federal Reserve, o banco central americano) divulgou nesta quarta (16) que o Fomc (Comitê Federal de Mercado Aberto, na sigla em inglês), composto por dirigentes da instituição, manteve as taxas de juros entre zero e 0,25%.

A decisão era aguardada pelo mercado, As atenções estavam com o comunicado do Fed. “Não se esperava que o Federal Reserve tomasse medidas imprevisíveis de política após sua reunião de dois dias esta semana, mas é provável que sinalize que está pensando nisso”, resumia artigo do portal CNBC, falando sobre as expectativas dos investidores.

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Mas o comunicado mostra que o Fed está atento e preocupado com o comportamento da inflação. A instituição elevou as expectativas de alta de preços.

“O Federal Reserve aumentou drasticamente suas expectativas para a inflação este ano e antecipou o prazo para o próximo aumento das taxas de juros”, observou a CNBC.

“No entanto, o banco central não deu nenhuma indicação de quando começará a cortar seu agressivo programa de compra de títulos”, acrescentou o portal.

O Fed diz que as condições da política monetária seguem acomodatícias, em meio a estímulos a empresas e famílias. A maioria dos dirigentes espera alta dos juros em 2023.

Dólar: estaria na hora de o Fed começar a retirar os estímulos da economia?

O comunicado do Fed começa dizendo que o quadro da economia aponta para estabilidade: “O progresso na vacinação reduziu a disseminação de Covid-19 nos Estados Unidos. Os indicadores de atividade econômica e de emprego se fortaleceram. Os setores mais afetados pela pandemia continuam fracos, mas mostraram melhorias. A inflação aumentou, refletindo em grande parte fatores transitórios. As condições financeiras gerais permanecem acomodatícias, em parte refletindo medidas de política para apoiar a economia e o fluxo de crédito para famílias e empresas dos EUA.”

Fed: inflação persistente, acima de 2%

O Fed menciona então a trajetória dos preços: “Com a inflação persistentemente abaixo dessa meta de longo prazo, o Comitê buscará atingir a inflação moderadamente acima de 2% por algum tempo, de forma que a inflação média seja de 2% ao longo do tempo e as expectativas de inflação de longo prazo permaneçam bem ancoradas em 2%.”

“Caminho da economia depende da trajetória do coronavírus”, reforça o comitê. “Estamos preparados para mudanças na política monetária se houver riscos aos nossos objetivos”, pondera o texto do comunicado.

O Fed fala sobre os estímulos à economia: “Continuaremos comprando pelo menos US$ 120 bilhões em por mês.”

As autoridades indicaram que os aumentos nas taxas poderiam ocorrer já em 2023, após indicar em março que não houve aumentos até pelo menos 2024. “O chamado gráfico de pontos das expectativas de membros individuais apontou para dois aumentos em 2023”, explica a CNBC.

O Fed elevou projeção para inflação em 2021 de 2,4% para 3,4%. Para 2022, aumenta apostas com taxas de 2,0% para 2,1%. E, para 2023, subiu de 2, 1% para 2,2%.

Embora o Fed tenha aumentado sua expectativa de inflação para 3,4%, um ponto percentual acima da projeção de março, o comunicado pós-reunião continuou a dizer que as pressões inflacionárias são “transitórias”, analisa a CNBC.

Os dirigentes fizeram análises sobre o mercado de trabalho e mantiveram projeção de taxa de desemprego de 2021 em 4,5%. Para 2022, o Fed reduziu a projeção de 3,9% para 3,8%. E, em 2023, apostam em 3 5%. No longo prazo, a taxa, estimada pelo banco central dos EUA, ficou em 4,0%.

Os membros do Fomc elevaram ainda as expectativas de PIB para este ano de 6,5%.

Reação do mercado

O mercado interpretou o comunicado do Fed, que sinaliza apreensão com a inflação, com pessimismo.

Cada integrante do comitê divulga seu “palpite” para a trajetória dos juros americanos. Embora a maioria (11 membros) tenha indicado que pretende manter os juros como estão (entre zero e 0,25%) em 2022, cinco dirigentes consideram necessários subir uma taxa para 0,25% a 0,50% no ano que vem, e dois dirigentes foram além —  propuseram juros entre 0,50% e 0,75%.

Para 2023, o cenário de aperto monetário parece consolidado, com apenas 5 dirigentes sugerindo manutenção entre zero e 0,25%.

Em Wall Street, as bolsas mantinham-se, antes do anúncio, no negativo. Após a divulgação do comunicado, os mercados caíram: Dow Jones recuava 0,57%; Nasdaq caía 0,45% e o S&P seguia em queda de 0,50%.

O Ibovespa, à espera do comunicado do Copom, hoje, às 18h30, renovou mínima e perdeu os 129 mil pontos, recuando 1,18%, aos 128.816 pontos. Mas voltou aos 129 mil depois das 16h, recuando 0,62%, aos 129.280 pontos. Perto das 17h, a queda diminuiu para 0,32%, aos 129.651.

O dólar comercial subia 0,08%, para R$ 5.047.

Powell: daremos sinais antes de fazer qualquer ajuste

Após o comunicado, o presidente do Fed, Jerome Powell, falou sobre a decisão do banco central dos EUA. Segundo ele, os investimentos das empresas estão avançando em ritmo forte. Mas, frisou Powell, a recuperação é incompleta e ainda há riscos para perspectiva de retomada consistente.

Há problemas na oferta de curto prazo que restringem atividade em alguns setores, afirmou o presidente do Fed. “O mercado de trabalho tem melhorado, mas de modo desigual”, alertou.

Powell argumentou que existem gargalos que ainda afetam a economia e que são maiores que os previstos pelo Fed. Afirmou que a inflação poderia ser ainda maior e mais persistente do que a esperada.

“Se percebemos sinais de informação ou expectativa acima da meta, estaremos prontos a agir.  Daremos sinalização antecipada antes de qualquer ajuste em nossa política”, complementou.

“Ficaremos com inflação acima de 2% ‘por algum tempo’, com política monetária acomodatícia. Continuaremos a elevar mensalmente nosso balanço em bônus nos mesmos níveis”, disse ele.

Powell falou ainda sobre o mercado de trabalho: “Estamos no caminho para um mercado de trabalho ficar muito forte. A taxa de participação da força de trabalho pode voltar a níveis elevados em breve.
Ainda há muitas pessoas cautelosas em buscar trabalho em certas áreas por causa da covid-19. Espero ver criação forte de empregos ganhando fôlego no verão (o do hemisfério Norte).”

E Powell voltou a falar sobre a alta de preços: “As expectativas de inflação podem subir mais. Há sim um risco de que inflação fique ainda mais alta do que esperamos.”

Previsões se confirmam

As previsões predominantes sobre o anúncio do Fed eram de manutenção da política adotada até aqui. A instituição vinha alertando que, apesar dos dados econômicos positivos, o mercado de trabalho ainda demanda atenção. E que a inflação em alta é passageira e natural após a crise causada pela pandemia.

Alguns números, como o do Índice de Preços ao Consumidor (IPC ou CPI em inglês) acima da projeção (5% em 12 meses, o resultado mais alto em 13 anos), acenderam o alerta para uma possível mudança de rumos do Fed. Os pedidos semanais de seguro-desemprego, que vieram pouco acima da projeção na última quinta (10), mas mantendo a tendência de queda, também estavam no radar do Fed.

Análise do BTG Pactual

Como era amplamente esperado pelo mercado, o Fomc optou por manter a taxa de juros estável no intervalo entre 0% e 0,25% e afirmou que continuará a aumentar a carteira de Treasury securities em pelo menos US$ 80 bilhões por mês e Mortgage-backed securities em pelo menos US$ 40 bilhões por mês.

Segundo o time Macro Research do BTG Pactual digital, o comunicado divulgado não mostrou alterações relevantes, embora o mercado monitorasse a possibilidade de algum comentário marginal sobre o futuro do programa de compra de ativos.

A “novidade” veio a partir da atualização de suas expectativas para os principais indicadores macroeconômicos do país e a mudança de posicionamento de alguns dirigentes sobre o início do aperto monetário.

No comunicado, o comitê ressaltou que os indicadores de emprego e atividade econômica melhoraram a partir do apoio das vigorosas políticas do governo e manteve seu diagnóstico de que os sinais de pressão nos preços refletem fatores transitórios. Adicionalmente, os dirigentes observaram que o avanço do cronograma de vacinação e, consequentemente a redução dos casos e óbitos no país, reduzem o risco sanitário.

Em suas projeções, a autoridade monetária elevou sua expectativa de PIB de 6,5% para 7% e a de PCE de 2,4% para 3,4% para 2021.

O destaque fica com a alteração da projeção mediana para a taxa de juros (fed funds rate) para 2023. As estimativas saíram de 0,125% para 0,625% – o que sugere duas elevações de 25 bps no ano. É importante ressaltar que 8 das 18 projeções individuais apontaram até mais do que duas elevações em 2023.

O presidente do Fed, Jerome Powell, em sua coletiva de imprensa, afirmou que a inflação sofreu uma alta significativa nos últimos meses, parte advinda da base fraca de comparação e custos de energia, mas também a partir da retomada da economia. Assim, a inflação poderia apresentar uma aceleração mais forte e se provar maior do que o esperado anteriormente. Caso isto ocorra, o comitê reforça que estará pronto para agir e ancorar as expectativas de longo de prazo.

Sobre o início da discussão sobre a redução da compra de ativos apontada na última Ata, Powell afirmou que esta reunião teve o mesmo direcionamento revelado na última alta: “discutir sobre discutir” o tapering, mas sem dar outros indícios sobre o timing. Ele reafirmou que o comunicado será feito de forma antecipada, ordenada e transparente. O mercado seguirá olhando com cuidado as aparições e discursos dos membros do Fed ao longo das próximas semanas.

Após a apresentação da decisão do FOMC e a fala do Powell, o DXY, indicador que compara a força da moeda americana contra uma cesta de moedas fortes internacionalmente, apresentou reversão de tendência, passando a subir.

Os juros das treasuries de 5, 7 e 10 anos, que ficaram mais comportados nas últimas semanas, estressaram, passando a testar as máximas diárias – especialmente por um aumento do juro real.

Fed: inflação na pauta desde o encontro anterior

No encontro anterior, realizado em 27 e 28 de abril, o Fed manteve as taxas de juros entre zero e 0,25% e as compras de títulos em US$ 120 bilhões por mês.

O ponto central do comunicado naquela ocasião dizia respeito às expectativas de inflação do Banco Central americano.

Na ata sobre aquela reunião, o Fomc considerava a alta do preços transitória. Os dirigentes observaram que a atividade econômica avançava acentuadamente nos EUA, mas segue longe de metas de inflação  e emprego.

Outras pistas sobre o que o Fed poderia tratar no comunicado deste 16 de junho foram dadas no último dia 2 no Livro Bege, elaborado pelos dirigentes do Fomc, com análises sobre a atividade americana a partir de pesquisa em 12 regiões do país. O comitê observava que a economia dos EUA se expandiu moderadamente do início de abril ao fim de maio.

Mas o Fed faz algumas ressalvas e algumas delas apontam pressões sobre preços, que aumentaram, segundos membros do Fomc, ainda mais desde o último levantamento.

Era uma constatação já informada pelos últimos indicadores do país — entre os quais o núcleo do PCE, medida principal do Fed para acompanhar a variação dos preços, que subiu 3,1% na base anual, ante 1,9% de março. A expectativa era por leitura de 2,9%.

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