BC: Copom mantém taxa Selic a 2% ao ano e retira o forward guidance

Marco Antônio Lopes
Editor. Jornalista desde 1992, trabalhou na revista Playboy, abril.com, revista Homem Vogue, Grandes Guerras, Universo Masculino, jornal Meia Hora (SP e RJ) e no portal R7 (editor em Internacional, Home, Entretenimento, Esportes e Hora 7). Colaborador nas revistas Superinteressante, Nova, Placar e Quatro Rodas. Autor do livro Bruce Lee Definitivo (editora Conrad)
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Crédito: Reprodução/Linkedin

Em meio ao aumento da inflação de alimentos que começa a estender-se por outros setores, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) decidiu não mexer nos juros básicos da economia. A taxa Selic se mantém em 2% ao ano pela quarta vez seguida, patamar que representa a mínima histórica.

Foi a primeira reunião do comitê no ano, feita como de costume em duas partes — na terça e quarta. A decisão, por unanimidade, era aguardada pelo mercado.

Em comunicado, o Copom lembrou que a alta do preço das commodities (bens primários com cotação internacional) e a alta do dólar pressionam a inflação no início do ano.

Por outro lado, o nível de ociosidade da economia e o aumento no número de casos de covid-19 diminuem a demanda e puxam para baixo os índices de preços.

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Copom retira forward guidance

Um dos temas aguardados pelo mercado era se o Copom iria retirar o forward guidance ou apontar que faria isso em seu próximo encontro, em março.

O comitê decidiu pela primeira alternativa.

A ferramenta de política monetária, que quer dizer prescrição futura, é usada pelo Banco Central para sinalizar a taxa de juros de determinado período, deixando o cenário mais previsível.

Foi implantada durante a pandemia e agora deixada de lado. O Copom diz que o fim do forward guidance não implica mecanicamente elevação da taxa de juros.

Mas abre espaço para que isso possa ocorrer.

“Segundo o forward guidance adotado em sua 232ª reunião, o Copom não reduziria o grau de estímulo monetário desde que determinadas condições fossem satisfeitas”, explica.

“O Copom avalia que essas condições deixaram de ser satisfeitas já que as expectativas de inflação, assim como as projeções de inflação de seu cenário básico, estão suficientemente próximas da meta de inflação para o horizonte relevante de política monetária.”

E conclui: “Como consequência, o forward guidance deixa de existir e a condução da política monetária seguirá a análise usual do balanço de riscos para a inflação prospectiva.”

 

Comunicado cita pandemia e atividade econômica

No comunicado o BC explica: “No cenário externo, o aumento do número de casos e o aparecimento de novas cepas do vírus têm revertido os ganhos na mobilidade e deverão afetar a atividade econômica no curto prazo.”

O comitê pondera: “No entanto, novos estímulos fiscais em alguns países desenvolvidos, unidos à implementação dos programas de imunização contra a Covid-19, devem promover uma recuperação sólida da atividade no médio prazo.”

Complementa: “A presença de ociosidade, assim como a comunicação dos principais bancos centrais, sugere que os estímulos monetários terão longa duração, permitindo um ambiente favorável para economias emergentes.”

Observa o Copom: “Em relação à atividade econômica brasileira, indicadores referentes ao final do ano passado têm surpreendido positivamente, mas não contemplam os possíveis efeitos do recente aumento no número de casos de Covid-19.”

Políticas fiscais

Segundo o Copom, o prolongamento das políticas fiscais de resposta à pandemia pode elevar prêmio de risco.

O risco fiscal elevado, diz o comitê, segue criando assimetria altista no balanço de riscos. A conjuntura continua a prescrever estímulos extraordinariamente elevados frente à atividade econômica.

O BC mantém diagnóstico de choque inflacionário temporário, mas cita pressão mais forte no curto prazo,

De acordo com o Copom, o horizonte relevante da política monetária inclui 2021 e, principalmente, 2022.

Ritmo de crescimento

“Prospectivamente, a incerteza sobre o ritmo de crescimento da economia permanece acima da usual, sobretudo para o primeiro trimestre deste ano, concomitantemente ao esperado arrefecimento dos efeitos dos auxílios emergenciais”, analisa.

O comunicado menciona a alta das commodities e os impactos na inflação: “A recente elevação no preço de commodities internacionais e seus reflexos sobre os preços de alimentos e combustíveis implicam elevação das projeções de inflação para os próximos meses.”

Diz ainda o Copom: “Apesar da pressão inflacionária mais forte no curto prazo, o Comitê mantém o diagnóstico de que os choques atuais são temporários, ainda que tenham se revelado mais persistentes do que o esperado. Assim, o Copom segue monitorando sua evolução com atenção, em particular as medidas de inflação subjacente.”

Projeções de inflação

As expectativas de inflação para 2021, 2022 e 2023, apuradas pela pesquisa Focus, encontram-se em torno de 3,4%, 3,5% e 3,25%, respectivamente, lembra o Comitê.

“No cenário básico, com trajetória para a taxa de juros extraída da pesquisa Focus e taxa de câmbio partindo de R$5,35/US$*, e evoluindo segundo a paridade do poder de compra (PPC), as projeções de inflação do Copom situam-se em torno de 3,6% para 2021 e 3,4% para 2022”, detalha.

Esse cenário supõe trajetória de juros que se eleva até 3,25% a.a. em 2021 e 4,75% a.a. em 2022.

No cenário básico, com trajetória para a taxa de juros extraída da pesquisa Focus e taxa de câmbio partindo de R$5,35/US$*, e evoluindo segundo a paridade do poder de compra (PPC), “as projeções de inflação do Copom situam-se em torno de 3,6% para 2021 e 3,4% para 2022. Esse cenário supõe trajetória de juros que se eleva até 3,25% a.a. em 2021 e 4,75% a.a. em 2022.”

O BC diz que monitora, em particular, as medidas de inflação subjacente. Além disso, as medidas de inflação subjacente estão acima do intervalo compatível com a meta.

Selic: menor nível desde 1986

O último corte da Selic, de 2,25% para 2%, realizado na reunião de agosto, reduziu a taxa ao seu piso histórico.

Na reunião de 16 de setembro, o BC interrompeu a série de nove cortes e manteve a Selic no mesmo patamar.

Em termos comparativos, em agosto de 2016, a taxa básica era de 14,25%. Mas já chegou a 45%, em março de 1999.

No entanto, diante das incertezas fiscais, a expectativa de manutenção dos 2% até meados de 2021 já não se mantém.

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Quando e quanto a Selic aumenta?

Agora, o que não é unanimidade entre os analistas é de quando e quanto será o reajuste da Selic.

Para o economista-chefe da Ativa Investimentos, Étore Sanchez, a Selic deve ser mantida nos atuais 2% ao longo de todo o ano de 2021.

Ele acredita ainda que o forward guidance será mantido amanhã, mas retirado no encontro dos dias 16 e 17 de março.

No entanto, para ele, isso não quer dizer que a taxa de juros irá subir logo na sequência.

“Não existe uma relação mecânica entre retirada do forward guidance e subida da Selic. Acredito que a retirada se dará mais pelo horizonte de longo prazo, mirando 2022, quando as regras do jogo deverão estar voltando ao normal”, afirma.

Juros devem subir e chegar até 3% no segundo semestre, projeta Anbima

Em sua avaliação, a manutenção da taxa básica de juros em 2% neste ano é necessária. Isto porque o ambiente econômico ainda requer estímulos e a inflação deve se manter abaixo da meta, apesar dos repiques recentes.

“Esse contexto prescreve que o juro fique em patamar estimulativo”, afirma. Ele acredita que alta atual da inflação é pontual e não se repetirá graças à retirada do auxílio emergencial, sem chances de ser renovado. “Não há espaço orçamentário para isso”, diz.

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Aumento da Selic pode vir em três meses

Já para Pedro Galdi, analista de investimentos da Mirae Asset, o aumento da Selic deve vir dentro de três meses.

“O Banco Central deve retirar em breve o forward guidance, preparando o mercado para o aumento da Selic”, confirma.

“O aumento deve acontecer daqui uns três meses. Se o IPCA não recuar, o Banco Central deve aumentar a taxa sim”, avalia.

A previsão de retirada do forward guidance também foi feita pelo banco UBS. A previsão para Selic no ano é de 4%.

“Antes, a inflação estava muito abaixo da meta, principalmente durante a pandemia. O que aconteceu de uns dois ou três meses para cá foi que a economia mostrou mais sinais de aceleração, a inflação em tempo real, do dia a dia, subiu mais que o esperado e, principalmente, as expectativas de inflação para frente começaram a subir um pouco e a diminuir a diferença em relação à meta oficial. As expectativas para 2022 estão na meta e as de 2021 começaram a ficar mais próximas”,  disse o analista do banco Fabio Ramos ao portal Investing.

Paulo Filipe de Souza, sócio e assessor da EQI Investimentos, também visualiza uma subida para a Selic.

“A alta da Selic pode ser maior do que a projetada pelo Boletim Focus. O mercado acredita que inflação e dólar não estão sendo precificados corretamente. E os juros devem subir mais rápido neste primeiro semestre. Isto apesar de Banco Central afirmar que não vai precisar mexer nisso agora”, diz.

Projeções para a Selic de até 5%

Segundo o Boletim Focus, que semanalmente levanta as projeções do mercado, a taxa básica de juros deve alcançar 3,25% até dezembro.

Mas parcela dos analistas considera que tal projeção está descolada da realidade, já que os juros futuros indicam Selic a mais de 4% e até 5% ainda em 2021.

Isto decorre da alta inflacionária, já que, contra todas as projeções, a inflação oficial medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) fechou o ano de 2020 em 4,52%, sendo esta a maior alta desde 2016. Em dezembro, ela acelerou para 1,35%, a variação mais intensa desde fevereiro de 2003 (1,57%) e a maior para um mês de dezembro desde 2002 (2,10%).

Como consequência, os juros futuros dispararam. Eles representam uma estimativa do mercado para o valor dos juros em um momento futuro, podendo ser meses ou anos. Na prática, os juros sobem quanto maior a percepção de risco dos investidores.

Cenário para investimentos

Se estas projeções se confirmarem e a Selic entrar em tendência de alta, muitos produtos de renda fixa, que perderam a rentabilidade durante a crise, podem voltar a ficar atrativos.

Porém, o investidor não deve perder de vista a pressão inflacionária. Por conta disso, os ativos atrelados ao IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo – indicador oficial de inflação) e os que têm vencimento de curto prazo são as principais apostas para o momento atual.

Além de opção de diversificação, os ativos atrelados ao IPCA funcionam como proteção do poder de compra.

Os investidores com ativos atrelados ao CDI também tendem a se beneficiar com uma taxa básica próxima de 4% ou 5%.

“Hoje, ainda há ativos que entregam retornos de 150% do CDI ao ano. Como, por exemplo, os Certificados de Depósito Bancário”, diz Paulo de Souza, da EQI.

Referência

A Selic, que serve de referência para os demais juros da economia, é a taxa média cobrada em negociações com títulos emitidos pelo Tesouro Nacional, registradas diariamente no Sistema Especial de Liquidação e de Custódia (Selic).

O Banco Central atua diariamente por meio de operações de mercado aberto – comprando e vendendo títulos públicos federais – para manter a taxa de juros próxima ao valor definido na reunião.

Ao manter a Selic no mesmo patamar, o Copom considera que as alterações anteriores nos juros básicos foram suficientes para chegar à meta de inflação, objetivo que deve ser perseguido pelo BC.

Ao reduzir os juros básicos, a tendência é diminuir os custos do crédito e incentivar a produção e o consumo.

Para cortar a Selic, a autoridade monetária precisa estar segura de que os preços estão sob controle e não correm risco de ficar acima da meta de inflação.

Quando o Copom aumenta a Selic, a finalidade é conter a demanda aquecida, e isso causa reflexos nos preços porque os juros mais altos encarecem o crédito e estimulam a poupança.

Trajetória da Selic

A taxa atual, de 2%, é a mais baixa já registrada na série histórica, que teve início em 1999. E é resultado de um ciclo de nove cortes recentes da Selic.

Em termos comparativos, em agosto de 2016, a taxa básica era de 14,25%. Mas já chegou a 45%, em março de 1999.

Como a Selic afeta os investimentos?

A Selic é o principal instrumento de política monetária utilizado pelo BC para controlar a inflação.

Quando o Copom reduz a Selic, a tendência é que o crédito fique mais barato. O que incentiva a produção e o consumo, mas reduz o controle da inflação.

Em sentido contrário, quando o Copom aumenta a taxa básica de juros, seu objetivo é conter a demanda aquecida. Isso causa reflexos nos preços, porque os juros mais altos encarecem o crédito e estimulam a poupança.

Para o investidor, a Selic deve ser um norte para montar uma boa carteira de investimento. Com a taxa de juros baixa, os rendimentos da renda fixa deixam de ser tão atrativos.

Neste contexto, o mercado de ações ganha destaque, assim como os Fundos Imobiliários.

Em sentido contrário, quando a Selic sobe, a renda fixa volta a ficar mais atraente.

Taxa é a mais baixa da história

A taxa atual, de 2%, é a mais baixa já registrada na série histórica, que teve início em 1999. E representa a nona redução de um ciclo de cortes recentes da Selic.

Em termos comparativos, em agosto de 2016, a taxa básica era de 14,25%. Mas já chegou a 45%, em março de 1999.

Crédito mais barato

A manutenção da taxa Selic em níveis baixos estimula a economia porque juros menores barateiam o crédito e incentivam a produção e o consumo em um cenário de baixa atividade econômica.

No último Relatório de Inflação, o Banco Central projetava crescimento de 3,8% para a economia em 2021. A projeção pode ser revisada nos próximos relatórios, que saem no fim de cada trimestre.

O mercado projeta contração um pouco menor. Segundo a última edição do boletim Focus, os analistas econômicos preveem contração de 3,45% do Produto Interno Bruto (PIB, soma dos bens e serviços produzidos pelo país) neste ano.

A taxa básica de juros é usada nas negociações de títulos públicos no Sistema Especial de Liquidação e Custódia (Selic) e serve de referência para as demais taxas de juros da economia.

Ao reajustá-la para cima, o Banco Central segura o excesso de demanda que pressiona os preços, porque juros mais altos encarecem o crédito e estimulam a poupança.

Ao reduzir os juros básicos, o Copom barateia o crédito e incentiva a produção e o consumo, mas enfraquece o controle da inflação.

Para cortar a Selic, a autoridade monetária precisa estar segura de que os preços estão sob controle e não correm risco de subir.

*Com Agência Brasil

 

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