Setor de varejo no Brasil: vale a pena investir?

Carla Carvalho
Graduada em Ciências Contábeis pela UFRGS, pós-graduada em Finanças pela UNISINOS/RS. Experiência de 17 anos no mercado financeiro, produtora de conteúdo de finanças e economia.

Crédito: Pixabay

Apesar da pandemia, o setor de varejo no Brasil continua crescendo acima do PIB. É o que aponta a versão 2021 do estudo “O Papel do Varejo na Economia Brasileira”, da Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo (SBVC).

Nesse sentido, em 2020 o varejo restrito (bens de consumo, exceto veículos e materiais de construção) teve impacto de 23,6% no PIB. Isso corresponde a R$ 1,75 trilhão, e representa um crescimento real de 1,2% no ano passado frente a 2019.

Por sua vez, o varejo ampliado em 2020 (considera veículos e materiais de construção) teve 27,6% de impacto no PIB, ou R$ 2,04 trilhões.

Em relação à representatividade, o estudo demonstra que o valor agregado do varejo corresponde a, aproximadamente, 11% do PIB brasileiro.

Vale a pena investir no setor de varejo no Brasil?

Sobre o desempenho e perspectivas do setor de varejo no Brasil, conversamos com Aline Cardoso, co-head de research daEQI Investimentos. A seguir, conheça algumas das principais empresas de varejo listadas na B3, e confira a opinião da gestora sobre o segmento.

Empresas de varejo listadas na B3

Começaremos listando algumas das principais empresas do varejo brasileiro na B3 (em ordem alfabética):

EmpresaCódigo
AlpargatasALPA4
AmericanasAMER3
AssaíASAI3
ArezzoARZZ3
CarrefourCRFB3
CentauroSFBG3
C&ACEAB3
GuararapesGUAR3
Grupo MateusGMAT3
Grupo Pão de AçúcarPCAR3
Grupo SomaSOMA3
Lojas Quero QueroLJQQ3
Lojas RennerLREN3
MarisaAMAR3
MoblyMBLY3
NaturaNTCO3
Pague MenosPGMN3
PetzPETZ3
RaiDrogasilRADL3
ViaVIIA3
WestwingWEST3
VivaraVIVA3

Perspectivas para o varejo brasileiro em 2022

Segundo Aline, o varejo deve continuar em um cenário de recuperação de vendas no ano que vem. Isso porque ainda existem vários subsetores que ainda estão com faturamento abaixo do nível pré-pandemia.

Para a gestora, os maiores destaque em crescimento de vendas e Ebitda deverão ser os setores de pets, vestuário, e-commerce e restaurantes.

“Acredito que os movimentos de consolidação devem continuar. Isso porque ainda existem muitos varejistas menores e não listados em situação delicada de alavancagem. Por isso, os maiores devem continuar a comprar os menores. Em relação à situação de caixa, os principais varejistas listados na bolsa estão bastante confortáveis. Nesse sentido, chama atenção Lojas Renner (LREN3), que levantou R$ 4 bilhões em um follow-on este ano e ainda não gastou quase nada”.

Em uma perspectiva de prazo mais longo, Aline acredita ainda ter muito espaço para consolidação orgânica e ganho de market share pelos players maiores. Para ela, excluindo os subsetores de alimentação e drogaria, a maior parte dos segmentos são bastante pulverizados. “Por exemplo, a Petz é a maior do seu segmento e possui somente 10% de market share. Já a Vivara, também a maior do seu segmento, possui 8% de share”, explica.

Riscos

Para Aline, o maior risco para o varejo brasileiro em 2022 é a continuidade da pressão inflacionaria. Nesse sentido, alguns varejistas já mencionaram que as vendas em setembro e outubro foram mais fracas do que no primeiro semestre desse ano. O principal motivo é a inflação, sentida de forma mais forte pelo consumidor. Nesse caso, os subsetores mais expostos são os de consumo discricionário, como vestuário e eletroeletrônicos, por exemplo.

O que observar na hora de analisar as empresas de varejo?

Para fins de análise das empresas, é importante dividir o varejo em alguns subsetores. A seguir, Aline dá dicas sobre o que deve ser observado nas empresas de e-commerce, consumo essencial (alimentos, drogarias, pets, entre outros) e vestuário e moda.

E-commerce

No varejo online, a gestora destaca a importância do crescimento de GMV (gross merchandise value) e da margem bruta. Além disso, o indicador LTV/CAC (lifetime value dividido pelo custo de aquisição do cliente) também é relevante na hora da análise.

Consumo essencial, vestuário e moda

Para a análise desses subsetores, Aline prioriza os seguintes indicadores:

– abertura de lojas e curva de maturação dos novos pontos de venda;

– variação do SSS (vendas mesmas lojas);

– vendas por metro quadrado;

– margem bruta e margem EBITDA;

– capex (investimentos no imobilizado);

– giro de estoque;

– ROIC (retorno sobre capital investido).

Ações de varejo preferidas da gestora

Sobre suas preferências no varejo, Aline destaca duas ações brasileiras (Petz e Vivara) e um BDR (Mercado Livre). A seguir, confira os motivos da gestora.

Petz (PETZ3)

Em relação à Petz, Aline ressalta que a companhia se beneficia da forte  tendência de humanização dos pets. Nesse sentido, o aumento com cuidados veterinários e, também com acessórios (roupas, brinquedos, etc) tem sido notório a cada ano.

“Nos últimos 10 anos, esse segmento vem crescendo 12% ao ano. Além dessa evolução, a Petz (que ja é a maior do segmento, com 10% de market share) deve crescer ainda mais. Isso porque a companhia tem um plano de abertura de 25 a 30 lojas por ano. Outro ponto importante é a sua forte presença online, que já representa 30% das vendas. E, desses 30%, um terço corresponde a vendas via modelo de subscrição, que tem maior recorrência e permite à Petz ter uma acuracidade de estoque maior”.

Mercado Livre (MELI34)

Sobre a Mercado Livre, a gestora destaca que, apesar de ser o maior player de e-commerce da America Latina, a companhia continua crescendo a um ritmo de 40% ao ano.

“No Brasil, o e-commerce, representa somente 10% das vendas do varejo. Isso significa que, mesmo que o varejo não cresça, o comércio online ainda tem muito espaço para aumentar a sua penetração”, justifica.

Aline também ressalta o expressivo business de pagamentos da Mercado Pago, com 31 milhões de clientes e um TPV (total payment volume) de USD 80 bilhões por ano.

Vivara (VIVA3)

Por fim, sobre Vivara (VIVA3), Aline destaca a liderança no segmento e o baixo market share, de 8%. Ou seja, há muito espaço para a empresa crescer e se consolidar.

Outro ponto que chama atenção da gestora é o modelo de negócio diferenciado da vivara, com produção totalmente verticalizada. “Dessa forma, caso alguma coleção não venda bem nas lojas, a empresa não precisa fazer liquidação. Ou seja, ela pode simplesmente recolher as peças, enviá-las para a sua fábrica, derreter o metal e fazer outra joia”, conclui.

Segundo Aline, é por isso que a empresa opera com margens brutas altíssimas, na casa dos 70% e ROIC de 35%. Atualmente, a ação da VIVA3 é negociada a  23x P/E.

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