Câmbio e China garantem resultados de mineração e siderurgia no 3TRI20

Cláudia Zucare Boscoli
Jornalista formada pela Cásper Líbero, com pós-graduação em Jornalismo Econômico pela PUC-SP, especialização em Marketing Digital pela FGV e extensão em Jornalismo Social pela Universidade de Navarra (Espanha), com passagens por IstoÉ Online, Diário de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e Editora Abril.
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Crédito: Reprodução/Pixabay

As empresas de mineração e siderurgia tiveram um terceiro trimestre bastante favorável. Elas foram impulsionadas pela demanda crescente por commodities no mercado externo. E também pela alta do dólar ante o real.

Em mineração, especificamente, o Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) aponta que o saldo entre exportação e importação correspondeu a 45,5% de todo o saldo comercial do Brasil no período.

O faturamento da indústria foi de R$ 50 bilhões. E a produção, em 287 milhões de toneladas de minérios. O valor supera o registrado no segundo trimestre e também o terceiro trimestre de 2019.

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O principal destino dos minérios brasileiros é a China, maior consumidora de minério de ferro do mundo. Sozinho, este país demanda mais de 60% de toda a produção mundial. E consome, anualmente, cerca de 1,1 bilhão de toneladas para alimentar suas usinas de aço. Atualmente, o minério de ferro é cotado em mais de US$ 100 a tonelada.

“Em função da pandemia, tínhamos incerteza quanto à demanda. E estamos conseguindo sair em uma situação de crescimento. Do ponto de vista da mineração, em especial, a recuperação foi acima do esperado”, explica Luciano Borges, ex-secretário nacional de Minas e Energia.

Ele confirma que o bom resultado vem da recuperação chinesa pós-pandemia mais rápido do que o esperado. E também do fato que as exportações ficaram mais competitivas no mercado externo devido ao câmbio.

Siderurgia

A siderurgia também teve um desempenho acima do esperado, com demanda interna crescente, em especial para a construção civil.

“Internamente, os setores de base, que são construção civil, agricultura e mineração, estão puxando a retomada do crescimento. E isso melhora o resultado financeiro destas empresas”, afirma.

A Gerdau, por exemplo, já prevê que o consumo de aço no próximo ano terá crescimento próximo a 8%.

A demanda aquecida por aço compromete os estoques e gera o receio de falta do produto no mercado. No entanto, os especialistas apontam que, com a retomada dos trabalhos nas fábricas, a situação tende a se normalizar rapidamente.

Vale (VALE3)

A Vale tem sido, seguramente, uma das mais beneficiadas pela junção de demanda chinesa e dólar em alta.

A receita líquida no terceiro trimestre da empresa atingiu R$ 58 bilhões, com alta de 43% sobre o segundo trimestre do ano e no mesmo tamanho em relação ao terceiro trimestre de 2019.

Diante da forte evolução do faturamento e estratégia de contenção de custos, a empresa registrou Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) no terceiro trimestre de R$ 33 bilhões, com alta de 81% sobre o segundo trimestre e de 79% sobre o mesmo período do ano passado.

Já o resultado financeiro, com sua baixa exposição em dívidas, também ajudou a apurar um lucro líquido de R$ 15,6 bilhões, um dos melhores resultados da história da empresa.

Para o BTG, o resultado apresentado pela Vale foi surpreendente. “O principal destaque foi a conversão impressionante de Ebitda em FCFE (fluxo de caixa do acionista) da Vale, chegando perto de 60%, o que consideramos incomparável em nosso universo de cobertura.

Em outras palavras, a Vale entregou um rendimento FCFE anualizado de 26,8%, enfatizando o retorno de caixa futuro potencial. Mantemos a Vale como nossa primeira escolha”, afirmam os analistas do BTG Leonardo Correa, Caio Greiner e Ricardo Cavalieri.

Dividendos em 2021

Dentro desse cenário, vai se confirmando ainda a perspectiva de que a companhia de mineração pagará dividendos robustos nos próximos meses, na avaliação de Pedro Galdi, da Mirae Asset.

“Em 2021, ela deve ser uma das boas pagadoras de dividendos, com dividend yield acima de 10%, além de continuar apresentando desalavancagem”, aponta.

Em sua opinião, o resultado superou expectativas, apesar da piora do cenário econômico global, com a volta da ameaça da Covid-19, pode ainda contaminar o mercado acionário.

CSN (CSNA3)

A Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) teve receita líquida de R$ 8,715 bilhões, com aumento de 45% em relação ao terceiro trimestre do ano passado.

O lucro líquido foi R$ 1,261 bilhão, revertendo o prejuízo de R$ 870,6 milhões em igual período de 2019.

O aumento foi decorrente do maior volume de vendas e de preço do minério de ferro. E também de preços e de volume de aço e de cimento.

Em siderurgia, as vendas atingiram 1.274 mil toneladas, 19% acima do mesmo período de 2019 e 27% acima do segundo trimestre de 2020, com forte aumento nas vendas internas.

A receita líquida na siderurgia atingiu R$ 4,570 bilhões, 33% superior ao segundo trimestre.

Em mineração, o volume foi de 9,2 milhões/tonelada, estável em relação ao terceiro trimestre de 2019 e 18% superior ao segundo trimestre de 2020.

A receita líquida da mineração totalizou R$ 3,861 bilhões, 44% superior à registrada no trimestre anterior.

“Sem dúvida, foi um bom resultado, como era esperado. A empresa reiterou que espera encerrar o ano com uma relação dívida líquida/Ebitda de 2,99 vezes. E, em 2021, de 2,50 vezes. Continuamos otimistas com a empresa. E o grande evento para a empresa será o IPO do seu negócio de mineração”, afirma Pedro Galdi, da Mirae Asset.

Diante do bom momento, a CSN entrou com pedido de oferta inicial de ações (IPO) da CSN Mineração.

Conforme a companhia, os recursos levantados na tranche primária serão direcionados à execução de seus projetos de expansão, como o projeto Itabirito P15 e os Projetos de Recuperação de Rejeitos de Barragem Pires e Casa de Pedra.

Usiminas (USIM5)

Com relação a Usiminas, na avaliação da Mirae, o resultado foi bom, refletindo a retomada da economia local. Mas também mostra os efeitos da volta de produção de seu principal cliente, a indústria automobilística. Há seis meses, o setor registra aumento de vendas, apesar de no acumulado do ano ainda estar abaixo do mesmo período de 2019.

A Usiminas registrou lucro de R$ 198,08 milhões no terceiro trimestre de 2020, revertendo o prejuízo de R$ 138,98 milhões do mesmo período de 2019.

Adicionalmente, teve seu segundo maior Ebitda trimestral em dez anos. No período, o Ebitda ajustado consolidado da companhia atingiu R$ 826 milhões. Com elevação de 331% em relação ao segundo trimestre do ano, quando alcançou R$ 192 milhões. O crescimento é atribuído, principalmente, aos melhores resultados nas unidades de mineração e de siderurgia.

Gerdau (GGBR4)

Com a forte retomada na demanda de aço no mercado interno e volta das unidades paralisadas pela pandemia, a Gerdau (GGBR4) produziu 3,2 milhões de toneladas no terceiro trimestre, com alta de 32% sobre o segundo trimestre e de 17% sobre o mesmo período do ano passado.

O lucro líquido foi de R$ 795 milhões, um aumento de 95% em relação ao mesmo período de 2019.

Além disso, a empresa foi favorecida pelo câmbio e pelo preço das commodities, mas pesou positivamente o aquecimento da construção civil no Brasil, um importante consumidor de aço.

“Havia uma expectativa positiva para a divulgação do resultado. Mas os números superaram até as projeções mais otimistas do mercado”, avalia Galdi.

Vale destacar que a alta do dólar ajudou nas exportações e na conversão de faturamento de suas unidades nos EUA.

Desafios do setor

Para Borges, apesar dos números favoráveis no trimestre, a siderurgia e a mineração seguem ainda com os mesmos desafios de sempre: carga tributária elevada; problemas de infraestrutura (como transporte caro e falhas no fornecimento de energia); e desafios do ESG (governança ambiental, social e corporativa), cuja cobrança será cada vez maior, em sua opinião.

“O Brasil é um país que precisa ainda evoluir muito em termos de competitividade. E ainda não sabemos como se encaminhará essa segunda onda da pandemia”, pondera.

 

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