Selic deve ficar em 2%, mas a pergunta é: até quando?

Cláudia Zucare Boscoli
Jornalista formada pela Cásper Líbero, com pós-graduação em Jornalismo Econômico pela PUC-SP, especialização em Marketing Digital pela FGV e extensão em Jornalismo Social pela Universidade de Navarra (Espanha), com passagens por IstoÉ Online, Diário de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e Editora Abril.
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Crédito: Divulgação/BC

Começou terça (26) e segue até esta quarta-feira (27) a penúltima reunião do ano em que o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) se reúne para definir a política monetária e a taxa de juros básica (Selic).

Atualmente, a Selic se encontra em 2%, seu piso histórico. E a tendência é que a taxa seja mantida.

No entanto, diante do cenário de retomada do crescimento econômico mais acelerada do que o esperado, inflação em alta e incertezas fiscais, a expectativa de manutenção dos 2% até meados de 2021 já não se mantém.

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Banco Central foi longe demais?

“O mercado espera agora uma sinalização de quando virá a alta. Algumas pessoas avaliam que isso deve acontecer já no começo de 2021”, afirma o assessor de investimentos e sócio da EQI, Paulo Filipe de Souza.

Para o educador financeiro André Massaro, a tendência é mesmo pela manutenção da Selic a 2%, mas uma subida agora não seria exatamente algo inesperado.

“A aposta é forte pelos 2%. Mas se subir, não será exatamente um choque. O que todos têm certeza que não vai acontecer é a Selic cair ainda mais”, diz.

Para ele, a leitura predominante é que, possivelmente, o Banco Central tenha ido um pouco longe demais no corte de juros.

Para o gestor Luis Stuhlberger, do renomado fundo Verde, por exemplo, o BC jamais deveria ter baixado a Selic a menos de 3%, mesmo com paralisações por Covid-19. Em evento recente, ele afirmou que o juro de equilíbrio para o país seria 6% ao ano.

Trajetória da Selic

A taxa atual, de 2%, é a mais baixa já registrada na série histórica, que teve início em 1999. E representa a nona redução de um ciclo de cortes recentes da Selic.

Em termos comparativos, em agosto de 2016, a taxa básica era de 14,25%. Mas já chegou a 45%, em março de 1999.

Selic

Na última reunião, realizada dias 15 e 16 de setembro, o Copom decidiu manter a taxa Selic em 2%, depois de nove cortes consecutivos.

Entre as indicações transmitidas ao mercado em ata, foi sinalizado que a política monetária deve ser mantida como está pelos próximos meses. Isto porque reduções adicionais na taxa de juros poderiam ser acompanhadas de instabilidade nos preços dos ativos.

Segundo o Copom, o cenário poderia seguir assim por 2021 e, possivelmente, até 2022. Só mudaria se a inflação não seguisse na trajetória desejada – a meta é 4%.

Boletim Focus, divulgado pelo Banco Central e que traz semanalmente as projeções do mercado financeiro para os principais indicadores econômicos, projeta há 17 a Selic a 2% até o final de 2020.

Já para 2021, o último Focus prevê aumento da Selic: de 2,50% para 2,75%, indicando que algo já mudou na percepção do mercado.

Projeção para o PIB

Para o Produto Interno Bruto (PIB), a projeção vem melhorando a cada semana. O que indica uma retomada da economia mais rápida do que a esperada com a crise.

Para 2020, o Focus estima uma queda do PIB de 4,81%. Há quatro semanas, previa-se uma queda de 5,04%.

Ameaça da inflação

Há 11 semanas a previsão para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), indicador oficial de inflação, aumenta. No último Focus, a projeção foi de 2,65% para 2,99%. Há quatro semanas era de 2,05%. Para 2021, a estimativa subiu de 3,02% para 3,10%.

Na última sexta-feira (23), o IBGE divulgou a prévia da inflação de outubro, o IPCA-15. O índice mostrou uma alta de 0,94% e ficou acima da projeção, que era de 0,81%. Foi também o maior resultado para o mês desde 1995. Na medição anterior, o IPCA-15 tinha ficado em 0,45%.

Risco fiscal e fuga de capitais

A ameaça fiscal é outro indicador de que a tendência da Selic, daqui por diante, deve ser de subida.

Isto porque, com a taxa básica de juros baixa e muitos ruídos políticos quanto ao respeito ou não ao teto de gastos em 2021, o governo vem encontrando dificuldades em se financiar, via venda de títulos públicos.

“Temos rendimento baixo dos papéis e risco alto de o país dar calote. Isso implica em fuga de capital”, explica Victor Beyruti, economista da Guide.

Ou seja, o investidor estrangeiro procura outro mercado que tenha um risco menor, ou até parecido, mas com rendimento maior.

O que é a Selic?

A Selic, taxa básica de juros, é usada como referência para todo empréstimo ou financiamento no país. Ela é também o principal instrumento de política monetária utilizado pelo Banco Central para controlar a inflação.

Quando o Copom reduz a Selic, a tendência é que o crédito fique mais barato, com incentivo à produção e ao consumo, reduzindo o controle da inflação e estimulando a atividade econômica.

Em sentido contrário, quando o Copom aumenta a taxa básica de juros, seu objetivo é conter a demanda aquecida. Isso causa reflexos nos preços, porque os juros mais altos encarecem o crédito e estimulam a poupança.