Ata do Copom: reduções da Selic poderiam trazer instabilidade a ativos

Cláudia Zucare Boscoli
Jornalista formada pela Cásper Líbero, com pós-graduação em Jornalismo Econômico pela PUC-SP, especialização em Marketing Digital pela FGV e extensão em Jornalismo Social pela Universidade de Navarra (Espanha), com passagens por IstoÉ Online, Diário de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e Editora Abril.
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Crédito: Reprodução/Agência Brasil

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central divulgou ata da última reunião, quando manteve a taxa Selic em 2% ao ano, nesta terça-feira (22).

Entre as mensagem da ata, foi sinalizado que a já estaríamos próximos do nível a partir do qual reduções adicionais na taxa de juros poderiam ser acompanhadas de instabilidade nos preços de ativos.

Isso veio após discussão sobre um potencial limite efetivo mínimo para a taxa básica de juros brasileira e sua associação a questões de natureza prudencial e de estabilidade financeira.

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Para a maioria dos membros do Copom, segundo a ata, esse limite seria significativamente maior em economias emergentes do que em países desenvolvidos devido à presença de um prêmio de risco.

“Foi ressaltado que esse prêmio é dinâmico e tende a ser maior no Brasil, dadas a sua relativa fragilidade fiscal e as incertezas quanto à sua trajetória fiscal prospectiva”, afirmou o documento.

Selic deve ser mantida em 2% pelo menos até 2021

O Copom sinalizou ainda que o cenário deve ser mantido sem novas alterações ainda por 2021 e, possivelmente, até 2022, a menos que a inflação não siga na trajetória desejada.

“O Copom não pretende reduzir o grau de estímulo monetário, a menos que as expectativas de inflação, assim como as projeções de inflação de seu cenário básico, estejam suficientemente próximas da meta de inflação para o horizonte relevante de política monetária, que atualmente inclui o ano-calendário de 2021 e, em grau menor, o de 2022. Essa intenção é condicional à manutenção do atual regime fiscal e à ancoragem das expectativas de inflação de longo prazo”, afirma o comitê.

O Copom complementou que as condições para a manutenção do forward guidance (prescrição futura) estão satisfatórias, o que reitera a intenção de continuidade na política monetária.

“O Comitê considera que as expectativas de inflação assim como as projeções de inflação de seu cenário básico encontram-se significativamente abaixo da meta de inflação para o horizonte relevante de política monetária; o regime fiscal não foi alterado; e as expectativas de inflação de longo prazo permanecem ancoradas”, diz.

Tá, e aí? Copom

Em análise macro, os economistas do BTG Pactual Álvaro Frasson e Luiza Paparounis destacaram que o “reforço da manutenção (da Selic) é preocupação com atividade e fiscal em 2021”.

Para eles, a Ata do Copom reforçou os motivos pelos quais a manutenção mais prolongada da Taxa Selic em 2% tende a ser o rumo da política monetária nos próximos meses.

Em resumo, avaliam, o BCB está atento a queda de braço entre uma atividade econômica mais fraca em 2021 (inflação para baixo) e a trajetória fiscal preocupante (inflação para cima).

Enquanto não há maior clareza sobre quem irá prevalecer em um cenário de médio e longo prazo, acrescentaram, a autoridade monetária fica em stand by por tempo indeterminado nos 2%.

“É por este motivo que as pressões altistas na inflação de curto prazo não preocupam tanto o BCB neste momento”, reforçaram.

Destaques da Ata

De acordo com a análise, algumas frases chamaram atenção, fazendo “crer que o Copom não deve mais optar por reduções na Taxa Selic”.

  • “… a necessária redução nos auxílios emergenciais a partir do final deste ano […] podem implicar um cenário doméstico caracterizado por uma retomada ainda mais gradual da economia”, indicando que, apesar de diminuir a demanda potencial em 2021, a manutenção dos auxílios emergenciais em 2021 trazem maior risco à política monetária por conta do descontrole da trajetória fiscal.
  • “… no Brasil, o prêmio de risco tende a ser maior dada sua fragilidade fiscal […] já que estaríamos próximos do nível a partir do qual reduções adicionais na taxa de juros poderiam ser acompanhadas de instabilidade nos preços dos ativos”, talvez um sinal do BCB em relação às recentes dificuldades do Tesouro em rolar dívida pública sem oferecer maiores prêmios.
  • Por fim, que “ novas reduções de juros demandariam maior clareza sobre a atividade e inflação”.

“Portanto, acreditamos que um novo corte na Selic hoje é um evento de baixa probabilidade dado o reforço da utilização da prescrição futura (forward guidance) que o impede de virar o rumo da política monetária de forma abrupta”, finalizaram.