Volatilidade: tudo o que você precisa saber sobre o assunto

Carla Carvalho
Graduada em Ciências Contábeis pela UFRGS, pós-graduada em Finanças pela UNISINOS/RS. Experiência de 17 anos no mercado financeiro, produtora de conteúdo de finanças e economia.

Crédito: Pixabay

Se você já investe em renda variável, ou conhece um pouco sobre o assunto, certamente já teve contato com os efeitos da volatilidade. Afinal, as oscilações do mercado financeiro têm forte impacto na vida do investidor, pois tanto podem proporcionar altos ganhos quanto a perda total do patrimônio em determinados casos.

Mas por que ocorrem essas oscilações? Elas são aleatórias, ou é possível prever quando acontecerão? Será que existe alguma forma de medi-las e de tirar algum proveito delas?

Saiba que conhecer o conceito de volatilidade é fundamental para entender as relações entre risco e retorno dos investimentos. Por isso, preparamos um material com tudo o que você precisa saber sobre volatilidade e sua importância para o mercado financeiro. Siga a leitura!

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Em primeiro lugar, o que significa volatilidade?

De forma geral, a volatilidade é uma medida que demonstra a frequência, a intensidade e a velocidade de variação do preço de um ativo ou derivativo. Se essas oscilações são fortes, dizemos que o ativo ou derivativo é muito volátil.

Isso significa que o seu preço pode subir ou cair a qualquer momento, e de maneira acentuada. Em outras palavras, quanto mais volátil for um investimento, maior será o risco que ele carregará.

Pela análise da volatilidade é possível determinar diferentes cenários e projetar tendências de evolução dos preços. Por isso, o conceito é muito importante no mundo dos investimentos.

Como funciona a volatilidade?

Para entender o funcionamento da volatilidade, é preciso ter em mente que vários fatores externos influenciam no preço dos ativos. Entre eles, podemos citar o cenário político e econômico, que exercem impacto direto no comportamento do mercado financeiro.

Podemos dividir a volatilidade em três categorias:

Volatilidade histórica

A volatilidade histórica também é chamada de desvio padrão anualizado.

Trata-se daquela que já é conhecida pelo mercado. Como o próprio diz, a volatilidade histórica considera as variações de preços de um ativo em um período determinado. Dessa forma, quanto maiores forem essas variações, maior será o valor que o indicador apresentará.

A volatilidade histórica é uma variável que serve para estimar as variações futuras de um ativo. No entanto, ela não é uma medida exata, pois nem sempre o mercado se comporta conforme o previsto.

Além disso, ela demonstra qual a intensidade das oscilações. Porém, não indica qual será a direção das tendências do ativo.

Um exemplo prático de utilização da volatilidade histórica é no stop loss e no stop gain. Vejamos como funcionam essas duas ferramentas do mercado de ações:

Stop loss

No mercado acionário, o stop loss determina o limite de perda que o investidor está disposto a suportar nas suas negociações. Trata-se de uma ordem de venda automática que é disparada quando determinada ação chega no valor mínimo estabelecido pelo seu detentor.

Na prática, o funcionamento do stop loss é bastante simples. No momento da ordem de compra para a corretora, o investidor já deixa indicado o valor mínimo que a ação deverá atingir para que ocorra a venda automática. Isso significa que, assim que o título chegue no preço mínimo determinado, imediatamente ele é posto em negociação. A partir desse momento, a ação será vendida pelo melhor preço praticado no mercado.

Stop gain

Já no stop gain, o raciocínio é contrário. Ou seja, a venda das ações ocorre automaticamente ao atingirem o preço máximo estipulado pelo investidor.

A princípio, isso pode parecer um pouco estranho. Afinal, qual o sentido de limitar o ganho de um investimento? No entanto, trata-se de uma importante estratégia de proteção da carteira, principalmente em momentos de alta volatilidade. Em outras palavras, com o stop gain, o investidor assegura que não perderá o lucro que obteve com as ações.

Volatilidade implícita

Ao contrário da histórica, a volatilidade implícita é uma expectativa de preço futuro de determinado ativo ou derivativo. Para isso, são feitas projeções a partir da volatilidade histórica. Ou seja, a partir dos registros de oscilações do ativo, é possível ter uma ideia do que se pode esperar dele.

Porém, como vimos, há muitos fatores externos que exercem influência sobre os investimentos. Por isso, mesmo que a sua análise seja útil, não há garantia de que a volatilidade implícita refletirá o padrão do passado.

Volatilidade real

Por fim, a volatilidade real (ou futura), representará a variação efetiva do preço de um ativo ou derivativo no mercado futuro. Nesse caso, são considerados os preços dos contratos futuros para uma determinada data.

No entanto, essa expectativa pode ou não se concretizar. Além disso, no momento que o ativo ou derivativo chegam no vencimento, a volatilidade real se transforma em histórica, uma vez que a oscilação passa a ser conhecida.

Importância da volatilidade para os investimentos

Sabemos que a rentabilidade está diretamente associada ao risco que o investimento carrega. Da mesma forma, quanto maior a volatilidade, mais risco um ativo apresentará, seja no curto ou no longo prazo. Logo, é possível concluir que a volatilidade tem relação direta com o potencial de ganho dos investimentos.

A seguir, veja de que formas as oscilações de preços auxiliam o investidor:

Escolhas adequadas ao perfil de investidor

Para selecionar os investimentos mais adequados, é importante que seja respeitado o perfil e os objetivos de cada investidor. Nesse sentido, analisar a volatilidade auxilia nessa escolha.

Dessa forma, perfis mais arrojados darão preferência a investimentos mais voláteis, ou seja, mais arriscados. Por outro lado, os mais conservadores escolherão ativos que sofram menos oscilações, mesmo que sacrifiquem algum ganho.

Boas chances de retorno no curto prazo

Quem sabe explorar bem a volatilidade no curto prazo tem boas chances de lucrar com a especulação. É exatamente isso o que se faz no day trade.

As operações que iniciam e finalizam no mesmo dia na bolsa de valores podem trazer bons retornos aos traders. Uma forma de potencializar esses ganhos é com alavancagem, ou seja, utilizando recursos superiores aos disponíveis nas negociações. No entanto, é importante que o trader tenha experiência e bom conhecimento técnico para operar alavancado.

Construção de uma carteira de longo prazo

Muitas vezes, uma das primeiras reações das pessoas é se desfazerem de um determinado ativo assim que ele sofre uma queda mais acentuada. Esse é um dos erros mais frequentes que o investidor comete e, em muitos casos, pode significar um grande desperdício de oportunidade de ganhos.

No entanto, ao entender a volatilidade, é possível ter mais tranquilidade no momento que os preços começam a oscilar. Ou seja, quando está preparado para o sobe e desce do mercado financeiro, o investidor consegue manter sua estratégia de longo prazo. Isso porque, a menos que as empresas tenham deteriorado os seus fundamentos, não faz sentido vender os seus papéis sempre que os preços recuarem.

Como a volatilidade se manifesta nos investimentos?

Por definição, modalidades mais conservadoras como CDBs e Tesouro Selic, por exemplo, possuem baixa volatilidade. No entanto, alguns investimentos são bastante suscetíveis a oscilações, e elas ocorrem por diferentes fatores.

Volatilidade no mercado acionário

Normalmente, a volatilidade das ações está associada a dois fatores principais:

Tradição e performance da empresa

Empresas tradicionais no mercado e com histórico de performance positiva costumam apresentar menor volatilidade em suas ações. Nesse sentido, a análise fundamentalista auxilia a identificar essas companhias. Indicadores como lucro líquido, receita líquida, EV/EBITDA, P/L, entre outros ajudam na avaliação da saúde financeira.

Setores maduros e de primeira necessidade

Companhias que atuam em segmentos mais consolidados e vitais para a sociedade também tendem a ter ações com menor volatilidade. Alguns exemplos são os setores de infraestrutura, saneamento e transmissão de energia. Inclusive essas empresas, salvo que tenham algum novo projeto, não necessitam de reinvestimentos constantes. Isso dá mais previsibilidade ao seu desempenho financeiro, o que também contribui para a baixa oscilação de seus papéis.

Volatilidade nos fundos de investimento

Existem fundos de investimento para todos os tipos de perfil de investidor.

Os fundos DI e de renda fixa são os mais conservadores do mercado. O primeiro acompanha a variação do CDI, enquanto o segundo investe a maior parte do seu patrimônio em ativos de renda fixa, como títulos do tesouro, LCIs, LCAs, entre outros. Por essas características, esses fundos praticamente não apresentam volatilidade.

Por outro lado, algumas modalidades investem em ativos mais voláteis, como os Fundos Imobiliários (FIIs) e os multimercados. Os FIIs têm o patrimônio composto por empreendimentos imobiliários ou títulos que representam esses empreendimentos, como os CRIs. Já os fundos multimercados podem investir em ações, ativos cambiais, derivativos e qualquer outro instrumento de renda variável.

Perceba que tanto os FIIs quanto os multimercados são formados por ativos de maior risco. Por isso, a tendência é de que esses fundos apresentem grande volatilidade.

Volatilidade cambial

A volatilidade cambial não afeta somente os investimentos, mas toda a economia nacional.

A oscilação do dólar, por exemplo, impacta tanto quem investe em ativos estrangeiros quanto quem tem ações de companhias exportadoras ou importadoras. Isso porque a atividade dessas empresas depende da moeda estrangeira, o que as torna suscetíveis ao sobe e desce do câmbio.

Por outro lado, a volatilidade do câmbio também causa efeitos inflacionários. Uma vez que muitos produtos de consumo diário precisam ser importados, quanto mais valorizado estiver o dólar, maior será a alta sentida nos preços.

Como analisar a volatilidade na prática?

Até o momento, falamos sobre o que significa e qual a importância da volatilidade para o mercado financeiro. Agora, é hora de saber de que forma medir e utilizar esse conceito na análise de investimentos.

Nesse sentido, existem diversos indicadores da análise técnica que servem para demonstrar as oscilações dos ativos. A seguir, veremos alguns dos mais utilizados. Não nos aprofundarmos na análise de nenhum deles; a ideia é mostrarmos quais são e em que momentos devem ser utilizados

Average True Range (ATR)

Average True Range (ou ATR) significa média de amplitude de variação. Foi criado pelo trader J. Weller Jr, com o objetivo de indicar o nível de oscilação de um ativo.

Originalmente, o ATR foi desenvolvido para ser utilizado somente no mercado de commodities. Porém, pelo seu potencial de análise, a sua aplicabilidade foi aumentando. Atualmente, ele pode ser aplicado a qualquer categoria de ativo.

É importante saber que o ATR não demonstra tendências de preços. Isso porque ele mede somente as oscilações de um determinado ativo.

É preciso encontrar o True Range (TR), para depois calcular o ATR. O True Range representa o maior valor encontrado entre os seguintes cálculos:

  • máxima do período atual – mínima do período atual
  • fechamento do período anterior – máxima de hoje
  • fechamento do período anterior – mínima de hoje

Quando o TR encontrado for alto, significa que a oscilação do ativo também foi alta. Da mesma forma, um TR baixo representa uma baixa variação do ativo.

Para se chegar no ATR, calcula-se os True Range dos últimos n períodos e divide-se por n. Por padrão, o “n” corresponde a 14 períodos.

Utilização do ATR

Pelo fato de medir a volatilidade média de um ativo nos últimos n períodos, o ATR é bastante utilizado no posicionamento de stop. Isso funciona da seguinte forma:

  • se o ATR for alto, é preciso deixar o ponto de stop longe do preço de fechamento. Caso contrário, pode ocorrer a “violinada”, que é quando o preço chega no stop e, logo depois, volta a subir;
  • se o ATR for baixo, o stop ficará mais perto do preço de fechamento.

Uma limitação do ATR é não apontar tendências de preços, somente a volatilidade. Logo, se ocorre um aumento do indicador, isso pode não ser uma tendência, mas somente uma reversão de preços.

Keltner Channel

Também chamado de “envelope”, esse indicador foi criado por Chester Keltner na década de 1960, e tinha como objetivo monitorar os seus investimentos no mercado futuro de café. Porém, assim como o ATR, com o tempo começou a ser aplicado na análise de outros ativos. Atualmente é um dos indicadores mais utilizados pelos traders.

Com o Keltner Chanel, pode-se observar a tendência de preços de um ativo e gerar padrões de suporte e resistência.  Além disso, o indicador também auxilia a identificar oportunidades de compra e venda desses ativos.

Para chegar no indicador, basta calcular uma média móvel simples da máxima, mínima e último preço de um ativo em um determinado período. Segundo Keltner, o resultado dessa cálculo mostrará o preço típico do ativo.

Na prática, os canais são representados por três linhas: superior, média e inferior. Com base na média móvel calculada, são projetadas as bandas superior e inferior.

Normalmente, esse indicador é utilizado para auxiliar a identificar uma tendência quando os preços estão estagnados. Ou, como se diz no jargão financeiro, estão “andando de lado”. Isso porque, quando o preço de um ativo rompe uma das bandas, isso pode representar uma nova tendência. Se a banda superior foi rompida, isso pode indicar força no poder de compra do mercado (tendência compradora). Já o rompimento da linha inferior significa força no poder de venda (tendência vendedora).

Bandas de Bollinger

As Bandas de Bollinger também permitem identificar tendências. Dessa forma, consegue-se antecipadamente avaliar se o cenário é favorável ou desfavorável para a compra ou venda de uma ação.

Para entender como funciona o indicador, é necessário conhecer o conceito de desvio-padrão. Basicamente, o desvio-padrão mostra o quanto variaram os preços de um ativo em um determinado período. Vejamos um exemplo:

Duas ações tiveram diferentes variações em um determinado período. A ação da companhia “X” variou de R$ 15 a R$ 20, e a ação da companhia “Y” oscilou entre R$ 20 e R$ 30. Nessa situação, a ação que apresentou o maior desvio padrão nos preços foi a da companhia “Y”.

Quanto maior for o desvio padrão, mais volátil será a ação, e mais afastadas estarão as bandas de Bollinger. No exemplo que vimos, o maior afastamento ocorrerá na ação “Y”.

Graficamente, as bandas de Bollinger são representadas de forma bem semelhante ao Keltner Channel. Ou seja, há uma linha central (que representa a média móvel exponencial), uma banda acima dela e outra abaixo. As bandas superior e inferior demonstram os desvios-padrão dos preços da ação.

A diferença entre o Keltner Channel e as bandas de Bollinger está na forma como cada um é encontrado. Isso porque o primeiro não utiliza o desvio-padrão no cálculo.

Nas bandas de Bollinger, o desvio-padrão é somado ou subtraído do preço da ação. Ao ler o indicador, a interpretação do trader será a seguinte: se os preços se mantiverem dentro das bandas, eles estão se movimentando como o mercado espera. Por outro lado, se tocarem a banda superior, está na hora de vender a ação. Em contrapartida, se tocarem a banda inferior, pode ser um momento adequado para compra da ação.

Parada e reversão parabólica (PSAR)

O PSAR é um dos indicadores mais complexos da análise técnica de ações. Além de ser utilizado para projetar a tendência de preços, ele também sinaliza pontos de reversão precisos em um pequeno espaço de tempo.

A indicação gráfica do PSAR é uma curva parabólica, com pontos que ficam acima ou abaixo do preço do ativo. Ao olhar o gráfico, a interpretação do trader é a seguinte: se os pontos estiverem abaixo das linhas, são abertas posições compradas (long positions). Por outro lado, se os preços se movem abaixo de um ponto, há uma reversão de tendência e o trader pode abrir posições vendidas (short positions)

Resumo sobre volatilidade

O assunto é extenso e bastante importante, não só para o mercado financeiro, mas também para a economia de forma geral. Por isso, elaboramos um resumo sobre os principais pontos que você deve lembrar sobre a volatilidade:

Para que serve a volatilidade?

A volatilidade serve para demonstrar a frequência, a intensidade e a velocidade de variação do preço de um ativo ou derivativo. Quanto maiores as variações, mais volátil será o ativo ou derivativo.

Além disso, por meio da análise das oscilações dos ativos, ela ajuda o mercado a projetar cenários e tendências de preços. Dessa forma, consegue-se identificar os melhores momentos para comprar ou vender um determinado ativo.

Quais os tipos de volatilidade?

A volatilidade pode ser avaliada de três formas:

Volatilidade histórica

Essa medida considera as variações de preço de um ativo em um determinado período. Em outras palavras, mostra o que o mercado já conhece, mas não indica a tendência dos preços.

Volatilidade implícita

Já a volatilidade implícita projeta o preço futuro de determinado ativo a partir da volatilidade histórica. A partir do seu desempenho até o momento, determina-se uma expectativa de comportamento futuro. No entanto, essa expectativa poderá ou não se cumprir, pois depende de muitas variáveis externas sobre as quais não há como ter controle.

Volatilidade real

Por fim, a volatilidade real, também chamada futura, é a que representa a variação efetiva do ativo ou derivativo no mercado futuro. Ela passa a ser histórica no momento em que é conhecida, ou seja, no vencimento do ativo ou derivativo que representa.

Qual a relação entre volatilidade, risco e rentabilidade dos investimentos?

A medida de volatilidade dos ativos está diretamente relacionada ao grau de risco e ao potencial de rentabilidade dos investimentos. em outras palavras, quanto maior a volatilidade, maior o risco do investimento e, consequentemente, maior será o seu potencial de ganho.

As oscilações dos preços dos ativos podem proporcionar bons ganhos no curto prazo, em especial nas operações day trade. No entanto, para conseguir utilizar a volatilidade de maneira favorável, é preciso que o trader seja experiente. Além de experiência, é necessário também um bom conhecimento sobre análise técnica, pois os indicadores de volatilidade são complexos.

Quais os impactos da volatilidade?

Os impactos da volatilidade não são sentidos somente pelo mercado financeiro, mas pela economia como um todo. Um exemplo disso é a volatilidade cambial, que pode causar efeitos inflacionários na economia em momentos de alta da moeda estrangeira.