Receita líquida: o que é e para que serve esse indicador

Carla Carvalho
Graduada em Ciências Contábeis pela UFRGS, pós-graduada em Finanças pela UNISINOS/RS. Experiência de 17 anos no mercado financeiro, produtora de conteúdo de finanças e economia.

Crédito: Pixabay

Se você quer aprender contabilidade, ou se o seu objetivo é analisar empresas para começar a investir, então deve entender o que é a receita líquida de vendas.

De forma geral, a receita de vendas corresponde a todos os valores que a empresa recebe por seus produtos ou serviços. Ou seja, todas as transações comerciais que têm a ver com a atividade da organização estão registradas na conta receita de vendas.

As receitas de vendas são contas de resultado, e, por isso, são reconhecidas no relatório chamado demonstração de resultado do exercício (DRE). Nesse sentido, existem dois tipos de receita de vendas, e é importante saber a diferença entre elas:

Receita bruta

As vendas brutas ocupam a primeira linha do demonstrativo de resultado do exercício (DRE).

Como o próprio nome diz, a receita bruta é o valor bruto referente ao total das vendas operacionais da empresa, antes de qualquer dedução.

Receita líquida

Por outro lado, a receita líquida corresponde às vendas brutas após a dedução dos impostos sobre vendas, descontos, abatimentos e devoluções.

No DRE, isso é demonstrado da seguinte forma:

Receita bruta de vendas

(-) impostos

(-) descontos e abatimentos

(-) devoluções de vendas

= Receita líquida de vendas

Importância da receita líquida

Para entendermos melhor a importância da receita líquida, dividimos esse indicador em duas funções básicas:

Identificar possíveis ineficiências na empresa

Como vimos, a receita líquida é o total comercializado pela empresa (receita bruta) depois das deduções de impostos, descontos, abatimentos e devoluções.

Dessa forma, imagine a seguinte situação:

Em 2019, a empresa “X” teve receita bruta de R$ 1.000.000. Nesse ano, a tributação sobre as vendas foi de 10%, e a companhia concedeu descontos financeiros por antecipação de pagamento na ordem de 5%.

Por fim, ocorreram devoluções devido a divergências de especificidades nos pedidos. Esses itens totalizaram R$ 30.000

Dessa forma, a receita líquida de 2019 foi a seguinte:

Receita bruta                                1.000.000

(-) impostos                                    (100.000)

(-) descontos                                     (50.000)

(-) devoluções                                   (30.000)

= Receita líquida                             820.000

Já em 2020, a receita bruta da empresa cresceu 10% em relação ao ano anterior. Nesse ano, os percentuais de impostos e descontos permaneceram inalterados.

Por outro lado, a empresa teve quatro vezes mais devoluções em comparação a 2019. Isso por causa de mercadorias defeituosas produzidas em uma de suas unidades.

Assim, temos o seguinte em 2020:

Receita bruta                              1.100.000

(-) impostos                                  (110.000)

(-) descontos                                  (55.000)

(-) devoluções                               (120.000)

= Receita líquida                            815.000

Veja que, embora tenha faturado mais em 2020, a receita líquida da empresa foi inferior à do ano passado, mesmo mantidos estáveis os impostos e os descontos. Nesse caso, a análise do indicador permitiu identificar a extensão do problema no processo produtivo.

Logicamente, essa variação pode ocorrer também com os percentuais de impostos e descontos. Por isso a importância não só de calcular a receita líquida, mas, também, de compará-la a outros exercícios. Isso fará com que a empresa identifique desvios de sua estratégia e tome providências para corrigi-los.

Definição dos indicadores financeiros do DRE

A receita líquida é o indicador base para a análise vertical de todas as contas de resultado. Isso porque todos os índices financeiros do DRE são dados através de um percentual de seu valor.

Antes de mais nada, vejamos o que é e para que serve a análise vertical.

Análise vertical

A análise vertical é uma comparação entre todos os elementos de um demonstrativo financeiro. No caso do DRE, calcula-se o percentual de cada conta em relação à receita líquida.

Desse modo, o valor base da DRE é a receita líquida, que corresponde a 100%.

Exemplo:

Em 2019, as vendas líquidas da companhia “Y” foram R$ 500.000 (base 100%). Nesse ano, o lucro líquido foi de R$ 75.000, ou seja, 15% das vendas líquidas.

Já em 2020, a receita líquida totalizou R$ 550.000 e o lucro líquido, R$ 137.300.

Dessa forma, podemos perceber que o aumento do lucro em 2020 não ocorreu só por causa do crescimento das vendas. Isso porque o resultado no ano (R$ 137.300) foi de 25% da receita líquida (R$ 550.000), contra 15% em 2019.

Ou seja, outros fatores contribuíram para o melhor desempenho da companhia. Porém, para saber quais foram, é preciso analisar todas as contas de resultado, para descobrir qual percentual elas passaram a representar da receita líquida.

Para concluir, podemos dizer que a análise vertical do DRE tem os seguintes objetivos:

– Facilitar a interpretação do demonstrativo.

– Medir a importância de cada uma das contas que compõem o demonstrativo.

– Transformar os indicadores em informações úteis sobre a performance da empresa.

– Por fim, fornecer subsídio para a tomada de decisão.

Resumindo: de nada vale a análise isolada da receita líquida. Isso porque, para avaliar o desempenho da empresa, o importante é saber como as outras contas de resultado estão relacionadas a ela.

Receita líquida e caixa nem sempre são a mesma coisa

Isso é muito importante para que possamos analisar corretamente o resultado de uma empresa.

Segundo o princípio da competência na contabilidade, as receitas e despesas devem ser contabilizadas no momento que ocorrem. Isso significa que, para a contabilização, não interessa se houve, ou não, entrada ou saída de caixa.

Para entendermos esse princípio, vejamos dois exemplos:

Exemplo 1

Uma indústria metalúrgica fabrica maquinário sob encomenda. Por causa do prazo longo de produção e do alto custo dos bens, essa empresa só aceita pedidos mediante adiantamento de 30% do valor total do bem.

Dessa forma, ao encomendar a máquina, o cliente deve pagar, no ato, 30% do seu preço. Entretanto, esse valor ainda não pode ser considerado receita de vendas, pois o bem ainda está em fabricação.

Logo, nesse momento, o que a empresa possui não é uma receita, e sim uma obrigação para com o seu cliente. Por isso, a contabilidade não registrará esses recursos recebidos no DRE, mas sim no balanço patrimonial, nas contas “caixa” do ativo e “adiantamento de clientes” do passivo.

Somente quando a empresa concluir a máquina é que o valor recebido será contabilizado no DRE como receita de vendas. Isso porque, caso haja algum problema e a empresa não consiga entregar o bem, ela terá que devolver o dinheiro ao cliente e, consequentemente, a transação não se realizará.

Exemplo 2

Agora, imagine uma empresa que faz uma venda de R$ 100 mil com prazo de 10 meses para pagamento. Nessa situação, somente depois de 10 meses da venda ela terá todo o dinheiro em caixa.

Porém, conforme o princípio da competência, a receita deve ser contabilizada integralmente no momento da venda, e não somente no momento dos recebimentos.

Deu para entender a diferença entre receita de vendas e entrada de caixa?

Receita líquida e caixa somente serão a mesma quando a empresa vender à vista.