Por que a poupança é o principal investimento do brasileiro?

Paulo Amaral
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Crédito: Crédito da imagem: Reprodução/Internet

A caderneta de poupança é, atualmente, o investimento desaconselhado por 10 em cada 10 especialistas do mercado financeiro.

Mesmo assim, a aplicação segue como a favorita da população brasileira, de acordo com pesquisa recente da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

Segundo o estudo, 90% dos brasileiros afirmaram conhecer a caderneta de poupança e 88% deles disseram que ainda guardam dinheiro nela.

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“Facilidade”, “comodidade” e “costume” foram as principais justificativas dadas pelos participantes da pesquisa da Anbima para continuarem aplicando suas reservas na tradicional poupança.

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A Ricam, empresa de consultoria do economista Ricardo Amorim, considerado pela Forbes um dos maiores influenciadores do ramo no País, também realizou uma pesquisa sobre os investimentos dos brasileiros.

De acordo com o estudo, feito em parceria com o Instituto Ilumeo, dois em cada três brasileiros que conhecem a poupança aplicam nela, mesmo tendo ciência de opções mais vantajosas.

Aplicação popular

Professor de Finanças do Insper, Ricardo Rocha, deu sua explicação para o fenômeno. “A poupança é uma aplicação simples, com baixo custo de entrada, sem incidência de impostos e com influência familiar, por isso é tão popular entre os brasileiros”, ponderou.

Na visão de Rocha, o medo de “perder dinheiro” em aplicações que têm por exemplo, incidência do Imposto de Renda, acabam dando uma sensação ainda maior de segurança à velha poupança.

“Falta base para entender os principais termos e mecanismos de aplicação, como compreensão sobre o que é taxa de juros e os riscos envolvidos em qualquer investimento. A sociedade precisa ser educada financeiramente”, alertou.

Poupança fechou setembro com saldo de R$ 1 trilhão

Fonte: Banco Central

 

Além dos dados divulgados pela Anbima, o próprio Banco Central também comprovou, em seu último relatório, a “predileção” do brasileiro pela poupança.

A aplicação fechou o último mês de setembro com uma marca histórica, superando, pela primeira vez, a casa de R$ 1 trilhão no saldo total em contas.

Segundo o BC, os depósitos superaram os saques em R$ 13,228 bilhões no período. É o melhor resultado para o mês desde o início da série histórica da autarquia, em 1995.

Para chegar a esse número, os depósitos superaram os saques em R$ 9,974 bilhões no Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE), enquanto na poupança rural houve entrada de R$ 3,254 bilhões.

O Banco Central informou ainda que este foi o sétimo mês consecutivo em que a poupança registrou mais depósitos do que saques.

Pandemia e auxílio-emergencial

A pandemia de coronavírus acabou beneficiando diretamente os números positivos da poupança em 2020.

O relatório do Banco Central mostrou que, durante os nove primeiros meses de 2020, um novo recorde foi estabelecido.

O total de recursos que ingressou na poupança em todo o País durante esse período somou R$ 137,211 bilhões.

A aplicação começou o ano em baixa, com os brasileiros retirando R$ 15,93 bilhões a mais do que depositando em suas contas entre os meses de janeiro e fevereiro.

A chegada da Covid-19 em março, no entanto, mudou o cenário e os depósitos passaram a superar os saques.

Apesar da recuperação gradual da bolsa de valores nos últimos meses, o início da pandemia “afugentou” os investidores mais tradicionais. Esses voltaram a procurar a poupança, meio mais conservador de aplicar dinheiro.

Boa parte dessa reviravolta está ligada diretamente ao pagamento do auxílio emergencial do governo aos trabalhadores informais e desempregados.

Desde abril, quando o benefício começou a ser disponibilizado, a aplicação tem batido recordes de captação. Até porque parte dos pagamentos é feito diretamente em uma conta poupança.

Histórico da poupança

A “paixão” do brasileiro pela caderneta nasceu há mais de um século, mais precisamente em 12 de janeiro de 1861.

Por meio do decreto número 2.723, o imperador Dom Pedro II instituiu a criação da Caixa Econômica Federal e também da aplicação, com o intuito de “receber as pequenas economias das classes menos abastadas”.

A poupança “nasceu” com a remuneração anual de 6% aos poupadores, além da determinação de devolver qualquer quantia aplicada ao titular da conta “sempre que o mesmo solicitasse, sob a garantia do Governo Imperial”.

Em dezembro de 1915, a regra do rendimento foi alterada pela primeira vez. Por meio do decreto número 11.820, ficou definido que “o valor dos juros da poupança seria determinado única e exclusivamente pelo Governo”.

A partir desta data, sistematicamente, outros decretos passaram a regular as taxas de juros da aplicação e a alterar o cálculo dos rendimentos era realizado.

Em 1934, foi determinado, por meio do decreto 24.427, que a remuneração seria fixada pelos Conselhos Administrativos das Caixas Econômicas. Mas não poderiam, em nenhuma hipótese, superar os 6% ao ano.

Três décadas mais tarde, surgiu a correção monetária, como forma de proteger as aplicações da caderneta da inflação da época.

Aniversários

Em 1980, época em que a inflação atingiu recordes assustadores no País, a correção monetária passou a ter incidência diária na poupança. Criram-se os “aniversários”, forma de proteger as aplicações dos aumentos dos produtos.

Confisco

A principal “crise” enfrentada pelos investidores na poupança, no entanto, foi em 1990.

Em março daquele ano, o então presidente Fernando Collor de Mello, recém-eleito, ordenou o confisco de 80% dos depósitos de contas poupança que tivessem saldo superior a 50 mil cruzados novos.

O bloqueio durou aproximadamente 1 ano e meio. Após a liberação das contas, a desvalorização da moeda fez com que os saldos fossem insuficientes para compensar o tempo parado.

A “nova” poupança

Os rendimentos da poupança sofreram sua maior alteração em 2012. Nesta data, foi definido que os depósitos realizados antes de maio continuariam recebendo remuneração de 0,5% ao mês mais a TR (taxa referencial).

Os depósitos realizados após esta data, no entanto, já se enquadrariam na “nova” poupança.

Esta modalidade passou a receber remuneração variável, de acordo com a meta da taxa Selic – hoje em 2% ao ano.

O ápice da aplicação

O ápice da poupança, antes do recorde histórico estabelecido no último mês de setembro, datava de dezembro de 2014.

Na época, o saldo total da aplicação alcançou R$ 882 bilhões, em valores descontados de inflação.

A recessão iniciada quase na sequência, no entanto, aumentou o desemprego no País. E, consequentemente, levou muitas famílias a consumirem as reservas acumuladas.

A partir de 2017, com a recuperação gradual da economia, os investimentos passaram a retornar. E mantiveram a poupança como a principal forma da população brasileira “guardar dinheiro”.

A aplicação equivale, em média, a 9,7% do PIB do Brasil, mas, atualmente, atinge quase 14% deste valor, segundo o Banco Central.

Juros baixos x poupança

O fenômeno mundial da redução da taxa de juros não passou incólume pelo Brasil, e afetou diretamente o rendimento de quem escolheu a poupança como forma de guardar dinheiro mensalmente.

A taxa média de juros no Brasil entre 1999 e 2012 foi de 15,8% ao ano, chegando a 14,25% no fim de 2016. Depois, caiu bruscamente para 4,25% a.a. no encerramento de 2019, antes da pandemia do coronavírus.

A crise causada pela doença alterou ainda mais o cenário e, após seguidas reduções, o Copom estabeleceu a taxa de juros em 2% ao ano no fim de agosto. Isso impactou de forma “cruel” o rendimento da caderneta de poupança e de outras aplicações de renda fixa.

De acordo com Miguel José Ribeiro de Oliveira, diretor executivo de Estudos e Pesquisas Econômicas da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), essa nova realidade “veio para ficar”.

Para o especialista, apesar do cenário atual indicar que a poupança segue como a preferida do brasileiro para guardar dinheiro, poderá haver uma mudança nesse comportamento muito em breve.

Questão de tempo

“Vamos passar, no Brasil, pelo o que já aconteceu em países da Europa e também nos Estados Unidos, lugares em que as taxas de juros eram altas”, afirmou à reportagem da EuQueroInvestir.

“As pessoas costumavam aplicar em renda fixa, pois havia investimentos altos e garantidos. Só que as taxas de juros foram caindo e inverteram a situação. Hoje, a maioria dos americanos e europeus opta pela Bolsa, e acho que podemos ter esse cenário no Brasil”, completou.

Nos Estados Unidos, por exemplo, o Federal Reserve (Fed, Banco Central do País) determinou, em sua última reunião, que as taxas de juros se mantivessem perto de zero.

A autoridade monetária sinalizou também que o cenário seguirá inalterado “até que a inflação esteja a caminho de superar moderadamente a meta de 2% do Fed por algum tempo”.

O rendimento de aplicações similares à nossa poupança nos EUA é de aproximadamente 0,03% ao ano.

No Brasil, de acordo com o Banco Central, nos últimos 12 meses a aplicação rendeu 2,67%. No mesmo período, o IPCA-15, que serve como prévia da inflação oficial, bateu 2,65%.

Poupança já rendeu quase 50 % ao mês

De acordo com uma tabela publicada no Debit, empresa de soluções de cálculos trabalhistas e correção monetária, o rendimento mensal da caderneta de poupança era bem diferente na década de 1990.

O cenário de altos índices de remuneração mensais teve início em novembro de 1991, quando pulou de 20,36% para 31,17%.

O fenômeno se agravou pouco antes da implementação do Plano Real no Brasil, em 1994.

Na ocasião, a remuneração mensal ficou perto dos 50%, o que daria um retorno anual próximo dos 600%.

A sequência pode ser observada nos meses entre janeiro e junho naquele ano, com todos superando a casa dos 40%, como mostra o quadro abaixo.

 

A situação passou a se normalizar a partir de julho de 1994, com o controle da inflação e os ajustes feitos pela equipe econômica na política monetária.

Como é a remuneração da poupança

A última determinação do Banco Central, baseada na Lei número 12.703, datada de 7 de agosto de 2012, estabeleceu os padrões para a remuneração da poupança até os dias de hoje.

De acordo com ela, a remuneração dos depósitos pode acontecer de duas formas:

* Para taxa Selic acima de 8,50% ao ano, a aplicação rende rende 6,20% ao ano + TR;

* Para taxa Selic abaixo de 8,50% ao ano, como é o caso atual, a poupança rende 70% da Selic + TR (hoje em zero).

O Banco Central estabeleceu ainda que a data de aniversário da conta de depósito de poupança é o dia do mês de sua abertura, com algumas exceções.

Segundo a autarquia, considera-se a data de aniversário das contas abertas nos dias 29, 30 e 31 como o dia 1° do mês seguinte.

Desde a última atualização da Selic pelo Copom, em agosto, a caderneta de poupança está rendendo 0,1159% ao mês – aproximadamente 1,4% ao ano.

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