Money Week: Marília Fontes explica como investir em renda fixa

Ronaldo Araújo
Engenheiro e Agente Autônomo de Investimentos, hoje me dedico a divulgar ensinamentos sobre como funciona a Previdência Privada. Acredito que com mais conhecimento é possível fazer melhores escolhas para a formação do patrimônio de longo prazo. Para saber mais acesse www.ronaldoaraujo.com.br
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Crédito: Reprodução/Money Week

Destaque entre os investimentos em tempos de juros em trajetória de alta, a renda fixa foi tema de um painel da Money Week nesta segunda-feira (25).

Para falar sobre ela, foi convidada a analista da Nord Research Marília Fontes. Confira como foi.

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O que é renda fixa?

Marília Fontes afirma que a renda fixa nada mais é do que um empréstimo, e por isso deve-se saber qual é o prazo, quais são os juros e quem é o emissor, ou seja, para quem você está emprestando seu dinheiro.

Ela acrescenta: “Na renda fixa há três grandes tipos de emissores: o governo, os bancos e as empresas. Cada um deles tem uma característica particular que convém conhecer bem. O governo é o emissor mais seguro da economia e é tido como livre de risco, significando que tem menos probabilidade de dar um calote, pois tem várias fontes de financiamento da dívida contraída”.

E continua: “O governo serve como referência para o mercado de juros, pois se ele paga 10% ao ano, por exemplo, os bancos e as empresas devem pagar mais do que isso, já que seria uma operação de maior risco. Já os bancos têm uma peculiaridade importante: alguns títulos (CDB, LCI e LCA) contam com a garantia do FGC, o Fundo Garantidor de Crédito. Isso ajuda a evitar a corrida bancária em caso de crise, já que os bancos operam alavancados”.

“Já as empresas podem oferecer títulos como debêntures, CRI’s e CRA’s. Elas não têm garantia do FGC, mas existem estruturas por trás dos títulos para proverem garantia, como fianças e imóveis. Quanto maior for o risco do título, maior deve ser o prêmio pago pelo título. Nesse sentido, os títulos do governo pagam a menor taxa do mercado, os bancos seriam um meio-termo e as empresas teriam prêmios maiores”.

Em relação aos prazos, as três categorias são diferenciadas. O governo tem vários períodos e costuma emitir títulos com intervalos de pagamentos de cinco anos. Já os bancos oferecem títulos com prazos menores, como os CDB’s de liquidez diária, LCI de um ano, LCA de dois anos. As empresas emitem títulos de longuíssimo prazo, com vencimento de 10 anos ou acima. Até mesmo por isso eles podem ser vendidos no mercado secundário.

Como funciona o FGC no caso de quebra de um banco?

Marília aponta que o FGC tem também um risco de crédito, ou seja, ele não tem 100% do que ele garante em disponibilidades.

Atualmente, esse percentual é de 1,93% de todo o valor garantido. Isso pode parecer pouco, mas em uma economia normal é mais do que suficiente. O mesmo não pode ser dito para os casos de crises sistêmicas.

Como os juros dos títulos de renda fixa podem ser pagos?

Existem três formas de precificar os juros de um título de renda fixa, de acordo com Marília Fontes. Acompanhe.

Prefixados

Marília inicia: “A maioria das pessoas acha que um título prefixado tem sua rentabilidade fixa e isso não muda nunca. Mas isso não é verdade. A grande característica desse papel é que o valor que é fixado são seus juros futuros. Assim, quando um prefixado é adquirido, o que realmente fica fixo é o quanto ele valerá no futuro. A missão do investidor é saber qual é seu valor presente. Assim, um título fixado em R$ 1 mil reais em dois anos tem um preço unitário (PU) de R$ 826,44 se a taxa for de 10% ao ano e de R$ 907,02 se a taxa for de 5% ao ano”.

Ela acrescenta: “O grande detalhe é que essa taxa (5 ou 10% ao ano) é negociada todo dia. Assim, ela muda diariamente e baseada exatamente no cenário macroeconômico. Dessa forma, se o mercado negocia hoje a taxa de 10%, o PU é de R$ 826. Se amanhã a taxa negociada for de 5%, o PU valerá R$ 907, pois o valor final de R$ 1 mil sempre deve ser alcançado, já que é ele que foi fixado em todo esse cálculo. Talvez você não tenha percebido, mas esse simples movimento trouxe uma valorização de 9,7% para o título, que supostamente era de renda fixa”.

De acordo com o raciocínio acima, quanto maior for o prazo do título, maior será a variação em seu preço unitário, pois o período de rendimento é mais amplo para que o valor final seja atingido. Um exemplo foi o que aconteceu com alguns títulos IPCA+ em 2016 que tiveram variação de mais de 50% por conta do efeito de marcação a mercado.

Ela dá um alerta: “Portanto, lembre-se: em um título prefixado, o valor fixado é o valor futuro e não o valor presente. A taxa também é variável e negociada diariamente pelos entes do mercado e por isso o título sofre marcação a mercado. Dessa forma, um título dessa natureza deve ser adquirido quando existe a perspectiva de queda nas taxas de juros, porque o seu valor presente precisa aumentar para que se atenda ao menor valor da taxa de juros e o montante final contratado seja alcançado. É o que se chama de antecipar o fluxo financeiro”.

Pós-fixados

Já nesse caso, ela diz: “Ao contrário do que ocorre nos títulos pré, os pós-fixados não travam o valor futuro e sim o valor presente do título. Dessa forma, o rendimento do título se dá diariamente de acordo com o indexador, como a taxa Selic, por exemplo. O detalhe fica por conta da precificação da Selic que ocorre a cada 45 dias”.

“Dessa forma, quanto maior for a taxa fixada, maior será a rentabilidade diária de um título atrelado a esse índice. E é por isso que o rendimento será sempre positivo, ainda que pequeno, se a Selic estiver precificada positivamente. Essa é a principal razão pela qual o Tesouro Selic é muito usado para uso de uma reserva de emergência, dado sua liquidez diária e segurança”.

Indexados à inflação

Por último, ela explica sobre os títulos indexados pela inflação: “Trata-se de um título híbrido, pois tem um componente prefixado (juro real) e um componente pós-fixado (IPCA+). Assim, quanto maior for o IPCA+, mais o título renderá e o inverso também é verdade. Já na parte do juro real, o comportamento é idêntico ao prefixado, sofrendo os mesmos efeitos descritos em relação à marcação a mercado: se a taxa sobre, há prejuízo de marcação a mercado; e, se a taxa desce, há lucro de marcação a mercado”.

Marília finaliza: “Os conceitos podem não ser tão elementares à primeira vista, mas é possível assimilá-los. Fazendo isso, a renda fixa pode ser usada como controle de risco e para valorização agressiva do capital investido.  O que torna o investidor de renda fixa diferenciado é entender que cada uma dessas formas de precificação de juros se comporta de forma diferente conforme varia o cenário macro econômico”.

“Então um bom investidor sempre está posicionado no título certo de acordo com o momento macro da economia. Uma boa forma de verificar isso é digitando o termo ‘tesouro direto rentabilidade acumulada’ e conhecer os dados informados pelo Tesouro. Há vários títulos com rentabilidade negativa em 2021, com dois dígitos”.

Por fim, acrescenta: “Vale lembrar que se o título for levado até o vencimento, esse tipo de prejuízo não atinge a carteira, pois não há venda antecipada na chamada marcação a mercado. No entanto, isso pode levar a perdas de boas oportunidades que o mercado oferece durante todo o período de existência do título”.