Para onde vai a Selic? Principais apostas são de que taxa avance para 7,50% ou 7,75% ao ano

Cláudia Zucare Boscoli
Jornalista formada pela Cásper Líbero, com pós-graduação em Jornalismo Econômico pela PUC-SP, especialização em Marketing Digital pela FGV e extensão em Jornalismo Social pela Universidade de Navarra (Espanha), com passagens por IstoÉ Online, Diário de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e Editora Abril.
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Crédito: Reprodução/BC

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) finaliza nesta quarta-feira (27) sua 242ª reunião para definição da taxa básica de juros (Selic).

A expectativa prioritária do mercado é por uma sexta alta sequencial da Selic. Até semana passada, o mercado projetava um novo aumento de 1 ponto porcentual, com Selic indo dos atuais 6,25% para 7,25% na quarta.

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No entanto, o quadro fiscal apresentou uma significativa deterioração, graças ao anúncio do Auxílio Brasil a R$ 400 pelo menos até o final de 2022, com parte do benefício estourando o teto de gastos.

Com a expansão dos gastos, o mercado acendeu o alerta para as pressões inflacionárias no horizonte relevante de política monetária.

E as apostas, agora, dão conta de um aumento de 1,25 ponto porcentual ou até 1,5 ponto porcentual, como acredita o BTG Pactual (BPAC11), por exemplo.

“O contexto presente nos faz entender que a aceleração significativa do pace do ciclo de alta é adequada, elevando a Selic em 1,5 ponto porcentual nesta reunião, para 7,75% a.a.”, afirma relatório do banco.

E complementa: “Dito isso, esperamos que a reunião de dezembro também seja acompanhada de uma alta superior a 1 ponto porcentual, ou seja, a Selic mais próxima de 9% a.a.”. Em dezembro, dia 7 e 8, acontece a última reunião do ano do Copom.

IPCA-15 piora expectativas

O IPCA-15, que veio acima da projeção, piorou o cenário e algumas poucas casas apostam que a Selic suba até mais do que 2% (já há quem diga 3%).

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15), considerado uma prévia da inflação oficial, foi a 1,20% em outubro. A taxa avançou 0,06 ponto percentual acima da observada em setembro (1,14%).

Esta é a maior variação para um mês de outubro desde 1995 (1,34%). É ainda a maior variação mensal desde fevereiro de 2016 (1,42%). No ano, o IPCA-15 acumula alta de 8,30%. Em 12 meses, acumula 10,34%, acima dos 10,05% registrados nos 12 meses imediatamente anteriores.

Projeção BTG para Selic

projeções Selic

O Boletim Focus de segunda-feira (25) também confirma a piora do cenário projetado pelas instituições financeiras.

O boletim, levantado junto aos principais bancos, aponta que a expectativa para a Selic este ano subiu de 8,25% para 8,75% em uma semana. Para 2022, foi de 8,75% para 9,5%. Subiu também para 2023: 7%.

Projeções Focus de 25 de outubro

boletim Focus

Reprodução/BC

Vale lembrar que, na reunião de março, o Copom promoveu a primeira alta da taxa de juros em seis anos, depois de ela se manter sete meses em 2%, a mais baixa já registrada. Novamente, em maio, veio mais um ajuste de 0,75 ponto porcentual. E em junho, a repetição dos 0,75. Em agosto, a alta foi mais agressiva: de 1 ponto. E em setembro, novamente 1 ponto.

Escalada da Selic rumo à sexta alta consecutiva

Selic

Reprodução/BC

Risco fiscal faz apostas subirem

Na última reunião realizada pelo Copom, em setembro, o “plano de voo” foi mantido pelo Banco Central. como havia adiantado o presidente da instituição, Roberto Campos Neto. Ele disse em evento que não poderia “mudar o plano de voo” a cada novo dado novo de inflação. Isto mesmo com IPCA subindo acima da projeção mês a mês.

No entanto, diante do anúncio de expansão e aumento do auxílio, a compreensão é de que não será possível mais “manter o plano”.

Até mesmo o ministro da Economia, Paulo Guedes, chamou o Copom à realidade. “Se o fiscal piora, tem que correr atrás, não pode ficar atrás da curva”, disse, referindo à curva de juros futuros.

Curva DI: contratos até 2031

curva DI

Reprodução/BTG

Na ata da última reunião, o próprio Copom admitiu que um “ajuste mais tempestivo” poderia ser feito, caso houvesse uma deterioração das expectativas de inflação para o horizonte relevante.

O que é a Selic?

A taxa é o principal instrumento de política monetária utilizado pelo Banco Central para controlar a inflação.

Quando o Copom reduz a Selic, a tendência é que o crédito fique mais barato. O que incentiva a produção e o consumo, mas reduz o controle da inflação.

Em sentido contrário, quando o Copom aumenta a taxa básica de juros, seu objetivo é conter a demanda aquecida e atrair capital estrangeiro, o que reduz a cotação do dólar e impacta na inflação.

Saber sobre a taxa Selic é importante para o investidor, porque a taxa funciona como um norte para montar uma boa carteira de investimentos.

A regra é: com a taxa de juros baixa, os rendimentos da renda fixa deixam de ser tão atrativos. Por outro lado, com taxa de juros alta, a renda fixa volta a ganhar destaque.

E é justamente o que acontece no momento: a renda fixa volta a ser interessante.

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Com a elevação da Selic, o investidor deve passar a olhar novamente com bons olhos a renda fixa.

Neste cenário, o que o investidor pode fazer para se proteger é conseguir boas taxas de CDI, porque Selic subindo, CDI sobe junto.

Bons títulos de inflação e CDBs ou debêntures que pagam IPCA+ são boas opções, tendo em vista que a inflação deve continuar preocupando.

Vale lembrar que a rentabilidade dos investimentos deve ser sempre acima da inflação ou atrelada a ela (no caso de títulos e CDBs, por exemplo). Caso contrário, toda a rentabilidade será perdida.

No entanto, é importante entender que uma carteira equilibrada não foca apenas em um tipo de ativo. É preciso “distribuir os ovos em mais cestas”, como estratégia de defesa e diversificação, equilibrando o desempenho dos ativos.

Como o Copom define a Selic?

A principal função do Copom é realizar uma avaliação do cenário macroeconômico do país e os principais riscos a ele associados.

É com base nessas avaliações que são tomadas as decisões de política monetária.

Além de definir a Selic, desde 1999 o Copom também é responsável por acompanhar o cumprimento das metas de inflação definidas pelo Conselho Monetário Nacional.

Vale lembrar que o Copom não pode aumentar ou diminuir a taxa Selic sem que, para isso, exista uma justificativa pautada na tendência do cenário econômico e no mercado brasileiros.

Na realidade, as variações na Selic tendem a acompanhar as variações de um outro índice, o IPCA, que é o indicador base da inflação no país.

Nesse sentido, diante de um cenário em que a inflação esteja controlada, a tendência da taxa Selic é cair.

Já nos momentos em que há um aumento na inflação, a Selic normalmente sobe para ajudar no controle do mercado.

Atualmente, além da inflação, outro tema bastante recorrente nas atas do Copom é justamente o risco de o governo não obedecer ao teto de gastos.

Como são as reuniões?

As decisões do Copom são tomadas de 45 em 45 dias, em uma reunião que se estende por dois dias.

No primeiro dia, os chefes dos departamentos apresentam uma análise técnica de conjuntura do país. Essa análise envolve uma série de pontos importantes, tais como:

  • Inflação;
  • Nível de atividade;
  • Evolução dos agregados monetários, finanças públicas;
  • Balanço de pagamentos;
  • Economia internacional;
  • Mercado de câmbio;
  • Reservas internacionais;
  • Mercado monetário; e
  • Operações de mercado aberto e expectativas gerais para variáveis macroeconômicas.

Já no segundo dia da reunião, os diretores de política monetária e de política econômica, após análise das projeções atualizadas para a inflação, apresentam alternativas para a taxa Selic e fazem recomendações acerca da política monetária.

Depois dessas avaliações feitas pelos diretores citados acima, os demais membros fazem suas ponderações e apresentam eventuais propostas alternativas.

Ao final desse debate é que ocorre a votação das propostas, em que se busca o consenso sempre que possível.

Essa votação leva em consideração a maioria simples dos presentes, ou seja, para que uma proposta seja aceita, a maior parte dos membros presentes devem concordar com ela.

Além disso, em caso de empate, é o presidente do Copom  que irá proferir o chamado “voto de qualidade”, que é o voto de desempate.

As decisões emanadas do Copom devem ser publicadas por meio de comunicado do diretor de política monetária e esse comunicado deve acontecer no segundo dia, a partir das 18h, imediatamente após o término da reunião.

A taxa de juros fixada na reunião será a meta para a taxa Selic, que irá vigorar durante todo o período entre uma reunião ordinária e outra.

A ata dessa reunião geralmente é publicada na terça-feira imediatamente posterior à reunião.

Copom

O disse o Copom na ata da última reunião?

Na ata de sua 241ª reunião, na qual elevou a Selic, taxa básica de juros, de 5,25% para 6,25%, o comitê avaliou que a inflação ao consumidor seguia elevada, devido a repasses de custos, restrições de oferta e redirecionamento da demanda, o que deve persistir no curto prazo.

Segundo o Copom, isso acontece em decorrência gradual normalização da atividade pós-pandemia, dinâmica que já era esperada.

No entanto, o Copom seguia defendendo que o atual ritmo de ajuste na taxa Selic era suficiente para atingir “patamar significativamente contracionista” e garantir a convergência da inflação para a meta em 2022. As projeções de inflação do Copom situavam-se, então, em torno de 8,5% para 2021, 3,7% para 2022 e 3,2% para 2023.

O Comitê afirmou que novo aumento também de 1 ponto porcentual poderia ser aguardado para o próximo encontro (este, dos dias 26 e 27 de outubro).

Novamente, o comitê afirmou que prolongamentos das políticas fiscais de resposta à pandemia poderiam pressionar a demanda agregada e piorar a trajetória fiscal, elevando os prêmios de risco do país.

A observação era que “apesar da melhora recente nos indicadores de sustentabilidade da dívida pública, o risco fiscal elevado segue criando uma assimetria altista no balanço de riscos, ou seja, com trajetórias para a inflação acima do projetado no horizonte relevante para a política monetária”. Exatamente o que ocorrendo desde então. A conferir.