Copom decide elevar taxa Selic para 4,25% ao ano

Marco Antônio Lopes
Editor. Jornalista desde 1992, trabalhou na revista Playboy, abril.com, revista Homem Vogue, Grandes Guerras, Universo Masculino, jornal Meia Hora (SP e RJ) e no portal R7 (editor em Internacional, Home, Entretenimento, Esportes e Hora 7). Colaborador nas revistas Superinteressante, Nova, Placar e Quatro Rodas. Autor do livro Bruce Lee Definitivo (editora Conrad)
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Crédito: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

O Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC), anunciou nesta quarta-feira (16) que a taxa Selic subiu de 3,5% para 4,25% ao ano, em sua 238ª reunião.

A elevação foi deliberada de forma unânime pelos integrantes do colegiado, que é formado por diretores do BC, e era esperada pelos analistas financeiros.

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A expectativa majoritária do mercado era por uma terceira alta sequencial da Selic, em um novo reajuste de 0,75 ponto porcentual, chegando a 4,25%. Havia dúvida, minoritária, se o ajuste ficaria em torno de 1%.

Decisão do Copom: o que a Selic a 4,25% diz ao investidor

O Copom prevê outro reajuste de mesma magnitude desta quarta na próxima reunião, nos dias 3 e 4 de agosto. E revelou que pode elevar a a Selic até 6,5% no fim do ano.

“Para a próxima reunião, o Comitê antevê a continuação do processo de normalização monetária com outro ajuste da mesma magnitude. Contudo, uma deterioração das expectativas de inflação para o horizonte relevante pode exigir uma redução mais tempestiva dos estímulos monetários. O Comitê ressalta que essa avaliação também dependerá da evolução da atividade econômica, do balanço de riscos e de como esses fatores afetam as projeções de inflação”, informou o texto.

O comitê explica que a  piora das expectativas de inflação pode exigir redução mais tempestiva de estímulos. O BC cita presença de “ociosidade” no cenário externo.

Pontua que a incerteza no exterior continua elevada e preocupante, Mas pondera que a próxima ação dependerá também de atividade e balanço de riscos. Lembra ainda que questionamentos sobre inflação em países desenvolvidos podem tornar ambiente desafiador a emergentes.

No comunicado de hoje o Copom escreve: “No cenário externo, estímulos fiscais e monetários em alguns países desenvolvidos promovem uma recuperação robusta da atividade econômica. Devido à presença de ociosidade, a comunicação dos principais bancos centrais sugere que os estímulos monetários terão longa duração. Contudo, a incerteza segue elevada.”

Prossegue: “Em relação à atividade econômica brasileira, apesar da intensidade da segunda onda da pandemia, os indicadores recentes continuam mostrando evolução mais positiva do que o esperado, implicando revisões relevantes nas projeções de crescimento. Os riscos para a recuperação econômica reduziram-se significativamente.”

Copom: ajuste necessário diante da inflação

O comitê explica que o ajuste de hoje foi necessário para atenuar a disseminação de choque temporário sobre inflação. O BC menciona a perspectiva da economia em relação à intensidade da segunda onda da pandemia.

Menciona ainda que a “deterioração do cenário hídrico contribui para manter inflação elevada no curto prazo.”

E ressalta sobre a alta dos preços: “A persistência da pressão inflacionária revela-se maior que o esperado, sobretudo entre os bens industriais. Adicionalmente, a lentidão da normalização nas condições de oferta, a resiliência da demanda e implicações da deterioração do cenário hídrico sobre as tarifas de energia elétrica contribuem para manter a inflação elevada no curto prazo, a despeito da recente apreciação do Real. O Comitê segue atento à evolução desses choques e seus potenciais efeitos secundários.”

Completa: “Assim como ao comportamento dos preços de serviços conforme os efeitos da vacinação sobre a economia se tornam mais significativos. As diversas medidas de inflação subjacente apresentam-se acima do intervalo compatível com o cumprimento da meta para a inflação.”

O Copom lembra ainda que as expectativas de inflação para 2021, 2022 e 2023, apuradas pela pesquisa Focus, encontram-se em torno de 5,8%, 3,8% e 3,25%, respectivamente.

“No cenário básico, com trajetória para a taxa de juros extraída da pesquisa Focus e taxa de câmbio partindo de USD/BRL 5,05,as projeções de inflação do Copom situam-se em torno de 5,8% para 2021 e 3,5% para 2022”, diz o comunicado do Copom.

O texto afirma ainda que “esse cenário supõe trajetória de juros que se eleva para 6,25% a.a. neste ano e para 6,50% a.a. em 2022.”

Dessa forma, as projeções para a inflação de preços administrados são de 9,7% para 2021 e 5,1% para 2022, bem acima da meta. O Comitê ressalta que, em seu cenário básico para a inflação, permanecem fatores de risco em ambas as direções.

“O Copom reitera que perseverar no processo de reformas e ajustes necessários na economia brasileira é essencial para permitir a recuperação sustentável da economia. O Comitê ressalta, ainda, que questionamentos sobre a continuidade das reformas e alterações de caráter permanente no processo de ajuste das contas públicas podem elevar a taxa de juros estrutural da economia”, conclui.

Previsões

Na reunião de março, o Copom promoveu a primeira alta da taxa de juros em seis anos, depois de ela se manter sete meses em 2%, a mais baixa já registrada. Novamente, em maio, veio mais um ajuste de 0,75 ponto porcentual.

A subida desta quarta (16) era projetada pela maioria das casas de análise. Isso porque na ata da última reunião, quando o Copom elevou a Selic de 2,75% para 3,5%, o comitê já havia sinalizado que um novo ajuste, de igual magnitude, deveria ser aplicado na sequência.

Só não haveria novo ajuste se o cenário para inflação e teto de gastos mudasse de maneira significativa, o que não ocorreu.

Assim, a Selic, taxa básica de juros, sofreu sua terceira alta consecutiva em seis anos, depois de sete meses mantida em 2% – seu piso histórico.

Havia ainda apostas também de o BC aumentasse a Selic em 1 ponto porcentual, elevando a taxa a 4,5%. Mas eram minoria.

Selic em até 7% até dezembro

Para até o final do ano, no entanto, as apostas do mercado são de subida ainda mais acentuada do que o estimado pelo Copom nesta quarta (16): de 6% a até 7%.

Segundo levantamento do jornal Valor divulgado na sexta-feira (11), de 104 instituições consultadas, 74 acreditam que a Selic fique entre 6% e 7% até dezembro.

O BTG Pactual (BPAC11) apostava em alta de 0,75 ponto porcentual para agora. E Selic a 6,5% até dezembro.

Já o Boletim Focus, que semanalmente apresenta as projeções do mercado, aponta Selic a 5,75% até o final do ano e a 6,5% em 2022.

Análise do BTG Pactual

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central do Brasil decidiu por unanimidade pela alta da taxa Selic em 0,75%, para 4,25% e já contrata nova alta de, pelo menos, 0,75% para a próxima reunião (em 4 de agosto), o que elevaria a taxa Selic para 5% ao ano.

Além disso, os membros da cúpula indicaram que, neste momento, é adequada a normalização completa da taxa de juros, ou seja, retiraram o termo “parcial” do texto, fator de grande preocupação do mercado nos últimos comunicados, visto que as expectativas de inflação estão em alta tanto para 2021 como para 2022.

Segundo o time Macro Research do BTG Pactual digital, vale ressaltar que o comitê considera como horizonte relevante de política monetária o ano de 2022. Nesse sentido, o cenário para os preços no próximo ano tornou-se mais crítico desde a última reunião, com dois fatores como destaque:

  • Desempenho acima do esperado da atividade econômica, com o PIB do 1T21 crescendo 1,2% t/t, o que é explicado pela mobilidade social ter se mantido em patamares elevados mesmo com um cenário pandêmico mais crítico que o observado na 1ª onda; e
  • Cenário hídrico desfavorável, o que reacendeu a discussão sobre o reajuste dos preços das tarifas de energia elétrica. Nesse sentido, o comitê salientou no comunicado que o cenário para a inflação neste ano assume uma hipótese neutra para a bandeira tarifária de energia elétrica, que se mantém em “vermelha patamar 1” em dezembro de cada ano-calendário. Podemos inferir que a instituição está monitorando esse elemento com mais atenção, dado o peso dessa tarifa no IPCA.

As preocupações com os novos desafios do cenário inflacionário somado aos riscos de pressão do lado da política fiscal, com a renovação do Auxílio Emergencial por mais três meses contratando pressão mais forte sobre a demanda agregada, levaram o comitê a sinalizar, ainda, que não há compromisso com a elevação da taxa de juros ao nível considerado “neutro” e que os passos futuros da política monetária poderão ser ajustados para assegurar o cumprimento da meta de inflação para o ano de 2022, de 3,5%.

Inflação

A Selic é o principal instrumento do Banco Central para manter sob controle a inflação oficial, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Em maio, o indicador fechou no maior nível para o mês desde 2015, pressionado pelo dólar e pela alta dos combustíveis e do gás de cozinha.

O valor está acima do teto da meta de inflação. Para 2021, o Conselho Monetário Nacional (CMN) tinha fixado meta de inflação de 3,75%, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual. O IPCA, portanto, não podia superar 5,25% neste ano nem ficar abaixo de 2,25%.

No Relatório de Inflação divulgado no fim de março pelo Banco Central, a autoridade monetária estimava que, em 2021, o IPCA fecharia o ano em 5% no cenário base. Esse cenário considera um eventual estouro do teto da meta de inflação no primeiro semestre, seguido de queda dos índices no segundo semestre.

A projeção está em linha com as previsões do mercado. De acordo com o boletim Focus, pesquisa semanal com instituições financeiras divulgada pelo BC, a inflação oficial deverá fechar o ano em 5,04%. A projeção oficial só será atualizada no próximo Relatório de Inflação, no fim de junho

Crédito mais caro

A elevação da taxa Selic ajuda a controlar a inflação. Isso porque juros maiores encarecem o crédito e desestimulam a produção e o consumo. Por outro lado, taxas mais altas dificultam a recuperação da economia. No último Relatório de Inflação, o Banco Central projetava crescimento de 3,6% para a economia em 2021, decorrente da segunda onda da pandemia de covid-19.

O mercado projeta crescimento menor. Segundo a última edição do boletim Focus, os analistas econômicos preveem expansão de 3,14% do Produto Interno Bruto (PIB, soma dos bens e serviços produzidos pelo país) neste ano.

A taxa básica de juros é usada nas negociações de títulos públicos no Sistema Especial de Liquidação e Custódia (Selic) e serve de referência para as demais taxas de juros da economia. Ao reajustá-la para cima, o Banco Central segura o excesso de demanda que pressiona os preços, porque juros mais altos encarecem o crédito e estimulam a poupança.

Ao reduzir os juros básicos, o Copom barateia o crédito e incentiva a produção e o consumo, mas enfraquece o controle da inflação. Para cortar a Selic, a autoridade monetária precisa estar segura de que os preços estão sob controle e não correm risco de subir.

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