Onde investir seu dinheiro com a nova alta da Selic?

Cláudia Zucare Boscoli
Jornalista formada pela Cásper Líbero, com pós-graduação em Jornalismo Econômico pela PUC-SP, especialização em Marketing Digital pela FGV e extensão em Jornalismo Social pela Universidade de Navarra (Espanha), com passagens por IstoÉ Online, Diário de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e Editora Abril.
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Crédito: Lucia Grzeskiewicz / Pixabay

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central finalizou nesta quarta-feira (4) sua 239ª reunião e promoveu mais uma elevação da Selic, como projetado pelo mercado.

Assim, a Selic, taxa básica de juros da economia, sofreu sua quarta alta consecutiva em seis anos, depois de sete meses mantida em 2% – seu piso histórico.

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Comitê elevou a a taxa Selic de 4,25% para 5,25% ao ano. Além disso, o Copom sinalizou que vem mais um aumento de 1 p.p na próxima reunião.

A dica dos especialistas a partir daqui é prestar atenção no comunicado do Banco Central e na ata, que sai na terça-feira (10), para entender qual o ritmo de subida da taxa até o final do ano.

Para o mercado, é esperado que a taxa básica de juros alcance de 7% a 7,5% até dezembro. O BTG Pactual (BPAC11), por exemplo, aposta em Selic fechado 2021 a 7,5% ao ano. Para o banco, em 22 de setembro a Selic deve ter nova alta de 1%, seguida de elevação de 0,75% em 27 de outubro, e de 0,50% em 8 de dezembro.

Já o Boletim Focus, que semanalmente apresenta as projeções de diversas instituições financeiras, aponta Selic a 7% ao ano.

Para o investidor, tal patamar já começa a deixar a renda fixa mais atraente. Entenda o que muda.

O que é a Selic e o que ela diz para o investidor?

Antes de tudo, vamos entender o que é a tão falada Selic. A taxa é o principal instrumento de política monetária utilizado pelo Banco Central para controlar a inflação.

Quando o Copom reduz a Selic, a tendência é que o crédito fique mais barato. O que incentiva a produção e o consumo, mas reduz o controle da inflação.

Em sentido contrário, quando o Copom aumenta a taxa básica de juros, seu objetivo é conter a demanda aquecida. Isso causa reflexos nos preços, porque os juros mais altos encarecem o crédito e estimulam a poupança.

Saber sobre a taxa Selic é importante para o investidor, porque a taxa funciona como um norte para montar uma boa carteira de investimentos.

A regra é: com a taxa de juros baixa, os rendimentos da renda fixa deixam de ser tão atrativos. Por outro lado, com taxa de juros alta, a renda fixa volta a ganhar destaque.

Como investir com Selic em tendência de alta?

Como ensina Paulo Filipe de Souza, assessor da EQI Investimentos, o investidor deve passar a olhar novamente com bons olhos a renda fixa com a projeção de alta de 7% ou até mais até dezembro.

“Mesmo com subida mais rápida dos juros agora, podem ser necessárias mais altas adicionais, dado que a inflação não vem dando sinais de arrefecimento”, ele explica.

Neste cenário, o que o investidor pode fazer para se proteger é conseguir boas taxas de CDI, porque Selic subindo, CDI sobe junto.

“Bons títulos de inflação e CDBs ou debêntures que pagam IPCA+ são boas opções, tendo em vista que a inflação deve continuar preocupando”, ele recomenda.

Vale lembrar que a rentabilidade dos investimentos deve ser sempre acima da inflação ou atrelada a ela (no caso de títulos e CDBs, por exemplo). Caso contrário, toda a rentabilidade será perdida.

No entanto, é importante entender que uma carteira equilibrada não foca apenas em um tipo de ativo. É preciso “distribuir os ovos em mais cestas”, como estratégia de defesa e diversificação, equilibrando o desempenho dos ativos.

Em quais investimentos ficar de olho?

CDB

Uma boa opção de investimento nesse momento de alta da Selic volta a ser os títulos de instituições bancárias. Os chamados Certificados de Depósito Bancário têm seu rendimento expresso (e portanto atrelado) ao CDI. Esse índice reflete um retorno muito próximo à Selic, apenas levemente abaixo.

E o que pode tornar bastante atraente alguns CDBs bancários é justamente o movimento anterior da Selic, de nível mais baixo de sua história. Como seu valor ficou em 2% ao ano durante um período considerável, alguns bancos resolveram elevar o rendimento como forma de atrair novos investidores.

Assim, muitos títulos foram ofertados ao mercado com retornos de 150% ou 160% do CDI. Mas perceba um detalhe muito importante: com a Selic a 2% ao ano, um CDB que renda 150% do CDI resulta em uma rentabilidade de 3% após 12 meses de aplicação. O que pode não ser tão interessante dada a alta da inflação.

No entanto, a grande sacada pode estar em buscar esses títulos no momento atual. O motivo maior é que ainda pode ser possível encontrar esses papéis remunerando da forma que foi citada. Dessa forma, o mesmo título passará a render bem mais porque ele continua atrelado ao CDI e, portanto, à taxa Selic.

Isso quer dizer que um CDB que retorne 150% do CDI renderá 10,5% ao ano para o caso em que a Selic seja fixada em 7%. É uma grande diferença, não é mesmo? E perceba que se trata do mesmo título, mas é preciso garimpar o mais rápido possível, pois a oferta não deve perdurar por muito mais tempo. Convém lembrar que CDBs bancários contam com a garantia do Fundo Garantidor de Crédito ― FGC.

Títulos de inflação

Um dos principais motivos para o início do movimento recente de alta da Selic certamente foi a elevação dos níveis de inflação. A razão dessa crescente nos índices de preço se deu não somente no Brasil, mais no mundo todo. E isso se deve à pandemia que o mundo atravessou recentemente.

Observar esse movimento no mercado é muito importante porque a inflação tem impacto direto nos investimentos em geral. Somente após descontado seu valor é que pode-se chegar ao chamado ganho real, que é o rendimento nominal de uma aplicação menos a inflação do período. Uma inflação elevada pode prejudicar os investimentos.

No entanto, existe uma forma de fazer com que um movimento ruim jogue favoravelmente ao seu dinheiro: são os títulos que são atrelados à inflação. Investir em um papel desses significa ter um rendimento real garantido, pois o retorno do título é expresso por um percentual acima da inflação, independente de qual seja seu valor.

Os chamados títulos IPCA são negociados na plataforma do Tesouro Direto e é o mecanismo por meio do qual se adquire os títulos de dívida pública. Existem várias datas de vencimento, com papéis vencendo a partir de 2026. Quanto maior o prazo de aplicação, maior o retorno conseguido.

Nos títulos mais breves, é possível encontrar retornos reais de 3,66% ao ano. Já os mais longos entregam rentabilidade real acima de 4% ao ano, com o papel de vencimento em 2055 entregando 4,33% de juros reais. Com a inflação em 8% ao ano, esse título pagaria um total de 12,33% ao ano, praticamente o dobro da taxa Selic se fixada em 6,5% ao ano.

Crédito privado

Também há boas oportunidades entre os papéis de crédito privado com a alta da Selic. Essa modalidade de investimento é representada pelos títulos de dívidas emitidos por empresas da iniciativa privada. Trata-se de um mecanismo para efetuar a captação de recursos junto ao mercado. Em contrapartida o investidor recebe uma remuneração.

Entre esse tipo de título, destacam-se as emissões de empresas do setor imobiliário e de agronegócio. São os Certificados de Recebíveis Imobiliários ― CRI ― e do Agronegócio ― CRA. Além desses, também pode-se contar com as debêntures, sobretudo as incentivadas que visam a aplicação obrigatória do recurso captado em projetos de infraestrutura.

Um dos fortes aspectos que deve guiar a tomada de decisão do investidor é a classificação de risco do título analisado. Duas modalidades merecem especial atenção: são os papéis high yield e os high grades. Enquanto os primeiros têm uma expectativa de retorno maior embutida em suas taxas, os segundos têm alta qualidade de crédito, porém menor retorno garantido já que o risco é menor.

Dessa forma, os papéis high yield podem proporcionar maiores retornos. É possível encontrar títulos que bonificam o investidor em até 1% a mais que os próprios títulos de inflação. No médio e longo prazo essa diferença pode aumentar consideravelmente o retorno dos investimentos. Por isso, vale a pena fazer um estudo mais cuidadoso no momento de escolher esses papéis.

E a poupança?

A poupança também se beneficia da alta da Selic. Como não poderia deixar de ser, o investimento preferido da nação (nesse momento) também merece alguma atenção. Com a projeção de 6,5% ao ano para a taxa Selic, o retorno do investimento continua baixo. Além disso, com os atuais níveis de inflação, o resultado é a perda de dinheiro.

Em resumo, sempre que a Selic estiver abaixo de 8,5% ao ano, a poupança renderá 70% do seu valor. Assim, se confirmada a projeção de 7% para a taxa básica de juros, a poupança renderá apenas 4,9% ao ano. Não é difícil perceber que o valor é bem abaixo da projeção da inflação na casa de 8%. Definitivamente, aplicar na poupança continua sendo uma das piores escolhas de investimento a se fazer.

Com Ronaldo Araújo

Money Week 5ª Edição

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