Copom eleva taxa Selic para 2,75% ao ano, primeira alta desde 2015

Marco Antônio Lopes
Editor. Jornalista desde 1992, trabalhou na revista Playboy, abril.com, revista Homem Vogue, Grandes Guerras, Universo Masculino, jornal Meia Hora (SP e RJ) e no portal R7 (editor em Internacional, Home, Entretenimento, Esportes e Hora 7). Colaborador nas revistas Superinteressante, Nova, Placar e Quatro Rodas. Autor do livro Bruce Lee Definitivo (editora Conrad)
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Crédito: Divulgação/Banco Central

Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) anunciou nesta quarta (17) que irá elevar a a taxa Selic de 2% para 2,75% ao ano.

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Em meio ao aumento da inflação de alimentos que começa a estender-se por outros setores, o BC subiu os juros básicos da economia pela primeira vez em quase seis anos.

O mercado aguardava pelo aumento da Selic, mas a decisão de hoje surpreendeu os analistas financeiros. Esperava-se em média uma elevação para 2,5% ao ano justamente pelo cenário de aumento de inflação.

A decisão, unânime, representa o primeiro aumento desde 2015, quando a taxa foi elevada de 13,75% para 14,25% ao ano.

A Selic permaneceu nesse patamar até outubro de 2016, quanto o Copom voltou a reduzir os juros básicos da economia até que a taxa chegasse a 6,5% ao ano em março de 2018.

Em julho de 2019, a Selic voltou a ser reduzida até alcançar 2% ao ano em agosto de 2020, influenciada pela contração econômica gerada pela pandemia de covid-19. Esse foi o menor nível da série histórica iniciada em 1986.

Como justificativa para a decisão, o Copom citou, além da pressão inflacionária, sinais de recuperação da economia — mas alertou para o risco fiscal e incertezas em relação aos rumos da pandemia.

O comitê deu mostras, em seu comunicado, de que deve subir, diante desse cenário, a taxa nos próximos meses.

Copom sinaliza mais aumento nas próximas reuniões

No comunicado desta quarta (17), o Copom sinalizou que pode aumentar ainda mais a taxa nas próximas reuniões.

O Copom diz que, no cenário básico, a projeção de IPCA 2022 passa de 3,4% para 3,5%. Para 2021, vai de 3,6% para 5,0%.

A decisão, diz o BC, reflete balanço de riscos de “variância maior que usual para inflação prospectiva”.

O comitê estima elevação na próxima reunião: “A menos que haja uma mudança significativa nas projeções de inflação ou no balanço de riscos, o Comitê antevê a continuação do processo de normalização parcial do estímulo monetário com outro ajuste da mesma magnitude. O Copom ressalta que essa visão para a próxima reunião continuará dependendo da evolução da atividade econômica, do balanço de riscos, e das projeções e expectativas de inflação.”

Choque temporário

O Copom lembra que, apesar de pressão inflacionária mais forte e persistente, mantém que choque é temporário.

“Perseverar no processo de reformas e ajuste é essencial para permitir recuperação econômica”. lembra o comitê.

O BC lembra que o PIB encerrou 2020 com crescimento forte na margem.

Pesou também na decisão desta quarta o quadro de incertezas na retomada da economia em meio ao agravamento da pandemia, com o ritmo lento da vacinação no pais.

A pandemia avança, com o país enfrentando a maior alta de novos casos e mortes por Covid-19. A inflação sobe e as estimativas para o Produto Interno Bruto (PIB), ao contrário, recuam.

O Copom diz que, de um lado, o acirramento da covid pode atrasar recuperação, com inflação abaixo do esperado. De outro lado, prolongar políticas fiscais contra pandemia pode elevar prêmio de risco.

Conforme a autoridade monetária, o risco fiscal elevado segue criando assimetria altista no balanço de riscos.

Novos estímulos

Segundo o BC, novos estímulos em países desenvolvidos e vacinação devem levar a uma recuperação mais robusta na economia.

“No cenário externo, novos estímulos fiscais em alguns países desenvolvidos, unidos ao avanço da implementação dos programas de imunização contra a Covid-19, devem promover uma recuperação mais robusta da atividade ao longo do ano”, diz o comunicado do Dopom.

“A presença de ociosidade, assim como a comunicação dos principais bancos centrais, sugere que os estímulos monetários terão longa duração.”

O comitê pondera: “Questionamentos dos mercados a respeito de riscos inflacionários nessas economias têm produzido uma reprecificação nos ativos financeiros, o que pode tornar o ambiente desafiador para economias emergentes.”

Estratégia

De acordo com o BC, a estratégia de ajuste mais célere reduz probabilidade de não cumprir meta em 2021 e mantém ancoragem de expectativas para horizontes mais longos

As informações sugerem que estratégia é compatível com cumprimento de meta em 2022, mesmo se houver alta temporária de isolamento social

O Copom diz ainda que indicadores recentes continuam indicando recuperação consistente da economia brasileira.

“Em relação à atividade econômica brasileira, indicadores recentes, em particular a divulgação do PIB do quarto trimestre, continuaram indicando recuperação consistente da economia, a despeito da redução dos programas de recomposição de renda”, reforça o comunicado.

“Essas leituras, entretanto, ainda não contemplam os possíveis efeitos do recente aumento no número de casos de Covid-19. Prospectivamente, a incerteza sobre o ritmo de crescimento da economia permanece acima da usual, sobretudo para o primeiro e segundo trimestres deste ano.”

Mercado também prevê mais altas da Selic

A aposta do mercado era por um aumento de 2% para 2,5% e até 2,75%. Mas havia quem acreditasse em leve ajuste de 0,25 ponto porcentual, na crença de que o Banco Central estivesse mais preocupado com a atividade fraca do país do que com a inflação. De todo o modo, espera-se que o BC acelere o passo nas próximas reuniões.

Para até o final de 2021, as previsões podem ultrapassar os 4% e chegar a até 6%.

Para o BTG Pactual (BPAC11), a Selic chega a 4,25% até dezembro. Para o sócio e assessor daEQI Investimentos Paulo Filipe de Souza, ela deve ficar entre 4% e 4,5%.

Boletim Focus, do Banco Central, que reúne as estimativas de diversas instituições financeiras, também prevê Selic a 4,5%.

Projeções de inflação

O Focus também trouxe alta considerável para a inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), de 3,98% de uma semana atrás para 4,60% esta semana. Foi a décima semana de alta consecutiva para o índice, que há um mês registrava projeção de 3,62%.

Nesta quarta, Ministério da Economia revisou para cima sua projeção para inflação, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em 2021.

A expectativa para inflação neste ano saiu de 3,23% para 4,42%. O principal responsável pela elevação da projeção foi o preço dos alimentos. Todavia, as expectativas a partir de 2022 apontam convergência da inflação para o centro da meta.

Para o ano que vem, a projeção é de 3,50%.

As estimativas foram elaboradas pela Secretaria de Política Econômica (SPE) do Ministério da Economia.

Leia mais sobre as projeções do Ministério da Economia aqui

Meta de inflação

A decisão de aumentar a Selic agora atende a um cenário diferente: de baixa produção e de alta inflacionária no país.

O controle da inflação era uma das condicionantes do BC para manter a Selic a 2%. Na última reunião, o Copom definiu pela retirada do forward guidance, justamente porque a inflação não se comportou como esperado pelo comitê.

A outra condição era que o regime fiscal não fosse alterado, o que, até aqui, não aconteceu no país.

Para 2021, a meta de inflação que deve ser perseguida pelo BC, definida pelo Conselho Monetário Nacional, é de 3,75% para este ano, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Ou seja, o limite inferior é 2,25% e o superior é 5,25%.

Para 2022, a meta é 3,5%, também com intervalo de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo.

Até alguns meses atrás, as instituições financeiras projetavam inflação abaixo do centro de meta. A situação, no entanto, mudou e os analistas consultados no boletim Focus agora projetam que a inflação oficial medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) terminará o ano em 4,6%. Para 2022, a estimativa está em 3,5%.

Selic: reduções desde 2015

Foram cinco manutenções de Selic a 2% definidas pelo Copom desde 17 de junho de 2020, quando a taxa foi reduzida de 2,25% para 2%.

Mas a sequência de quedas começou bem antes. Desde julho de 2015, a Selic sofreu uma série de reduções, indo de 14,25% para os atuais 2%.

As medidas sempre serviram para estimular a economia, já que quanto menor a taxa básica de juros, mais acesso a crédito barato tem as empresas e as famílias, com incentivo ao consumo e à produção

Como ficam os investimentos com Selic em alta?

O Banco Central atua diariamente por meio de operações de mercado aberto – comprando e vendendo títulos públicos federais – para manter a taxa de juros próxima ao valor definido na reunião.

Quando o Copom aumenta a Selic, a finalidade é conter a demanda aquecida, e isso causa reflexos nos preços porque os juros mais altos encarecem o crédito e estimulam a poupança.

Com a Selic ainda na casa dos 2%-3%, quem busca rentabilidade ainda deve focar na renda variável.

A renda fixa segue sendo indicada para a reserva de emergência e para o investidor altamente conservador, que realmente só quer proteger o dinheiro e não está muito preocupado com o retorno.

No entanto, com as projeções de alta da Selic até 6% ainda este ano, o investidor passa a novamente olhar com bons olhos a renda fixa. E ele deve ficar atento a dois aspectos. Os papéis atrelados à Selic ganham destaque. Mas também os ligados ao IPCA, indicador oficial de inflação.

Vale lembrar, no entanto, que uma carteira equilibrada não foca apenas em um tipo de ativo. Os papéis do Tesouro Direto e o CDI voltam a ser atrativos, sim. Mas é preciso “distribuir os ovos em mais cestas”, como estratégia de defesa e diversificação, equilibrando o desempenho dos ativos.

Por que a Selic afeta os investimentos?

A Selic é o principal instrumento de política monetária utilizado pelo BC para controlar a inflação.

Quando o Copom reduz a Selic, a tendência é que o crédito fique mais barato. O que incentiva a produção e o consumo, mas reduz o controle da inflação.

Em sentido contrário, quando o Copom aumenta a taxa básica de juros, seu objetivo é conter a demanda aquecida. Isso causa reflexos nos preços, porque os juros mais altos encarecem o crédito e estimulam a poupança.

Saber sobre a taxa Selic é importante porque a taxa funciona como um norte para montar uma boa carteira de investimentos.

A regra é: com a taxa de juros baixa, os rendimentos da renda fixa deixam de ser tão atrativos. Por outro lado, com taxa de juros alta, a renda fixa volta a ganhar destaque.

Crédito mais caro

A elevação da taxa Selic ajuda a controlar a inflação. Isso porque juros maiores encarecem o crédito e desestimulam a produção e o consumo. Por outro lado, taxas mais altas dificultam a recuperação da economia. No último Relatório de Inflação, o Banco Central projetava crescimento de 3,8% para a economia em 2021. A projeção pode ser revisada nos próximos relatórios, que saem no fim de cada trimestre.

O mercado projeta crescimento menor. Segundo a última edição do boletim Focus, os analistas econômicos preveem contração de 3,23% do Produto Interno Bruto (PIB, soma dos bens e serviços produzidos pelo país) neste ano.

A taxa básica de juros é usada nas negociações de títulos públicos no Sistema Especial de Liquidação e Custódia (Selic) e serve de referência para as demais taxas de juros da economia. Ao reajustá-la para cima, o Banco Central segura o excesso de demanda que pressiona os preços, porque juros mais altos encarecem o crédito e estimulam a poupança.

Ao reduzir os juros básicos, o Copom barateia o crédito e incentiva a produção e o consumo, mas enfraquece o controle da inflação. Para cortar a Selic, a autoridade monetária precisa estar segura de que os preços estão sob controle e não correm risco de subir.

*Com Agência Brasil

 

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