Mesmo com alta de pessoa física na Bolsa, 40% dos investidores ainda mantém dinheiro na poupança

Giovanna Castro
Jornalista formada pela UNESP.
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Crédito: -Foto: Pixy.org

Uma pesquisa da B3  mostrou que mesmo com boom na nossa Bolsa de Valores nos últimos anos, muita gente ainda deixa o dinheiro na poupança.

De maio de 2019 a novembro de 2020, o número de investidores pessoa física na B3 saltou de 1 milhão para quase 3,2 milhões.

Alguns motivos são o crescimento da disseminação de informações sobre investimentos e a Selic em sua mínima histórica de 2% ao ano. Com isso, a rentabilidade dos investimentos de renda fixa despencou. Assim, muita gente passou a estudar e aplicar em ações, fundos multimercado e fundos imobiliários.

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No entanto, outro dado chamou a atenção: mesmo com esse movimento, o levantamento da bolsa chamado “A descoberta da bolsa pelo investidor brasileiro” mostrou que 40% dos entrevistados ainda mantém parte do seu patrimônio na poupança. E 22% dos participantes disseram que ainda pretendem aplicar dinheiro na poupança futuramente.

Por que os brasileiros deixam o dinheiro na poupança?

Para Márcia Silva, gerente de investimentos na Sicredi Vale do Piquiri, a poupança é tão popular no Brasil por um motivo cultural. 

“Crescemos com a ‘caderneta de poupança’ como solução de educação financeira e investimento mais seguro que existe. Então, as pessoas entendem que a única forma de proteger seu patrimônio é migrar para poupança. Muitas vezes com uma visão bem deturpada sobre risco ou até mesmo sobre rentabilidade”, explica a especialista.

Além disso, ainda falta conhecimento sobre mercado de investimentos, apesar de isso ter começado a mudar nos últimos anos. Pode levar décadas até que tenhamos uma sociedade na qual a maioria dos brasileiros tem plena consciência sobre suas finanças.

Outro fator é que muitas pessoas ainda dependem de grandes bancos para administrar seu dinheiro. E, nesses bancos, as opções de investimentos oferecidas além da poupança, geralmente são em renda fixa e com taxas de administração altas, aponta Paulo Filipe Souza, sócio EQI.

Nesses casos, a poupança pode acabar oferecendo um rendimento realmente superior, além de ter o benefício de ser isento de Imposto de Renda. “O rendimento da poupança é de 70% da taxa Selic. Como a Selic está hoje em 2%, a poupança está rendendo 1,4% ao ano. Se te oferecem um fundo que rende 1,90% do CDI, com 1% de administração, ele vai render 0,90%. Então, nesse caso, você ganha mais na poupança”, explica.

A poupança é segura?

Um dos fatores pelo qual muita gente opta por deixar o dinheiro na poupança é a falsa sensação de segurança.

A poupança é popular, é vinculada a grandes bancos e não apresenta oscilações grandes no rendimento. Por isso, as pessoas acreditam que não têm como perder dinheiro na poupança, mas isso não é verdade.

Como a poupança não tem nenhum fator de proteção contra a inflação, já que é vinculada somente à Selic, você não possui garantias de que o seu dinheiro vai render o suficiente para cobrir a inflação do período de aplicação.

Ou seja, em um momento como esse, onde a taxa Selic está baixa e a inflação está pressionada, as chances de você perder dinheiro por conta da desvalorização são grandes.

Além disso, Erick Scott, head de investimentos da Guide Investimentos, lembra que existe o fator aniversário de rendimento da poupança.

Entenda: na poupança, o rendimento é calculado de acordo com o aniversário mensal. Portanto, se você retirar o dinheiro antes desse prazo, perde o rendimento. O que não acontece com outros ativos que possuem a rentabilidade diária.

Rendimento da poupança

O rendimento da poupança é bem simples de entender. Ele é atrelado à taxa de juros, representada no Brasil pela Selic e à Taxa Referencial (TR). Essa segunda se mantém zerada desde 2017, portanto, no momento só levamos em conta a Selic.

Se a Selic está abaixo de 8,5% ao ano, a poupança rende 70% da Selic mais a variação da TR. Ou seja, se hoje a taxa Selic é de 2% ao ano, o seu dinheiro na poupança rende atualmente 1,4% ao ano.

Agora, caso a Selic estivesse acima de 8,5% ao ano, o rendimento da poupança seria calculado como 6,17% ao ano, mais a TR. Isso corresponde a 0,5% ao mês.

Essa é uma remuneração extremamente baixa diante do atual cenário econômico e suas distorções, pondera Márcia Silva. “Um CDB que remunera 100% do CDI ao ano, por exemplo, mesmo resgatando com a maior alíquota, 22,5% de Imposto de Renda, remunera mais”, compara.

Investimentos que rendem mais que a poupança

Scott, da Guide, é categórico ao dizer que deixar o dinheiro na poupança atualmente não é mais vantajoso do que aplicar em outros ativos da renda fixa.

“Se o investidor procurar um título do Tesouro Direto, por exemplo, um pós-fixado vai render quase igual à Selic. Ou seja, quase 2% ao ano, o que é bem superior ao 1,4% ao ano da poupança. Além disso, um título muito seguro, emitido pelo governo brasileiro”, comenta o especialista da Guide.

Ele pontua ainda que, mesmo com o pagamento do Imposto de Renda, obrigatório no Tesouro Selic, a rentabilidade ainda é superior ao da poupança no resultado final.

Títulos do Tesouro atrelados ao IPCA, o índice que mede a inflação no Brasil, também podem ser interessantes. Afinal, eles garantem que o seu dinheiro renda o suficiente para cobrir a inflação do período de aplicação, mais uma porcentagem que varia de título para título.

Marcia recomenda também que o investidor que busca tirar o dinheiro da poupança olhe fundos de investimentos com cotização em D+0, CDB, LCA e LCI.

No entanto, ela lembra que alguns fundos de investimentos trazem estratégias mais arrojadas. “Nesse caso, se atentar aos riscos é fundamental. Porém, eles trazem à carteira do investidor uma taxa média diferenciada que pode ser bem atrativa”, acrescenta.

No caso das LCAs e LCIs, elas oferecem a oportunidade de investimento com isenção de Imposto de Renda para pessoa física, o que traz uma taxa liquida diferenciada.

Outras opções: CDBs que rendem mais de 100% do CDI e que, mesmo cobrando Imposto de Renda, rendem mais que a poupança; e fundos de renda fixa sem taxas de administração ou com taxas muito baixas.

Bolsa de valores x Poupança

Como apresentado na pesquisa da B3, o investimento em Bolsa de Valores cresceu muito em 2020. E essa é uma tendência que deve continuar em 2021.

No entanto, esse tipo de investimento é considerado de maior risco e não é indicado para investidores mais conservadores, que geralmente são os que estão na poupança.

A recomendação é que, se você tem todo o seu dinheiro na poupança, primeiro faça a transição de uma quantia considerável para outros ativos de renda fixa que entregam melhor rentabilidade. Depois, pesquise com calma sobre outros tipos de investimentos que podem entregar um ganho maior, mas também possuem maior risco.

Se desejar apostar na Bolsa, separe uma parte menor do seu patrimônio para isso. Não se esqueça de medir o seu apetite para risco e estudar o mercado antes de fazer isso. Na dúvida, sempre procure pela ajuda de um profissional.

Se a Selic subir em 2021, a poupança se tornará mais atrativa?

De acordo com a regra de rentabilidade da poupança, se a Selic subir em 2021, o rendimento dela também subirá. No entanto, as expectativas para a taxa de juros são de que, no máximo, ela alcance 3 ou 4%.

Dessa forma, mesmo que a poupança renda mais, isso não significa que ela se tornará mais atrativa. Na comparação com os outros investimentos em renda fixa citados, ela ainda entregará rendimentos inferiores.

“Acredito que, mesmo com uma taxa de juros maior, a poupança ainda será um investimento ruim de se fazer. Comparando com outras opções de baixo risco, como o Tesouro Selic”, pontua Scott.

Além disso, ainda não se sabe quando a Selic deve subir. “Essa é ainda uma grande aposta do mercado”, comenta Paulo Filipe Souza.