Ibovespa só passa de 100 mil pontos com melhoria fiscal

Cláudia Zucare Boscoli
Jornalista formada pela Cásper Líbero, com pós-graduação em Jornalismo Econômico pela PUC-SP, especialização em Marketing Digital pela FGV e extensão em Jornalismo Social pela Universidade de Navarra (Espanha), com passagens por IstoÉ Online, Diário de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e Editora Abril.
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Crédito: Reprodução/Pixabay

A bolsa brasileira vem andando de lado nas últimas semanas, com Ibovespa próximo à casa dos 100 mil pontos, mas sem forças para conseguir passar para o lado de lá. Isso acontece pelo risco fiscal, que é uma verdadeira “pedra no sapato” do mercado.

Enquanto esta situação não melhorar, os especialistas acreditam que o Ibovespa dificilmente vai deslanchar.

“Este é o grande drive da bolsa brasileira hoje”, afirma Paulo Filipe de Souza, assessor e sócio daEQI Investimentos.

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Segundo os especialistas, a bolsa deve ter muita volatilidade nas próximas semanas, sem sair muito do nível de 95 mil a 100 mil pontos.

Para Marcos Iório, gestor da Integral Investimentos, isso se dá por falta de confiança. “O cenário só muda se chegarem notícias de que o governo está comprometido com a questão fiscal”, diz.

O tema fiscal é foco de preocupação dos investidores há um tempo, mas a situação tem se agravado recentemente. Para entender porque este assunto é tão relevante para o mercado, confira esta reportagem.

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Mas, afinal, por que os investidores querem tanto o ajuste fiscal?

Basicamente, é por isso: se o governo consegue colocar as suas contas em dia, o setor privado recebe uma luz verde  para retomar os investimentos nas empresas, o que vai se traduzir em novos empregos, aumento de renda e retomada do consumo.

Hoje em dia, com a taxa básica de juros (Selic) em seu piso histórico, o governo encontra dificuldades para se financiar. Ao mesmo tempo, existe o risco de o governo dar um “calote”, que é justamente o risco fiscal. “Então, temos rendimento baixo e risco alto. Isso implica em fuga de capital”, explica Victor Beyruti, economista da Guide.

Ou seja, o investidor procura outro mercado que tenha um risco menor, ou até parecido, mas com rendimento maior.

Sem compradores para seus títulos, o governo não consegue emitir dívida e financiar seus projetos. Consequentemente, aumenta a dívida pública.

Paralelamente, o mercado entra em um ciclo que derruba a bolsa de valores. Ele tem início com a fuga de capital do país, que implica na desvalorização do real – para sair do país, o investidor compra dólares e a moeda americana se valoriza.

Gastos nas alturas

A grande expectativa do mercado nos últimos tempos era ver uma redução nos gastos do governo. Isso deveria ocorrer por meio das reformas estruturais. Para ter ideia, o déficit primário nas contas do governo deve somar R$ 861 bilhões neste ano, segundo informações de ontem (22) do Ministério da Economia.

O rombo nas contas é bem maior do que o esperado anteriormente, de R$ 784, bilhões. Para este ano, o objetivo era ficar em um déficit primário de até R$ 124,1 bilhões.

Se não bastasse a dificuldade de emplacar as reformas ao gosto do mercado, veio a pandemia e causou a necessidade de enormes despesas para ajudar a população, com o auxílio emergencial.

Então, o cobertor ficou “curto” para conseguir dar conta de todos os projetos que o governo queria implementar.

Por isso, hoje se discute a criação de um novo imposto, nos moldes da extinta CPMF. A expectativa é levantar R$ 120 bilhões por ano com o novo tributo, que vai bancar a desoneração da folha de pagamentos.

Popularidade do presidente e “fritura” de ministro

Vale lembrar que, em 2018, o mercado apoiou a candidatura de Jair Bolsonaro, apostando fortemente na figura liberal do ministro da Economia, Paulo Guedes. O mercado apostava na sua promessa de desburocratizar e desestatizar o país, reduzindo os custos públicos.

No entanto, ao conceder o auxílio emergencial, o presidente Bolsonaro teve um aumento na sua popularidade, abrindo caminho para a sua reeleição. “Temos acompanhado notícias do presidente tentado a aumentar gastos, porque tem visto a popularidade aumentar com isso”, destaca Iório, gestor da Integral Investimentos.

Exemplo da contradição em que o governo se encontra são as notícias recentes sobre o programa Renda Brasil. Ao mesmo tempo em que o presidente “enterra” o projeto, acenando ao mercado, ele dá aval para que o relator do orçamento no Senado encontre uma maneira de implementar o programa.

A situação em que o governo se vê agora é de divisão entre duas alas. Uma delas é apelidada de “desenvolvimentista” (a que quer dinheiro público bancando projetos). A outra é a “fiscalista” (a que prega a austeridade fiscal).

Ao que parece, os desenvolvimentistas vêm ganhando espaço, ao passo que o ministro Paulo Guedes está cada vez mais isolado, com imprensa apontando um processo de “fritura”, que pode culminar até mesmo com sua saída da pasta.

O próprio Guedes já chegou a “desabafar” a jornalistas que está havendo uma “debandada” de sua equipe com o distanciamento do governo das ideias liberais.

Outros temas que “emperram” o Ibovespa

Além do tema fiscal, outros temas emperram o Ibovespa. São eles: a dependência de uma vacina contra a Covid-19, a eleição nos Estados Unidos, e o excesso de oferta de ações na bolsa brasileira.

“Com tanto IPO (ofertas iniciais de ações), o que acontece é que o investidor não foca mais só nas empresas que compõem o Ibovespa. E a demanda pelos papéis do índice não vem como se esperava”, afirma Henrique Esteter, analista da Guide.

Não só o Ibovespa sofre com o risco fiscal

Não é apenas a bolsa que sofre com a ameaça do furo no teto de gastos. A renda fixa também vem sentindo os efeitos.

As Letras Financeiras do Tesouro (LFTs), também conhecidas como Tesouro Selic, por exemplo, vêm perdendo valor no mercado secundário e sendo negociadas abaixo de seu valor de face.

As LFTs vêm perdendo atratividade porque, primeiro, remuneram pela Selic, que está baixa, em 2%. Segundo, porque são uma promessa de pagamento futuro do governo, claramente endividado e com problemas para fechar suas contas.

Já no mercado secundário, o vendedor que precisa resgatar o título acaba aceitando um preço menor pelo ativo.

Como consequência, alguns fundos DI, que têm grande parte dos portfólios formada por LTFs, também apresentam desvalorização.

O Tesouro Nacional, no entanto, afirma que a baixa demanda pelas LFTs tem “impacto pouco relevante” na dívida pública. Isso porque o prêmio desses ativos só será utilizado como referência nas novas emissões. E que o custo total para o Tesouro permanece no menor nível da série histórica.