Ibovespa 100 mil pontos: bolsa retoma patamar em contexto diferente

Natalia Gómez
Editora, é jornalista especializada no mercado de investimentos há 17 anos. Formada pela PUC-SP, teve experiências em veículos como Agência Estado, Valor Econômico e Revista Você SA; e na área de comunicação corporativa e relações públicas para instituições financeiras.
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O Ibovespa fechou nesta sexta-feira (10) acima da marca dos 100 mil pontos pela primeira vez desde 5 de março, após o tombo sofrido pelo índice nos primeiros meses de pandemia. Nominalmente, o patamar de 100 mil pontos é o mesmo do visto no ano passado, mas o contexto desta vez é totalmente diferente.

Quando a bolsa chegou a este nível em 2019, era um momento de otimismo do mercado em relação à troca de governo. Havia uma grande expectativa em relação a uma nova política econômica para o país.

Agora, os 100 mil pontos ocorrem em um contexto de plena pandemia mundial. “Desta vez esses 100 mil pontos acontecem em um momento de medo em que não temos nada de ‘normal'”, compara o assessor de investimentos da EQI, André Arantes.

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Apesar de surpreendente, a retomada do Ibovespa é uma boa notícia para os investidores e ainda tem mais potencial pela frente.

Confira quais são os motivos que justificam a alta e como estão as expectativas para o futuro.

Os 100 mil pontos de 2019

Os 100 mil pontos de 2019 aconteceram em um contexto bem diferente do atual.

Em 18 de março de 2019, o índice chegou aos 100 mil pontos pela primeira vez. No entanto, só fechou uma sessão acima deste patamar em 19 de junho. A partir daí, se manteve com fechamentos superiores a 100 mil pontos por 39 dias consecutivos.

Com isso, o indicador fechou 2019 acima dos 115 mil pontos. Segundo a economista Paloma Brum, naquele momento o mercado global era muito favorável para ativos de risco. A economia dos Estados Unidos estava em plena expansão.

Ao mesmo tempo, no Brasil havia um grande otimismo no mercado devido à agenda liberal do governo Bolsonaro.

Os indicadores indicavam recuperação econômica no mercado brasileiro, e os juros tinham tendência de baixa.

A atratividade da renda variável foi tão grande que o Ibovespa subiu 31,5% em 2019. Foi uma alta mais acentuada que a do S&P500, que subiu 28,9%.

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Momento é totalmente diferente

Em 2020, o cenário não poderia ser mais diferente. Os ativos de risco “mergulharam” com a pandemia mundial. A bolsa brasileira foi junto.

Veja abaixo o comportamento do índice no último ano.

A queda superou 46% no ano, na mínima registrada em 19 de março de 2020.

Somente em março, pior mês da pandemia, a queda foi de quase 30%.

Agora, a bolsa conseguiu voltar a 100 mil principalmente devido às reaberturas das economias na China, Estados Unidos e Europa. Além disso, a flexibilização da quarentena no Brasil ajudou.

“Há otimismo porque os dados econômicos sinalizam recuperação das economias”, disse a economista da Toro. Além disso, as perspectivas de surgimento de vacina ou terapia para a Covid-19 também ajudam o mercado.

Em outras palavras, a alta rápida do Ibovespa também se explica pelo pessimismo exagerado visto no início da crise.

“Em março, o mercado projetou o fim do mundo. É como se o céu tivesse desabado. De março para cá, o mercado tem surpreendido no nível de recuperação”, destacou hoje em live o responsável pela mesa de futuros da Genial Investimentos, Roberto Motta.

Segundo ele, os números de recuperação econômica estão vindo acima do esperado, o que ajuda a retomada do Ibovespa.

Pessoa física na liderança

Uma das grandes explicações para a recuperação do mercado acionário foi o apetite da pessoa física. Diferente do que se imaginava, as pessoas entraram comprando ações quando o Ibovespa veio abaixo, a partir de meados de março.

O número de pessoas físicas na B3 já está perto de 2,5 milhões, mais do dobro do volume registrado um ano antes.

Ao mesmo tempo, muitos investidores institucionais foram mais cautelosos, esperando dados mais concretos de uma retomada econômica. “Ou seja, acabaram ficando de fora desta onda de valorização”, disse Arantes.

Queda da Selic influenciou

Um grandes motivadores para este movimento foi a queda da Selic. Em outras palavras, a menor rentabilidade da renda fixa prefixada está forçando os investidores a buscarem maior rentabilidade na bolsa.

“Quanto mais os juros foram caindo, mais o pessoal foi se aventurando em bolsa”, afirmou o assessor da EQI. Este apetite por risco reforça a importância de as pessoas físicas contarem com o apoio de assessores de investimento atualmente.

“É uma nova cabeça de investir, e ter orientação na hora de assumir mais riscos é fundamental.”

A entrada dos investidores na bolsa tem ocorrido tanto de forma direta quanto por meio de fundos de investimento em ações e fundos multimercado.

Além da pessoa física, outro fator que impulsionou o Ibovespa para os 100 mil pontos foi o mercado norte-americano.

Segundo os especialistas, a bolsa brasileira tem replicado os movimentos vistos nos EUA nos últimos meses. No dia 07 de julho, por exemplo, a Nasdaq bateu um recorde histórico.

Contexto do dólar é outro

Uma das grandes diferenças entre os atuais 100 mil pontos e o patamar atingido em 2019 diz respeito ao dólar.

Um ano atrás, a moeda era cotada a R$ 3,78. Hoje, está em R$ 5,35. Ou seja, os 100 mil pontos do Ibovespa em dólar equivalem a cerca de 50% do que era em dólar no ano passado.

De acordo com Alan Gandelman, CEO da Planner, isso significa que os 100 mil pontos atuais têm um valor diferente. “Embora a barreira de 100 mil seja digna de comemoração, ainda falta bastante para chegar ao que era no passado em dólar”, explica.

Além dos 100 mil pontos

Daqui para frente, o avanço do Ibovespa pode continuar a ser beneficiado pelo apetite da pessoa física. Isso porque atualmente existem apenas 2,5 milhões de brasileiros investindo na B3. O volume é pequeno quando comparado ao tamanho da população que investe em outros tipos de aplicações.

Enquanto os juros continuarem baixos, a bolsa deve continuar a atrair mais pessoas, de acordo com Gandelman.

Até agora, alguns dos setores que mais sustentaram a retomada do Ibovespa até o momento são o bancário, as blue chips como Vale e Petrobras e empresas de varejo.

Até setores pressionados pela pandemia, como shoppings, aéreas e empresas de viagens também ajudaram no retorno. Isso porque muitos investidores aproveitaram os preços baixos para comprar os papéis, esperando uma retomada.

Volatilidade é certa

Apesar do tom otimista dos especialistas, é importante destacar que a volatilidade do mercado acionário deve permanecer.

Segundo a economista Paloma, o mercado deve oscilar tanto no Brasil quanto no exterior, ao sabor do noticiário sobre recuperação econômica e desenvolvimento de vacinas ou remédios.

“É de se esperar que o mercado fique bastante volátil”, destaca.

No entanto, a tendência de alta pode ser acelerada se os indicadores econômicos continuarem a indicar uma retomada mais rápida e consistente.

Além disso, o retorno do investidor estrangeiro para o Brasil terá uma grande influência sobre o índice. No momento, o estrangeiro está cauteloso devido à instabilidade política e à crise econômica vistas no país.

Caso o cenário melhore, devem entrar mais recursos de fora na bolsa brasileira.

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