LFTs e fundos DI têm desvalorização: entenda o motivo

Cláudia Zucare Boscoli
Jornalista formada pela Cásper Líbero, com pós-graduação em Jornalismo Econômico pela PUC-SP, especialização em Marketing Digital pela FGV e extensão em Jornalismo Social pela Universidade de Navarra (Espanha), com passagens por IstoÉ Online, Diário de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e Editora Abril.
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Crédito: Reprodução/Pixabay

A conjuntura atual é de insegurança quanto ao risco fiscal, fuga de capital estrangeiro e Selic em seu piso histórico. Neste cenário, a renda fixa se vê prejudicada como um todo. Mas os títulos públicos pós-fixados, emitidos pelo governo e atrelados à taxa básica de juros, sentem o baque em especial.

É o que vem acontecendo com as Letras Financeiras do Tesouro (LFTs), também conhecidas como Tesouro Selic, que estão perdendo valor no mercado secundário. E já vem sendo negociadas abaixo de seu valor de face.

Como consequência, alguns fundos DI, que têm LFTs em seus portfólios, também apresentaram desvalorização entre agosto e setembro. Em levantamento feito pelo Valor com 180 fundos de renda fixa DI, 30% apresentaram perdas este mês.

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Segundo Marcos Iório, gestor da Integral Investimentos, isto é atípico em um mercado que, historicamente, apresenta volatilidade muito baixa e que, por isso mesmo, atrai os investidores mais conservadores. Entenda o que vem acontecendo.

Conjunção de fatores explica perda no valor das LFTs

A crise gerada pela pandemia do coronavírus demandou ações assertivas dos bancos centrais para atenuar seus impactos. Uma delas foi o corte agressivo na taxa de juros. A Selic sofreu nove cortes seguidos e está atualmente em 2%, seu piso histórico.

A pandemia também deteriorou as contas públicas e seus efeitos no longo prazo continuam a ameaçar o teto de gastos do governo. Isto faz com que a projeção de risco fiscal aumente no Brasil.

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Basta observar a alta atual dos juros futuros, que sinaliza uma perspectiva de risco crescente em investir no país. Toda vez que ocorre uma crise ou instabilidade política, há pressão de alta nos juros futuros.

Sendo assim, as LFTs vêm perdendo atratividade porque, primeiro, remuneram pela Selic, que está baixa. Segundo, porque são uma promessa de pagamento futuro justamente do governo, claramente endividado e com problemas para fechar suas contas.

Preço das LFTs cai no mercado secundário

Neste contexto, as LFTs vêm perdendo valor por uma questão de baixa demanda. Elias Wiggers, assessor de investimentos da EQI, explica que, no mercado secundário, se o vendedor precisa de liquidez e necessita resgatar o título que tem em carteira, ele aceita um preço menor pelo ativo. E isso acaba influenciando todo o mercado, marcando para baixo as cotas dos fundos e posições dos clientes.

“É como se o seu vizinho de porta vendesse o apartamento dele pela metade do preço. Isso fatalmente iria influenciar no preço do seu apartamento no mercado, caso você quisesse se desfazer dele naquele instante”, exemplifica Wiggers. “É raro acontecer, mas acontece, especialmente em momentos de maior estresse ou insegurança do mercado”, afirma.

Fundos DI acompanham a queda

Como consequência, os fundos DI vêm acompanhando a queda no valor de face das LFTs, porque mantêm mais de 95% destes papéis na carteira.

“Os fundos DI estão oscilando muito, o que não é comum. E isto acontece justamente por conta da volatilidade das LFTs”, confirma Marcos Iório, gestor da Integral Investimentos.

Ele explica que, dado o contexto desfavorável, o investidor passou a exigir um prêmio maior pelo papel.

“O movimento é técnico. Com baixa demanda, quem precisa se desfazer destes papéis não encontra comprador e vende por preço mais baixo”, esclarece.

A desvalorização acaba por pressionar ainda mais as LTFs. E, por conta disso, a expectativa no curto prazo é de ainda mais volatilidade.

Já no longo prazo, segundo Iório, tudo vai depender do posicionamento do Banco Central e do Tesouro Nacional perante o mercado.

“O Banco Central continua com um discurso acomodatício. Não demonstra grande preocupação com a inflação e sugere que pode cortar ainda mais a Selic. Isso eleva a pressão sobre as LFTs”, diz.

Como deve se comportar o investidor que possui estes ativos?

A recomendação, neste caso, é a mesma dada a quem está diante de uma queda na bolsa de valores: manter a calma e a posição.

“Em momento de estresse, o investidor tem que se acalmar e esperar para ter a rentabilidade dele de volta. A tendência é que o mercado se tranquilize no longo prazo”, recomenda.

Para quem tem interesse em LTFs, fica o alerta: este não é um momento para compra.

 

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