Sérgio Machado e Paulo Bokel discutem renda fixa e cenário econômico

Ronaldo Araújo
Engenheiro e Agente Autônomo de Investimentos, hoje me dedico a divulgar ensinamentos sobre como funciona a Previdência Privada. Acredito que com mais conhecimento é possível fazer melhores escolhas para a formação do patrimônio de longo prazo. Para saber mais acesse www.ronaldoaraujo.com.br
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Crédito: Reprodução/Money Week

A renda fixa segue roubando a atenção do mercado, enquanto os agentes se perdem em apostas sobre o rumo da taxa básica de juros, Selic. Há quem aposte na manutenção de alta de 1 ponto porcentual antecipada pelo Copom para quarta (27), mas há também quem vá além e preveja altas que vão de 1,25 a até 3 pontos porcentuais.

Para analisar melhor o cenário da renda fixa atualmente, Roberto Varaschin, sócio e co-fundador daEQI Investimentos, conversou com Paulo Bokel, head de distribuição da ARX Investimentos, e Sérgio Machado, gestor da Trópico Investimentos, durante o segundo dia de Money Week.

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Política: Como o cenário político se apresenta no momento?

Segundo os convidados, o cenário atual do país, apesar de conturbado, não é de todo ruim.

Sérgio Machado afirma que “o país não está tão ruim como dizem, pois os indicadores mostram positividade”. “Brasília gera ruído desde sempre, não é novidade, sempre houve problemas e essas surpresas desagradáveis provavelmente sempre existirão. Isso gera ansiedade no mercado pela incerteza e há uma pressão sobre o Banco Central para elevar os juros, muito por conta da inflação elevada”, afirma, lembrando que o IPCA-15 divulgado nesta terça-feira (26) veio fora da curva e isso não foi antecipado pelas instituições.

Ele ainda diz mais: “Não casa bem a taxa alta com uma política de juros ortodoxa, o erro da projeção da inflação não é grande, isso acontece mais por conta da pressão feita pelos entes do mercado. Mas parece uma conspiração para elevar a Selic. O mercado sempre pede mais depois da divulgação, e isso aumenta o nível de endividamento. Não há fuga de moeda, a dívida pode ser rolada e isso mostra que os indicadores estão positivos. Não é possível, até aqui, saber quais serão os movimentos do Banco Central”, resume.

Paulo Bokel acredita que determinados indicadores, como receita na máxima histórica, exportação e dívida em relação ao gasto público e PIB são coisas positivas no cenário atual. Já a PEC dos precatórios pode se revelar um “passa boi, passa boiada”. E isso gera incerteza e ruído no mercado.

“A inflação baixa foi por conta do teto de gastos e agora ele pode não existir mais. Não é uma questão fácil, tanto que o Congresso está adiando e isso gera mais incerteza. Algumas reformas foram feitas, mas precisa de mais coisa. Assim, a incerteza prevalece. Lembrando que, no Brasil, um juro real de 4% é complicado por conta da relação dívida/PIB, que é de 80%. Isso pressiona o crescimento da dívida pública. É interessante ter uma visibilidade da PEC para ter-se um horizonte mais sólido”, avalia.

Juro real de 6% é uma taxa elevada?

Para Sérgio Machado, no cenário atual, um ativo indexado à inflação já seria interessante. Uma NTN-B com 6% seria ainda melhor. “Mas é preciso lembrar que, no governo anterior, tivemos taxas de 8%. Atualmente, não parece ser um momento de “all in” em nada, pois as mudanças estão muito rápidas e o mercado volátil demais. Muitas pessoas têm ansiedade em comprar e isso não leva a nada, pois investimentos não são uma jogatina. É preciso fazer uma boa avaliação, analisando o arcabouço macroeconômico. Isso forma a teoria econômica de cada um e é preciso segui-la. É melhor pegar 5% caindo do que 6% subindo”.

Paulo Bokel concorda: “Olhando as taxas de 5 e 6%, comparado ao mundo, é uma taxa elevada, mas já tivemos taxas maiores de 8%, até mesmo em anos recentes, com taxas acima de 7%. É difícil acertar qual é o máximo da taxa e não faz sentido entrar de vez na taxa e sim paulatinamente. O Brasil precisa de solvência, se conseguir pagar 5% ou 6%, é uma taxa bem elevada”, diz.

Sergio Machado

Sergio Machado / Reprodução/Money Week

Em quanto fechará a Selic em 2021?

Sérgio Machado revela ter preocupação quanto ao comportamento do Banco Central. “Se o banco central entrar na dança do mercado, provavelmente terá problemas. O Banco Central deve ser como o fígado: você não deve sentir; se sentir, é porque existe problema. Ou seja, ele deve existir para proteger a moeda e defender a população da inflação, por exemplo. Isso traz preocupação quando o ruído e as manchetes são muito grandes. A telegrafia das reuniões do Copom também é um problema, e isso não existia no passado. Hoje virou uma festa, com todo mundo dando opinião, e as funções ficando diversas com preocupação em relação ao fisco, mercado de trabalho e outros assuntos desnecessários”, avalia.

Já Bokel defende que o Banco Central “perdeu a mão” com a inflação implícita estando acima de 6%, muito fora da meta. “Além disso, a curva da NTN-B está flat, dizendo que um papel de 2026 e 2050 tem a mesma taxa. Isso não condiz com a tomada de risco, já que papéis mais longos deveriam pagar mais pelo risco de longuíssimo prazo”, afirma.

Como o investidor pode se posicionar com baixo crescimento e juros elevados?

Quanto ao posicionamento do investidor em cenário de baixo crescimento e juros elevados, Bokel afirma que há papeis high grade com bons retornos e isso isenta a tomada de risco muito alto.

“A qualidade de crédito ainda é boa, não se deteriorou. Já convivemos com altas taxas. Com taxa alta talvez não seja necessário tomar crédito com alto risco, já que os juros devem estar elevados”, diz.

Qual indexador traz mais tranquilidade?

Para Paulo Bokel, o pós é mais tranquilo, pois se o CDI sobe, o título acompanha. Já no pré não há como garantir, devido ao risco, que é grande, já que as taxas estão subindo. “Um CDI de 9% ou 10% dá um bom retorno. Os mais curtos são mais interessantes porque serem mais previsíveis”.

Já para Sérgio, o melhor é se posicionar depois que o movimento se acalmar. “Deve-se tomar cuidado com prazo, porque os títulos mais longos podem trazer mais surpresa, isso pode ser um abraço com o mico e sem poder soltá-lo”, resume.

Paulo Bokel

Paulo Bokel / Reprodução/Money Week

Conselhos aos novos investidores

Como recomendação a quem está começando no mercado financeiro, Sérgio recomenda muita dedicação ao trabalho. “Quanto mais se trabalha, mais sorte se tem. Não é no mercado que se fica rico e sim, trabalhando. É preciso paciência, não dá para construir tudo rapidamente. Entenda qual é o mercado de seu interesse e vá devagar, busque conhecimento”.

Bokel complementa: “Tenha um horizonte de investimento, dinheiro de curto prazo deve ir para a renda fixa. Saiba qual é a relação de risco-retorno para não ser surpreendido, pois o cenário pode mudar e trazer surpresas nem sempre agradáveis”.