Estatais na Bolsa: como a interferência do governo afeta o mercado

Regiane Medeiros
Colaborador do Torcedores
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Crédito: Divulgação

Como sabemos, a máquina pública no Brasil é constituída por uma centena de órgãos e empresas direcionados à prestação de serviços públicos como saúde, educação e segurança pública. Além desses serviços essenciais, o governo participa de algumas empresas, as chamadas estatais. Apesar de essas companhias serem do governo ou terem participação estatal, o objetivo é, sobretudo, o lucro.

Pelo menos em tese. Em fevereiro, o mercado foi surpreendido com a troca do comando da Petrobras, a maior estatal brasileira. Saiu Roberto Castello Branco e entrou Joaquim Silva e Luna após o presidente Jair Bolsonaro se mostrar descontente com o ritmo de reajuste de preços dos combustíveis. Com isso, o mercado se pergunta se para segurar a alta de preços nas bombas e, assim, a inflação, a empresa será penalizada, eventualmente acumulando até prejuízos.

As estatais de energia são outro ponto de interrogação, já que Bolsonaro também disse que vai “meter o dedo na energia elétrica”.

Com as mudanças, as ações da Petrobras, elétricas e Banco do Brasil despencaram na sexta-feira e segunda-feira. Por isso, investidores se perguntam: até onde vai a interferência do governo nas estatais?

Participação do governo

Em resumo, essa participação estatal é feita por duas vias: de forma direta (quando o governo é de fato o dono e gestor da empresa) ou então indireta, por meio do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) ou de ações.

Além disso, muitas estatais são as companhias que possuem o capital aberto e negociam suas ações na Bolsa de Valores.

Atualmente, o Ibovespa, principal índice de ações da B3, possui 81 empresas listadas. Delas, 9 são classificadas como estatais. São elas:

  • Petrobras (PETR3,PETR4)
  • Eletrobras (ELET3, ELET6)
  • Telebras (TELB3, TELB4)
  • Banco do Brasil (BBAS3)
  • Sanepar (SAPR4)
  • Copasa (CSMG3)
  • BB Seguridade (BBSE3)
  • Sabesp (SBSP3)
  • Cemig (CMIG4)
  • Copel (CPLE6)

Assim, na carteira teórica do Ibovespa, calculada para o período de janeiro de 2021 a abril de 2021, as estatais detinham uma participação de 18,32% no índice.

Ingerência governamental em estatais

Infelizmente, é comum ver na mídia escândalos de corrupção atrelados a grandes estatais. Esse foi o caso da Petrobras e seus problemas revelados pela Operação Lava Jato.

Além disso, são frequentes também notícias relacionadas ao abuso de poder por parte dos controladores, bem como alto nível de influência político-partidária na gestão dos negócios de empresas estatais.

O fato é que, mesmo com um mercado de capitais moderno e dinâmico, a bolsa de valores não está protegida dos riscos absorvidos por estatais que negociam suas ações no mercado financeiro.

Isso porque a interferência política nas decisões das empresas provoca impacto direto e imediato nas cotações das ações das estatais.

Como reflexo, o desempenho do Ibovespa muitas vezes acaba sendo comprometido. Algumas estatais como Petrobras e Banco do Brasil, possuem grande peso na composição do principal índice de referência da B3.

Sendo assim, a ineficiência da máquina pública e as constantes interferências políticas nas estatais custam caro não só ao desenvolvimento do país, mas também ao mercado de capitais.

Caso Petrobras

A Petrobras é um caso emblemático de como a interferência do estado pode provocar grandes oscilações no papel.

Em 2006, o então presidente da Bolívia, Evo Morales, decretou a nacionalização do setor de gás e petróleo do país.

Na época, a Petrobras operava naquele país e viu seus papéis despencarem na bolsa, sem poder fazer nada. Isso porque o governo boliviano declarou que só negociaria com representantes do governo brasileiro.

Inclusive, Luiz Inácio Lula da Silva, presidente do país na época, desautorizou publicamente declarações da diretoria executiva da Petrobras.

Somente no período entre 28 de abril (último pregão antes do decreto de Morales), e 13 de junho, as ações da Petrobras caíram 21%, de R$ 46,23 para R$ 36,50.

Já hoje em dia, uma das principais questões acerca da interferência do estado na petrolífera é sobre o controle de preços dos derivados de petróleo comercializados pela Petrobras.

De modo que o governo, ao tentar inibir o repasse dos seguidos aumentos do preço do petróleo no mercado internacional, causa impacto direto nos resultados da empresa e distancia a companhia de suas concorrentes internacionais.

Desempenho das estatais frente ao Ibovespa

Como resultado, nos últimos 24 meses, o desempenho das principais estatais negociadas em Bolsa foi inferior ao do índice Bovespa.

Em 12 meses, entre 5 de fevereiro de 2019 até 4 de fevereiro de 2021, o Ibovespa valorizou 18,31%.

No mesmo período, PETR3, ELET3 e BBAS3, desvalorizaram, respectivamente, 3,65, 5,8% e 29,17%, como é possível observar no gráfico. Ele ainda não considera as quedas recentes das ações.

Fonte:B3

A linha vermelha mostra o desempenho do Ibovespa nos últimos 2 anos.

Já a linha em preto, apresenta o desempenho da Petrobras, seguido pela linha verde, Eletrobras e azul, Banco do Brasil.

Perspectivas para as estatais

Atualmente, algumas medidas têm sido aplicadas no intuito de aumentar a proteção e segurança aos acionistas.

A Lei das Estatais, por exemplo, de 30 de junho de 2016, busca estimular a eficiência das empresas públicas por meio de mecanismos que incentivam melhorias de governança corporativa e transparência.

Além disso, algumas empresas públicas, como a Sabesp, já receberam prêmios por sua transparência na gestão dos negócios.

Outras companhias, como a Petrobras, mantêm ADRs (American Depositary Receipts) negociados na Bolsa de Nova York. Por isso, fica sujeita ao cumprimento de uma legislação muito mais rigorosa.

Apesar de notório os mecanismos para limitar a ingerência do governo nas ações de estatais, especialistas afirmam que alguns cuidados básicos podem atenuar o risco dos investidores que pretendem comprar ações de estatais, como:

  • Verificar se existe a presença de membros independentes no conselho de administração;
  • Acompanhar a qualificação e o processo de indicação da diretoria executiva;
  • Fazer um paralelo entre os resultados da estatal com suas concorrentes privadas.

Por fim, vale destacar que o Estado, muitas vezes, toma medidas que desagradam os investidores.

Logo, essas decisões de ordem política desvirtuam as atividades das estatais, transformando-as em ferramentas de política econômica para viabilizar projetos nacionais.

Deste modo, o investidor deve ficar atento à influência do governo na cotação dos papéis e ao impacto que isso pode causar na rentabilidade de sua carteira.