Copom divulga hoje sua decisão: mercado aposta em Selic a 4,25%

Cláudia Zucare Boscoli
Jornalista formada pela Cásper Líbero, com pós-graduação em Jornalismo Econômico pela PUC-SP, especialização em Marketing Digital pela FGV e extensão em Jornalismo Social pela Universidade de Navarra (Espanha), com passagens por IstoÉ Online, Diário de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e Editora Abril.
1

Crédito: Reprodução/BC

O Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC), divulga nesta quarta-feira (16), a partir das 18h, o resultado de sua 238ª reunião. E do anúncio sairá a decisão quanto à taxa básica de juros (Selic).

A expectativa prioritária do mercado é por uma terceira alta sequencial da Selic, em um novo reajuste de 0,75 ponto porcentual. Vale lembrar que, na reunião de março, o Copom promoveu a primeira alta da taxa de juros em seis anos, depois de ela se manter sete meses em 2%, a mais baixa já registrada. Novamente, em maio, veio mais um ajuste de 0,75 ponto porcentual.

Se o Copom confirmar as expectativas, a Selic irá dos atuais 3,5% para 4,25%. No entanto, é grande a expectativa por um comunicado mais agressivo do BC, sugerindo uma aceleração de passo nas próximas reuniões. Há apostas também de o BC surpreenda e aumente a Selic em 1 ponto porcentual, elevando a taxa a 4,5%. Mas são minoria.

No entanto, com inflação em alta e bons dados econômicos, as apostas para o ano vêm subindo. Segundo levantamento do jornal Valor divulgado na sexta-feira (11), de 104 instituições consultadas, 74 acreditam que a Selic fique entre 6% e 7% até dezembro.

Somente 30% acreditam em Selic abaixo de 6%. Comparativamente, antes da reunião de maio do Copom, apenas 20 casas apostavam em Selic chegando a 6%.

Quer começar o dia bem-informado com as notícias que vão impactar o seu bolso? Clique aqui e assine a newsletter EQI HOJE!

Copom Selic

Reprodução/Valor

O BTG Pactual (BPAC11) aposta em alta de 0,75 ponto porcentual para agora. E Selic a 6,5% até dezembro.

Já o Boletim Focus, que semanalmente apresenta as projeções do mercado, aponta Selic a 5,75% até o final do ano e a 6,5% em 2022.

Inflação no radar

O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), medida oficial de inflação do país, avançou 0,83% em maio, ante projeção de 0,71%. Esta foi a maior alta para o mês em 25 anos.

Na comparação com maio de 2020, a alta foi de 8,06%, quando o consenso era alta de 7,93%.

Com isto, o resultado ficou bem acima da meta do Banco Central para a inflação no ano, que é de 3,75%, podendo variar entre 2,25% e 5,25%.

E inflação acima da meta impacta diretamente nas decisões do Copom, já que a Selic é, justamente, a ferramenta que o BC possui para controlar os preços.

“Com o resultado do IPCA acima das expectativas, a atenção sobre o Copom aumentou. Na reunião da próxima semana, o comitê deve optar pela alta sinalizada no último comunicado, de 75 bps, elevando a taxa Selic ao valor de 4,25% ao ano. Entretanto, não é consenso no mercado se o termo ‘normalização parcial’ será mantido no comunicado”, confirma o BTG Pactual em relatório.

“Com isso em mente, precisamos monitorar as expectativas de inflação, principalmente para 2022, a partir da reabertura da economia com o avanço da vacinação, a atividade econômica mais robusta, o cenário hídrico e as defasagens da cadeia de produção. Importante considerar que as projeções de inflação para 2022 podem ser contaminadas pelo cenário atual, o que pode estimular o BC a efetuar uma normalização completa dos juros neste ano”, complementa o banco.

Mas, afinal, para que serve a Selic e o que o aumento dela representa para o investidor? Nós te explicamos.

O que é a Selic?

A taxa é o principal instrumento de política monetária utilizado pelo Banco Central para controlar a inflação.

Quando o Copom reduz a Selic, a tendência é que o crédito fique mais barato. O que incentiva a produção e o consumo, mas reduz o controle da inflação.

Em sentido contrário, quando o Copom aumenta a taxa básica de juros, seu objetivo é conter a demanda aquecida. Isso causa reflexos nos preços, porque os juros mais altos encarecem o crédito e estimulam a poupança.

Saber sobre a taxa Selic é importante para o investidor, porque a taxa funciona como um norte para montar uma boa carteira de investimentos.

A regra é: com a taxa de juros baixa, os rendimentos da renda fixa deixam de ser tão atrativos. Por outro lado, com taxa de juros alta, a renda fixa volta a ganhar destaque.

Como investir com Selic em tendência de alta?

Como ensina Paulo Filipe de Souza, assessor daEQI Investimentos, o investidor deve passar a olhar novamente com bons olhos a renda fixa com a projeção de alta de 6% ou até mais até dezembro.

“Mesmo com subida mais rápida dos juros agora, podem ser necessárias mais altas adicionais, dado que a inflação não vem dando sinais de arrefecimento”, ele explica.

Neste cenário, o que o investidor pode fazer para se proteger é conseguir boas taxas de CDI, porque Selic subindo, CDI sobe junto.

“Bons títulos de inflação e CDBs ou debêntures que pagam IPCA+ são boas opções, tendo em vista que a inflação deve continuar preocupando”, ele recomenda.

Vale lembrar que a rentabilidade dos investimentos deve ser sempre acima da inflação ou atrelada a ela (no caso de títulos e CDBs, por exemplo). Caso contrário, toda a rentabilidade será perdida.

No entanto, é importante entender que uma carteira equilibrada não foca apenas em um tipo de ativo. É preciso “distribuir os ovos em mais cestas”, como estratégia de defesa e diversificação, equilibrando o desempenho dos ativos.

Como o Copom define a Selic?

A principal função do Copom é realizar uma avaliação do cenário macroeconômico do país e os principais riscos a ele associados.

É com base nessas avaliações que são tomadas as decisões de política monetária.

Além de definir a Selic, desde 1999 o Copom também é responsável por acompanhar o cumprimento das metas de inflação definidas pelo Conselho Monetário Nacional.

Vale lembrar que o Copom não pode aumentar ou diminuir a taxa Selic sem que, para isso, exista uma justificativa pautada na tendência do cenário econômico e no mercado brasileiros.

Na realidade, as variações na Selic tendem a acompanhar as variações de um outro índice, o IPCA, que é o indicador base da inflação no país.

Nesse sentido, diante de um cenário em que a inflação esteja controlada, a tendência da taxa Selic é cair.

Já nos momentos em que há um aumento na inflação, a Selic normalmente sobe para ajudar no controle do mercado.

Atualmente, além da inflação, outro tema bastante recorrente nas atas do Copom era o risco de o governo não obedecer ao teto de gastos, ameaça que já foi parcialmente contida com a aprovação com vetos do Orçamento de 2021 – suscetível a críticas, mas dentro do teto.

Para o mercado, duas novas ameaças à austeridade são a pandemia, que pode justificar gastos descontrolados além do teto, e a corrida eleitoral de 2022, que pode fazer o governo tomar decisões eleitoreiras, gastando mais do que deveria – especialmente em uma eleição que promete ser muito polarizada, com o retorno de Luiz Inácio Lula da Silva ao cenário.

Como são as reuniões

As decisões do Copom são tomadas de 45 em 45 dias, em uma reunião que se estende por dois dias.

No primeiro dia, os chefes dos departamentos apresentam uma análise técnica de conjuntura do país. Essa análise envolve uma série de pontos importantes, tais como:

  • Inflação;
  • Nível de atividade;
  • Evolução dos agregados monetários, finanças públicas;
  • Balanço de pagamentos;
  • Economia internacional;
  • Mercado de câmbio;
  • Reservas internacionais;
  • Mercado monetário; e
  • Operações de mercado aberto e expectativas gerais para variáveis macroeconômicas.

Já no segundo dia da reunião, os diretores de política monetária e de política econômica, após análise das projeções atualizadas para a inflação, apresentam alternativas para a taxa Selic e fazem recomendações acerca da política monetária.

Depois dessas avaliações feitas pelos diretores citados acima, os demais membros fazem suas ponderações e apresentam eventuais propostas alternativas.

Ao final desse debate é que ocorre a votação das propostas, em que se busca o consenso sempre que possível.

Essa votação leva em consideração a maioria simples dos presentes, ou seja, para que uma proposta seja aceita, a maior parte dos membros presentes devem concordar com ela.

Além disso, em caso de empate, é o presidente do Copom  que irá proferir o chamado “voto de qualidade”, que é o voto de desempate.

As decisões emanadas do Copom devem ser publicadas por meio de comunicado do diretor de política monetária e esse comunicado deve acontecer no segundo dia, a partir das 18h, imediatamente após o término da reunião.

A taxa de juros fixada na reunião será a meta para a taxa Selic, que irá vigorar durante todo o período entre uma reunião ordinária e outra.

A ata dessa reunião geralmente é publicada na terça-feira imediatamente posterior à reunião.

Copom

O disse o Copom na ata da última ata?

Na última ata, publicada no dia 11 de maio, o Copom reafirmou a decisão de elevar a Selic em 0,75 ponto porcentual por unanimidade, o que elevou a taxa de 2,75% para 3,5% ao ano.

Afirmou ainda que o mercado pode aguardar para a reunião de 15 e 16 de junho a continuação do processo de normalização parcial do estímulo monetário, com “outro ajuste da mesma magnitude”.

Ou seja, é realmente grande a possibilidade de que a Selic alcance 4,25% na quarta-feira (16).

No entanto, a subida de mais 0,75 ponto porcentual, diz o comitê, depende da evolução da atividade econômica, do balanço de riscos e das projeções e expectativas de inflação.

“Neste momento, o cenário básico do Copom indica ser apropriada uma normalização parcial da taxa de juros, com a manutenção de algum estímulo monetário ao longo do processo de recuperação econômica. O Comitê enfatiza, entretanto, que não há compromisso com essa posição e que os passos futuros da política monetária poderão ser ajustados para assegurar o cumprimento da meta de inflação”, afirmou.

O comitê ressaltou na ata que, com exceção do petróleo, os preços internacionais das commodities continuam em elevação. O que impacta as projeções de preços de alimentos e bens industriais. Além disso, a transição para patamares mais elevados de bandeira tarifária de energia elétrica deve manter a inflação pressionada no curto prazo.

Copom argumenta choque inflacionário temporário

Ainda assim, o Copom vem sustentando que os choques inflacionários atuais são temporários, mas “segue atento à sua evolução”.

Segundo o Copom, o país enfrenta alguns riscos que podem mudar a trajetória da inflação. O primeiro é um processo de recuperação econômica mais lento devido ao avanço da Covid. Isso provocaria uma inflação abaixo do esperado.

Outro ponto é o prolongamento das políticas fiscais de resposta à pandemia, que podem piorar a trajetória fiscal do país e frustrar a continuidade das reformas, aumentando o prêmio de risco do país.

“O risco fiscal elevado segue criando uma assimetria altista no balanço de riscos, ou seja, com trajetórias para a inflação acima do projetado no horizonte relevante para a política monetária”, ressalta o comitê.

O cenário básico do Copom apontado na última ata é de Selic a 5,5% até o final do ano e 6,25% em 2022.