Apostas para Selic: mercado vê taxa de juros a 6,25%; entenda como ela é definida

Cláudia Zucare Boscoli
Jornalista formada pela Cásper Líbero, com pós-graduação em Jornalismo Econômico pela PUC-SP, especialização em Marketing Digital pela FGV e extensão em Jornalismo Social pela Universidade de Navarra (Espanha), com passagens por IstoÉ Online, Diário de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e Editora Abril.

Crédito: freepik

Após o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de agosto apontar alta de 0,87% na base mensal, acima da projeção de 0,71%, sendo a maior variação para este mês desde 2002, o mercado aumentou as apostas para a alta da Selic na próxima quarta-feira (22).

Algumas casas de análise previam que o Comitê de Política Monetária iria a 1,25 ponto ou até 1,50 ponto porcentual no reajuste.

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No entanto, em evento do BTG Pactual (BPAC11), um dia antes de iniciar o período de silêncio pré-Copom, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto deu uma declaração que fez todo mundo pisar no freio e voltar a apostar no 1 ponto porcentual prometido desde a última ata do Copom, de agosto.

Ele disse que não poderia “mudar o plano de voo” a cada novo dado de inflação. E que o BC faria tudo o que fosse necessário para manter os preços dentro da meta.

Depois da afirmação, o mercado passou a acreditar que a alta será mesmo de 1 ponto porcentual. Ou seja, a Selic deve ir dos atuais 5,25% para 6,25%.

Segundo levantamento do jornal Valor, feito com 107 instituições financeiras e consultorias, 92 casas esperam uma elevação de 1 ponto percentual da Selic. Apenas 13 casas mantêm projeção de uma alta de 1,25 ponto e somente duas instituições veem uma elevação de 1,50 ponto – confira tabela abaixo.

Projeções das casas de análise

Reprodução/Valor

O BTG Pactual (BPAC11) é uma das casas que prevê Selic a 6,25% ao ano na quarta-feira que vem, a 8% até dezembro e a 8,5% até dezembro de 2022.

Já o BNP Paribas e o Citi beem Selic a 6,75%. No caso do BNP, a aposta é que a taxa básica de juros chegue a 9% até dezembro e a 10% em 2022.

O Boletim Focus, que semanalmente capta as percepções do mercado, projeta Selic a 8% até dezembro.

Vale lembrar que, em março, o Copom promoveu a primeira alta da taxa de juros em seis anos, depois de ela se manter sete meses em 2%, a mais baixa já registrada. Novamente, em maio, veio mais um ajuste de 0,75 ponto porcentual. E em junho, a repetição dos 0,75. Em agosto, alta de 1 ponto. Agora, a Selic deve ter sua quinta alta consecutiva.

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Selic rumo à quinta alta consecutiva

Selic

Reprodução/Banco Central

O que é a Selic?

A taxa é o principal instrumento de política monetária utilizado pelo Banco Central para controlar a inflação.

Quando o Copom reduz a Selic, a tendência é que o crédito fique mais barato. O que incentiva a produção e o consumo, mas reduz o controle da inflação.

Em sentido contrário, quando o Copom aumenta a taxa básica de juros, seu objetivo é conter a demanda aquecida. Isso causa reflexos nos preços, porque os juros mais altos encarecem o crédito e estimulam a poupança.

Saber sobre a taxa Selic é importante para o investidor, porque a taxa funciona como um norte para montar uma boa carteira de investimentos.

A regra é: com a taxa de juros baixa, os rendimentos da renda fixa deixam de ser tão atrativos. Por outro lado, com taxa de juros alta, a renda fixa volta a ganhar destaque.

Como investir com Selic em tendência de alta?

Com a alta, o investidor deve passar a olhar novamente com bons olhos a renda fixa com a projeção de alta de 8% ou até mais até dezembro.

Neste cenário, o que o investidor pode fazer para se proteger é conseguir boas taxas de CDI, porque Selic subindo, CDI sobe junto.

Vale lembrar que a rentabilidade dos investimentos deve ser sempre acima da inflação ou atrelada a ela (no caso de títulos e CDBs, por exemplo). Caso contrário, toda a rentabilidade será perdida.

No entanto, é importante entender que uma carteira equilibrada não foca apenas em um tipo de ativo. É preciso “distribuir os ovos em mais cestas”, como estratégia de defesa e diversificação, equilibrando o desempenho dos ativos.

Como o Copom define a Selic?

A principal função do Copom é realizar uma avaliação do cenário macroeconômico do país e os principais riscos a ele associados.

É com base nessas avaliações que são tomadas as decisões de política monetária.

Além de definir a Selic, desde 1999 o Copom também é responsável por acompanhar o cumprimento das metas de inflação definidas pelo Conselho Monetário Nacional.

Vale lembrar que o Copom não pode aumentar ou diminuir a taxa Selic sem que, para isso, exista uma justificativa pautada na tendência do cenário econômico e no mercado brasileiros.

Na realidade, as variações na Selic tendem a acompanhar as variações de um outro índice, o IPCA, que é o indicador base da inflação no país.

Nesse sentido, diante de um cenário em que a inflação esteja controlada, a tendência da taxa Selic é cair.

Já nos momentos em que há um aumento na inflação, a Selic normalmente sobe para ajudar no controle do mercado.

Atualmente, além da inflação, outro tema bastante recorrente nas atas do Copom era o risco de o governo não obedecer ao teto de gastos, ameaça que já foi parcialmente contida com a aprovação com vetos do Orçamento de 2021 – suscetível a críticas, mas dentro do teto.

Para o mercado, duas novas ameaças à austeridade são a pandemia, que pode justificar gastos descontrolados além do teto, e a corrida eleitoral de 2022, que pode fazer o governo tomar decisões eleitoreiras, gastando mais do que deveria – especialmente em uma eleição que promete ser muito polarizada, com o retorno de Luiz Inácio Lula da Silva ao cenário.

Como são as reuniões do Copom?

As decisões do Copom são tomadas de 45 em 45 dias, em uma reunião que se estende por dois dias.

No primeiro dia, os chefes dos departamentos apresentam uma análise técnica de conjuntura do país. Essa análise envolve uma série de pontos importantes, tais como:

  • Inflação;
  • Nível de atividade;
  • Evolução dos agregados monetários, finanças públicas;
  • Balanço de pagamentos;
  • Economia internacional;
  • Mercado de câmbio;
  • Reservas internacionais;
  • Mercado monetário; e
  • Operações de mercado aberto e expectativas gerais para variáveis macroeconômicas.

Já no segundo dia da reunião, os diretores de política monetária e de política econômica, após análise das projeções atualizadas para a inflação, apresentam alternativas para a taxa Selic e fazem recomendações acerca da política monetária.

Depois dessas avaliações feitas pelos diretores citados acima, os demais membros fazem suas ponderações e apresentam eventuais propostas alternativas.

Ao final desse debate é que ocorre a votação das propostas, em que se busca o consenso sempre que possível.

Essa votação leva em consideração a maioria simples dos presentes, ou seja, para que uma proposta seja aceita, a maior parte dos membros presentes devem concordar com ela.

Além disso, em caso de empate, é o presidente do Copom  que irá proferir o chamado “voto de qualidade”, que é o voto de desempate.

As decisões emanadas do Copom devem ser publicadas por meio de comunicado do diretor de política monetária e esse comunicado deve acontecer no segundo dia, a partir das 18h, imediatamente após o término da reunião.

A taxa de juros fixada na reunião será a meta para a taxa Selic, que irá vigorar durante todo o período entre uma reunião ordinária e outra.

A ata dessa reunião geralmente é publicada na terça-feira imediatamente posterior à reunião.

Copom

Reprodução/Copom

O disse o Copom na ata da última reunião?

Em ata divulgada em 10 de agosto, o Copom justificou o avanço mais agressivo da taxa de juros – de 1 ponto porcentual, ante 0,75 dos três aumentos anteriores -, como uma medida para assegurar as metas de inflação para 2022 e 2023 (em menor medida).

“As diversas medidas de inflação subjacente apresentam-se acima do intervalo compatível com o cumprimento da meta para a inflação”, afirma o Copom.

Para o comitê, a inflação ao consumidor continua se revelando persistente. “Os últimos indicadores divulgados mostram composição mais desfavorável”, afirma. Destacam-se a surpresa com o componente subjacente da inflação de serviços e a continuidade da pressão sobre bens industriais, causando elevação dos núcleos. Além disso, há novas pressões em componentes voláteis, como a possível elevação do adicional da bandeira tarifária e os novos aumentos nos preços de alimentos, ambos decorrentes de condições climáticas adversas.

Para a reunião dos dias 21 e 22 de setembro, o comitê adiantou mais um ajuste de 1 ponto porcentual, salientando que as altas de juros serão promovidas, sem interrupção, para além do nível neutro de estímulo econômico.

A ata reforçou que o cenário para o país é positivo no segundo semestre, graças ao avanço da vacinação e consequente reabertura da economia.

A variante delta do coronavírus ameaça o crescimento dos países desenvolvidos. Mas, ainda assim, o ambiente para países emergentes segue favorável com os estímulos monetários de longa duração, os programas fiscais e a reabertura das principais economias.

O risco fiscal também segue no radar do Copom, especialmente no que diz respeito aos programas de auxílio durante a pandemia. “Apesar da melhora recente nos indicadores de sustentabilidade da dívida pública, o risco fiscal elevado segue criando uma assimetria altista no balanço de riscos”, diz o comunicado.