Melhores fundos multimercados e de ações: como fica 2021?

Giovanna Castro
Jornalista formada pela UNESP.
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Crédito: Reprodução/Pixabay

Os fundos de ações captaram R$ 52 bilhões em dezembro de 2020. Enquanto isso, os fundos multimercados somaram R$ 107 bilhões de lucro. É o que mostrou o relatório mensal de investimento por classificação da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

Sobretudo, esses tipos de fundos atraem investidores que buscam por bons gestores e ativos diversificados. Se esse é o seu caso, não deixe de ler essa matéria até o final. Vamos te mostrar quais foram os melhores e os piores fundos multimercados e de ações no ano que passou.

Conversamos com especialistas que explicaram o comportamento do mercado em relação a esses fundos e quais as expectativas para 2021.

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Expectativas para 2021

Segundo Elias Wiggers, assessor de investimentos da EQI, as expectativas para 2021 são de um retorno do capital aos países emergentes, em um movimento de risk on. Ou seja, na expectativa de que as economias comecem a voltar a crescer e os países emergentes comecem a produzir, o mercado vê a possibilidade de um dólar mais enfraquecido. Assim, deve haver valorização das outras moedas.

“Deve haver uma valorização da nossa moeda. Além disso, com a retomada de crescimento a nível mundial, estamos prevendo um novo ciclo de commodities, como o do início dos anos 2000 até a crise de 2008. Temos indicadores apontando nesse sentido. E com certeza o ouro também deve perder valor na medida em que as economias globais voltem a funcionar”, comentou.

Dessa forma, a tendência é de que os melhores fundos multimercados e fundos de ações de 2021 sejam os globais, e não mais aqueles atrelados a ouro e dólar.

Já para o consultor e professor titular da FGV, William Eid Junior, o cenário brasileiro de 2021 ainda é uma economia “andando de lado”. Afinal, “não há grandes expectativas quanto às reformas. A eleição na Câmara dos deputados parece por enquanto empatada, mas nenhum dos dois candidatos traz grandes expectativas”.

“O presidente deve continuar na sua corrida para impedir que a família seja processada e sem uma visão de futuro para o Brasil. Vai gerir o governo no dia a dia, sem um plano estratégico claro. O desemprego deve continuar alto. Enfim, salvo algum evento não esperado, vamos andar de lado”, comentou o professor da FGV.

Dessa forma, a recomendação é de que o investidor aposte na diversificação. Ao aplicar em 2 ou 3 tipos de fundos, com diferentes estratégias, é possível proteger seu capital de grandes perdas. Além de poder comparar a gestão dos diferentes fundos, ganhando mais conhecimento sobre esse tipo de investimento. 

Os melhores fundos de ações de 2020

Segundo William Eid Junior, o que a maioria dos fundos de ações com melhor desempenho em 2020 têm em comum é a presença de ativos com cotação em dólar na carteira. Afinal, se beneficiaram da valorização da moeda.

Em 2020, o dólar saiu de R$ 4 por para R$ 5,20, o que significa uma alta de 30%. A moeda é um ativo de segurança muito recorrido em épocas de crise, como a do início da pandemia. Com o aumento da demanda de compra de dólar, o preço da moeda subiu.

Consequentemente, os fundos de ações negociadas no exterior ou que sofrem, por algum motivo, influencia do dólar, também foram alavancados. Além disso, Wiggers justificou a subida do dólar pela retirada de capital estrangeiro de países emergentes.

“Com o cenário desafiador da crise, o investidor internacional prefere deixar o seu dinheiro em economias mais consolidadas. Então, ele tira o dinheiro de países emergentes. Ao fazer isso, ele enfraquece a moeda desses países. E como o mercado internacional gira em torno do dólar, é natural que o dólar seja colocado em um patamar mais alto”, comentou o especialista da EQI.

William Eid Junior lembrou ainda que, além das influencias econômicas e políticas do momento, também não podemos desconsiderar o papel dos gestores para o bom desempenho dos ativos. “É o exemplo do S&P500, que apresentou uma valorização de 15%”, citou.

20 fundos de ações com melhor desempenho em 2020

Melhores fundos de ações em 2020

Fundos de ações com melhor desempenho no ano de 2020 considerando dados até 30 de dezembro -Fonte: Economática

Segundo o relatório da Anbima com base nos dados da Economática, em dezembro o patrimônio dos fundos de ações tiveram crescimento pelo segundo mês consecutivo. Eles apresentaram crescimento de 12,65% no mês de novembro e 7,46% em dezembro. Já em outubro, houve recuo de -0,40% e em setembro, queda de -3,16%.

Os fundos de FGTS e de mono ação tiveram crescimento de mais de 10%. Ao mesmo tempo, os fundos de ações de investimento no exterior registraram o menor crescimento no mês, com 5,01%.

Portanto, esse movimento já mostra a tendência apontada por Wiggers. Com a chegada das vacinas e a expectativa de retomada das economias, os investidores voltam a investir mais em países emergentes como o Brasil. O resultado é uma diminuição da demanda por fundos de ações de investimento no exterior.

Ainda segundo o relatório, todas as demais categorias tiveram crescimento abaixo de 10%. O patrimônio dos fundos de ações cresceu R$ 42,8 bilhões em dezembro.

A captação líquida dos fundos de ações em dezembro foi positiva em R$ 2,34 bilhões, puxada pelos fundos de investimento no exterior com captação de R$ 2,55 bilhões. Em seguida, vêm os fundos de ações livre com R$ 785,3 milhões. No entanto, do lado negativo tivemos os fundos de valor crescimento com captação líquida negativa de R$ -495,7 milhões e fundos de índice ativo com queda de R$ -447,7 milhões.

Saiba por que investir em fundos de ações aqui.

Fundos com baixo desempenho

Para entender por que um fundo de ações ou multimercados teve um baixo desempenho, é preciso entender o contexto geral dele. Isso significa estudar a gestão, a estratégia utilizada por ele, qual o cenário político-econômico e qual o cenário dos ativos que o compõe.

No entanto, para o professor da FGV William Eid Junior, um dos principais motivos que podemos encontrar é a alavancagem. “O fundo estava alavancado antes da crise. Quando esta veio, houve perdas significativas que não foram recuperadas”, explicou.

“Outros fundos, como os mono ações Vale, acompanharam mais ou menos a ação da companhia (menos os custos do fundo). Ainda temos os que aplicam só na B3, que tiveram o desempenho atrelado ao Ibovespa, que durante o ano apresentou uma valorização pequena, de só 2%”, completou o especialista.

Os melhores fundos multimercados de 2020

Assim como os fundos de ações, os fundos multimercados com dólar na carteira também tiveram boas performances em 2020. Além disso, aqueles com foco em ouro, outro ativo considerado reserva de valor muito procurado em épocas de crise como a da pandemia, também tiveram bons resultados.

Valorizado em todo o mundo, houve um boom na procura do ativo por parte dos investidores. Com isso, o preço dele subiu. O ouro foi um dos ativos que mais valorizou no ano que se passou, principalmente nos primeiros meses da pandemia.

“O dólar caiu naquele primeiro momento de pandemia porque as pessoas estavam assustadas e saindo de tudo o que podiam, sejam de investimentos emergentes, sejam de grandes economias. A crise foi tão grande que as pessoas preferiram partir para o ouro, que é um ativo de segurança secular. Por conta disso, teve valorização”, explicou Wiggers.

O termo técnico que o mercado utiliza para esses movimentos de busca de ativos de maior segurança é Flight to Quality, “vôo para qualidade”, em português. Ou seja, você sai do cenário de risk on (risco alto), buscando ativos de maior qualidade que ofereçam maior segurança para o dinheiro dos investidores, entrando em um cenário de risk off.

Dessa forma, todos os fundos que tinham ou cotação em dólar, como fundos de câmbio, se deram bem em 2020. Em especial os fundos de ouro que compram contratos de ouro na bolsa de Chicago. Esses foram os mais beneficiados em relação à valorização, já que sofrem influencia tanto do ouro, quanto do dólar.

20 fundos multimercados com melhor desempenho em 2020

Melhores fundos multimercados de 2020

Fundos multimercados com melhor desempenho no ano de 2020 considerando dados até 30 de dezembro -Fonte: Economática

O relatório de dezembro da Anbima aponta que, pelo 4º mês consecutivo, o PL dos fundos multimercados registrou crescimento. Em setembro foi de 0,13%, outubro de 0,52%, novembro de 1,57% e dezembro 1,86%.

Entre eles, os fundos Mult. juros e moedas tiveram o maior crescimento, com 4,79%. No entanto, os fundos Mult. L/S – Neutro, direcional e Trading tiveram queda de PL com -0,58%, -0,47% e -0,48%, respectivamente.

A captação em dezembro foi negativa, quebrando uma sequência de 7 meses de captação positiva: maio R$ 6,45 bilhões, junho R$ 13,7 bilhões, julho R$ 29,4 bilhões, agosto R$ 13,7 bilhões, setembro R$ 5,92 bilhões, outubro R$ 6,0 bilhões, novembro R$ 1,3 bilhão e dezembro queda de – R$ 110,4 milhões. Lembrando que em abril o resultado foi negativo em R$ 14,0 bilhões.

Em 2020 a captação líquida dos fundos multimercado foi de R$ 107 bilhões, sendo os multimercados livre os líderes de captação com R$ 69,3 bilhões. Posteriormente, tivemos fundos multimercados de investimentos no exterior com R$ 39,6 bilhões. E na contramão os multimercado macro registraram saída de recursos de R$ 15,1 bilhões.

A captação líquida em 2020 fechou em R$ 52,6 bilhões, tendo os fundos de ações livre a maior captação com R$ 37,6 bilhões. Já os fundos fechados de ações tiveram a maior diminuição de captação líquida, com queda de R$ 16,9 bilhões.

Os fundos investimento no exterior, como citado pelos especialistas, tiveram o melhor desempenho no ano de 2020, com valorização de 9,35%. Contudo, os fundos ações dividendo, Small Caps e Mono ação na mediana registraram valorização negativa.

Saiba mais sobre fundos multimercados aqui.

Melhores e piores fundos do índice IBRX 100

Dentro dos fundos do índice IBRX 100, que avalia o retorno de uma carteira teoricamente composta pelas cem ações mais negociadas na BM&FBovespa, os resultados observados foram os mesmos. Os fatores principais foram o ouro e o dólar.

Confira as tabelas com os 20 melhores e os 20 piores fundos do IBRX 100:

20 melhores fundos de ações e multimercados do IBRX 100 -Fonte: Economárica

20 melhores fundos de ações e multimercados do IBRX 100 -Fonte: Economática

 

20 piores fundos de ações e multimercados do IBRX 100 -Fonte: Economárica

20 piores fundos de ações e multimercados do IBRX 100 -Fonte: Economática

Atenção sobre a questão do dólar

Na hora de investir em fundos com aportes no exterior, Wiggers aponta que é preciso ter atenção dobrada. Isso porque alguns fundos, sejam eles de ações ou multimercados, fazem hedge de proteção cambial.

“Se um fundo tem 30% do seu patrimônio no exterior, por exemplo, ele vai, de acordo com essa porcentagem de aplicações no exterior, fazer uma venda de contratos futuros de dólares aqui no Brasil. Assim, se o dólar se valorizar, ele ganha junto. Já se o dólar se desvalorizar, ele ganha o valor na venda desses contratos futuros de dólar. Trata-se de uma compensação cambial, o que a gente chama de hedge cambial”, explicou.

Ou seja, se o fundo de ações ou multimercados possui hedge cambial, ele compensa as variações de dólar por meio de instrumentos no mercado de derivativos que anulam essas perdas e ganhos no mercado cambial, ficando exposta apenas às variações do próprio ativo.

Por isso, é importante saber quais fundos possuem e quais não possuem hedge cambial. E talvez isso demande a avaliação de um especialista. Lembrando que foram justamente os fundos que não possuem hedge cambial que tiveram essa super valorização em 2020.

Cenário político econômico

Além do Covid, que derrubou todos os mercados do mundo, o Brasil sofreu mais por conta da indefinição política e atritos entre os governantes, em todos os níveis. Isso trouxe mais incerteza aos mercados locais, apontou Eid Junior.

Também temos o lado das reformas, que não andaram. Assim, enquanto outros mercados como os EUA apresentaram vigorosa recuperação depois de março, a bolsa brasileira continuou “de lado”, ou seja, não apresentou grande crescimento. Mesmo com juros negativos, o que deveria levar muitos investidores a migrarem para a Bolsa, elevando o preço das ações.

Wiggers explica que, quanto mais risco fiscal existe no país, ou seja, “quanto mais mal gerido é aquele país a nível político”, com dificuldades de aprovação ou populismo no sentido de aprovação de reformas que aumentam os gastos do governo, maiores são os riscos que os investidores vêem naquele país.

Assim, a tendência é de acontecer o Flight to Quality. Ou seja, os investidores se voltando a países que oferecem maiores garantias aos investidores.

No Brasil, tivemos o auxílio emergencial e mais programas de benefícios oferecidos pelo governo. Esses incentivos foram necessários por conta da pandemia. No entanto, o governo não tinha um caixa preparado para esse tipo de evento.