O mercado de crédito privado brasileiro atravessa um momento de maior seletividade e aversão a risco, com alargamento de spreads, aceleração de resgates em fundos e piora nas condições de distribuição de emissões primárias.
A avaliação é dos analistas Eduardo Rosman, Ricardo Buchpiguel e Antonio Pascale, do BTG Pactual, em relatório que atualiza a visão do banco sobre o cenário de mercado de capitais de dívida no país.
Spreads no maior nível desde dezembro
“A mensagem principal é que o mercado de crédito local se tornou mais seletivo e mais avesso a risco”, afirmam os analistas.
O movimento de abertura de spreads, iniciado em 10 de fevereiro, continuou ao longo de março e abril, com intensidade crescente entre os ativos de menor qualidade de crédito. O índice IDA-DI chegou a atingir CDI+1,71% em meados de abril — o nível mais alto desde dezembro de 2024 —, recuando levemente para CDI+1,64% em 24 de abril, representando uma abertura de 44 pontos-base desde fevereiro.
A diferença entre ratings ficou evidente: “ativos com classificação abaixo de brAA+ abriram 95 pontos-base no ano, chegando a DI+2,66%, enquanto os nomes brAAA abriram apenas 16 pontos-base, para DI+1,04%”, detalham Rosman, Buchpiguel e Pascale.
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Nas debêntures de infraestrutura, o movimento também foi expressivo, com o spread IDA-IPCA Infra atingindo +38 pontos-base acima do NTN-B em 24 de abril — abertura de 77 pontos-base desde fevereiro, de volta a níveis não vistos desde março de 2025.
Fundos de infraestrutura entram no radar
Do lado dos fundos, os saques seguem pressionando o mercado.
“A amostra de cerca de 1.100 fundos de crédito tradicionais acumulou R$ 53 bilhões em resgates no ano, equivalente a 3,19% do patrimônio médio”, apontam os analistas. Só em abril, os saques somaram R$ 23,5 bilhões até o dia 23, acelerando frente aos R$ 14,8 bilhões de março.
O desempenho fraco dos fundos — com o IDA-DI entregando apenas 80% do CDI no ano — é apontado como um dos principais motores das saídas.
Os fundos de infraestrutura, que até então haviam mostrado maior resiliência, também entraram no radar.
“A amostra de cerca de 1.800 fundos de infraestrutura registrou seu primeiro mês de saídas líquidas desde janeiro de 2025”, destacam os analistas.
Os resgates somaram R$ 7,6 bilhões até 23 de abril, equivalente a 2,35% do patrimônio. Como esses fundos são obrigados a manter cerca de 85% de sua alocação em debêntures de infraestrutura, a aceleração dos saques pode reduzir a demanda no mercado primário e pressionar os preços no secundário.
Mercado primário forte no volume, fraco na distribuição
No mercado primário, o volume bruto segue elevado: as emissões totalizaram R$ 60 bilhões em março, levando o acumulado do primeiro trimestre a R$ 142 bilhões, apenas 1,3% abaixo do mesmo período de 2025.
Mas os analistas alertam que “a qualidade do número parece mais fraca do que o headline sugere, já que apenas 47% das emissões de março foram distribuídas ao mercado”, abaixo da média histórica de 56% dos últimos dois anos.
Nas debêntures incentivadas, o cenário é semelhante: com volume de R$ 21,4 bilhões — o segundo maior mensal da história da Anbima —, apenas 38% foi efetivamente colocado junto a investidores.
Para o segundo trimestre, o cenário é de maior cautela. “O 1T26 ainda se beneficiou de um mercado primário relativamente forte, mas o 2T26 está se configurando como um trimestre mais fraco para o DCM”, projetam os analistas.
Olhando mais adiante, “mesmo que o segundo trimestre de 2026 marque o pico da pressão atual, o terceiro já começa a se sobrepor a um potencial cenário de risco eleitoral, o que pode pesar na atividade na margem”, concluem Rosman, Buchpiguel e Pascale.
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