Escândalos imobiliários: histórico de crise inclui subprime, Encol, PDG e Evergrande

Felipe Alves
Jornalista com experiência em reportagem e edição em política, economia, geral e cultura, com passagens pelos principais veículos impressos e online de Santa Catarina: Diário Catarinense, jornal Notícias do Dia (Grupo ND) e Grupo RBS (NSC).
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Crédito: Reprodução/Pixabay

A recente crise no mercado imobiliário da China, impulsionada pela possível quebra da gigante Evergrande, tem mexido com os mercados mundiais, provocando instabilidade, pânico e um risco grande e real de um calote bilionário.

Na história recente, outras crises de grandes empresas do setor imobiliário renderam impactos profundos seja nas bolsas locais ou mundiais.

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Abaixo, listamos alguns dos casos mais emblemáticos de crises do setor imobiliário.

Subprime: bolha arrastou o mundo para a crise

13 anos, em 15 de setembro de 2008, o Lehman Brothers decretava falência, arrastando o mundo para uma crise histórica que teve origem no ramo imobiliário.

Instituição com 164 anos de atuação, a quebra do banco de investimentos Lehman Brothers foi o símbolo da crise financeira dos Estados Unidos em 2008.

A origem da crise remonta ainda ao fim da década de 1990, quando o mercado imobiliário dos EUA estava aquecido pela oferta de crédito. Anos depois, com uma grande bolha imobiliária em expansão, o Lehman foi uma das empresas que adquiriu credores hipotecários.

Enquanto o Lehman Brothers registrava recordes de receitas e suas ações subiam sem parar, no início de 2007 o mercado imobiliário dos EUA começou a dar sinais de que iria ruir em breve. A inadimplência em hipotecas subprime atingia números cada vez maiores.

Quando os juros dos EUA subiram, quem havia conseguido empréstimo a taxas baixas começou a ter dificuldades para continuar pagando as parcelas de sua casa ou apartamento. Assim, a inadimplência começou a aumentar gradativamente nos EUA, colocando as instituições financeiras em risco.

Com uma crise generalizada de confiança, inadimplentes crescendo progressivamente e o valor dos imóveis caindo, a bolha imobiliária estourou. Em 15 de setembro de 2008, o Lehman Brothers anunciou falência e a crise que se iniciou apenas no mercado financeiro se alastrou.

As bolsas ao redor do planeta desabaram, a quebra de confiança se alastrou e a crise do subprime obrigou os bancos centrais a injetarem centenas de bilhões de dólares nas economias.

Em todo o mundo, houve mais de 400 milhões de pessoas desempregadas na pior crise econômica desde a Segunda Guerra Mundial, só comparável à quebra da Bolsa de Nova York, em 1929.

Crise no PDG: no Brasil, processo de recuperação judicial

De maior incorporadora do Brasil a um pedido de recuperação judicial, a empresa brasileira se viu em meio a uma grande crise a partir de 2012 que dura até hoje.

Fundada em 2003, a PDG Realty (PDGR3) nasceu a partir de um negócio do ramo imobiliário dentro do banco de investimentos Pactual.

Nos primeiros anos, a empresa surfou uma grande onda do mercado imobiliário brasileiro. Entre 2007 e 2011, no auge da operação da companhia, as ações da PDG valorizaram 124%.

Porém, com expectativa de rápido crescimento nos anos seguintes, a empresa se endividou para tirar do papel inúmeros projetos.

Em 2012 vieram os primeiros sinais de que uma possível crise. Com o esfriamento do mercado imobiliário, a PDG se viu com um banco de terrenos de R$ 29,6 bilhões, uma dívida alta e vendas fracas. Isso tudo aliado a uma gestão que não tinha domínio sobre o mercado imobiliário e contribuiu para agravar a crise.

Como consequência, o valor de mercado da companhia derreteu. Assim, saiu de R$ 12,5 bilhões em 2010 para R$ 111 milhões hoje.

O pedido de recuperação judicial veio em 2017. Com vários projetos paralisados e uma onda de distratos contratuais realizadas por milhares de consumidores insatisfeitos com o curso dos empreendimentos, a PDG precisou recorrer à Justiça para tentar reverter uma falência.

As dívidas alcançavam R$ 7,9 bilhões e 23 mil credores.

Impactada pela crise do coronavírus, a PDG hoje luta para cumprir o plano de recuperação judicial, enquanto paralisou seus lançamentos. Com troca na gestão e mudanças no controle da empresa, recentemente a PDG aprovou um aumento de capital no valor de R$ 302 milhões.

A empresa mantém conversas com bancos para conseguir suplementação de recursos para dar continuidade às obras interrompidas.

Crise da Encol: problemas de gestão, sonegação e desvios levaram à falência

Diferente da PDG que tenta encontrar uma solução para suas dívidas, a Encol faliu, após deixar milhares de mutuários no prejuízo.

A companhia foi fundada em Goiânia, em 1961, e tornou-se uma das maiores construtoras do Brasil. Pelas mãos da empresa foram construídos mais de 100 mil imóveis em todo o país, com foco em moradias mais populares e para a classe média. Eram 23 mil pessoas empregadas pela empresa.

Com facilidade de pagamentos e possibilidades de parcelamentos, a Encol cresceu progressivamente ao longo das décadas.

Mas a oferta de apartamentos se mostrou maior do que a capacidade do mercado de absorver novos projetos. Assim, a Encol começou a entrar em declínio.

Além disso, a companhia era gerida com métodos pouco eficientes e lucrativos, e isso fez com que ela perdesse muito dinheiro. A empresa também era saqueada por esquemas de sonegação de impostos e outros desvios de dinheiro que acabaram com a saúde financeira dos negócios.

Mais de 30 bancos chegaram a se reunir para tentar salvar a Encol, mas não houve conclusão. A empresa faliu em março de 1999, deixou mais de R$ 2,5 bilhões em dívidas e mais de 42 mil clientes de imóveis no prejuízo.

O dono da construtora, o engenheiro Pedro Paulo de Souza, chegou a ser preso em abril de 2010 por crime contra o sistema financeiro. Mas um dia depois conseguiu um habeas corpus. Ele foi condenado em 2000 a quatro anos de prisão em regime semiaberto e a 266 dias de multa. Porém, o processo só foi concluído em 2010, quando já tinha prescrito.

Mais de duas décadas depois da falência, hoje em dia há vários processos ainda tramitando contra a Encol. Nos últimos anos, houve algumas decisões e acordos, mas ainda há processos em aberto com fornecedores, funcionários e clientes.

Evergrande: gigante chinesa ameaça abalar o mundo

Na última segunda-feira (20) os mercados globais registraram quedas expressivas com o temor de um calote bilionário de uma grande empresa chinesa do ramo imobiliário, a Evergrande.

O passivo da empresa é gigantesco: US$ 300 bilhões (mais de R$ 1,6 trilhão em reais). E é essa grandiosidade que tem deixado o mercado financeiro de cabelos em pé nos últimos dias.

A incorporadora imobiliária da China pode estar à beira da falência. E o temor mundial é de que, com a possível queda da empresa, possa ocorrer um colapso do mercado imobiliário chinês, com potenciais impactos ao redor do mundo.

Alguns especialistas correlacionaram a situação inclusive com a falência do Lehman Brothers e o caso do subprime dos EUA.

Com a primeira oferta pública em 2009, a companhia cresceu vertiginosamente nos últimos anos. Assim, começou a ampliar seu ramo de atuação. Atua com carros elétricos, parque temático, seguros, saúde, alimentos, mercado financeiro e comprou até um time de futebol.

Até 2018 os negócios prosperaram. Mas as dívidas da Evergrande aumentaram à medida que a empresa fazia empréstimos para financiar suas várias atividades e projetos.

Desta forma, o passivo chegou aos atuais US$ 300 bilhões. E, nas últimas semanas, a situação tem se agravado, com a piora das condições de liquidez em meio à desaceleração geral das vendas de imóveis na China.

Com o rebaixamento dos ratings da empresa, o mundo está de olho nos desdobramentos da crise da Evergrande que, assim como o subprime, a PDG e a Encol, pode se tornar mais um escândalo imobiliário.

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