Evergrande: crise na gigante empresa chinesa acende alerta mundial

Felipe Alves
Jornalista com experiência em reportagem e edição em política, economia, geral e cultura, com passagens pelos principais veículos impressos e online de Santa Catarina: Diário Catarinense, jornal Notícias do Dia (Grupo ND) e Grupo RBS (NSC).
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Crédito: Divulgação

Os mercados globais operam em queda nesta segunda-feira (20). E boa parte desse temor mundial vem de uma grande empresa chinesa do ramo imobiliário: a Evergrande.

Com cerca de US$ 300 bilhões em passivos, a incorporadora imobiliária da China pode estar à beira da falência e de um grande calote que tem mexido com os nervos dos investidores.

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Com a possível queda da empresa, o medo é que aconteça um colapso do mercado imobiliário chinês, com potenciais impactos ao redor do mundo.

Alguns especialistas têm correlacionado a situação com a falência do Lehman Brothers. Em 2008 a gigante norte-americana do setor imobiliário faliu e, junto com o caso do subprime nos EUA, arrastou o mundo para uma crise.

O que é a Evergrande?

Uma das maiores incorporadoras da China, a companhia faz parte do Global 500. Ou seja, é também uma das maiores empresas do mundo em receitas.

A Evergrande é listada na bolsa de valores de Hong Kong e tem sede na cidade de Shenzhen.

Os números da empresa são sempre grandes: emprega 200 mil pessoas, ajuda a sustentar indiretamente 3,8 milhões de empregos por ano e é uma das maiores incorporadoras em receitas do mundo.

A companhia antes era conhecida como Grupo Hengda e foi fundada em 1996 pelo bilionário chinês Xu Jiayin, também conhecido como Hui Ka Yan em cantonês – ele já foi o homem mais rico da China.

Com primeira oferta pública em 2009, a empresa cresceu vertiginosamente nos últimos anos. Com o crescimento, a companhia começou a ampliar seu ramo de atuação. Comprou, por exemplo, o time de futebol Guangzou FC, que depois foi rebaixado por conta de um escândalo de combinação de resultados.

Outras investigadas da Evergrande incluem carros elétricos, parque temático, seguros, saúde, alimentos e mercado financeiro.

Mas o core businesse da empresa é mercado imobiliário – especialmente propriedade residenciais. A companhia se orgulha de ter mais de “1.300 projetos em mais de 280 cidades chinesas”.

Hoje o Guangzhou Evergrande está criando o maior estádio de futebol do mundo, assumindo que a construção seja concluída em 2022. O estádio de US$ 1,7 bilhão tem o formato de uma flor de lótus gigante e terá capacidade para 100 mil espectadores.

A Evergrande também está criando um empreendimento gigantesco chamado Ocean Flower Island em Hainan, a província tropical na China. O projeto inclui uma ilha artificial com shoppings, museus e parques de diversão.

O que deu errado com a empresa?

Os negócios da empresa prosperaram até 2018. A companhia chegou a ser a maior incorporadora global em valor de mercado. Em 2021, a lista Fortune Global 500 coloca a Evergrande como o 122º conglomerado do mundo em termos de receita.

Mas no fim de 2020 o governo chinês decidiu promover um aperto monetário e regulatório no setor para fazer frente à especulação imobiliária em meio à crise da Covid-19.

Com a determinação governamental de que casas são feitas para morar e não para especular, a atitude mexeu diretamente com os negócios da Evergrande. Assim, a empresa viu um desaceleramento de seu crescimento.

As dívidas da Evergrande também aumentaram à medida que a companhia fazia empréstimos para financiar suas várias atividades e projetos.

Assim, o passivo chegou aos atuais US$ 300 bilhões. E, nas últimas semanas, a situação tem se agravado, com a piora das condições de liquidez em meio à desaceleração geral das vendas de imóveis no país.

Na última terça-feira (14) a Evergrande revelou em um documento que estava tendo problemas para encontrar compradores para alguns de seus ativos. Relatou problemas de fluxo de caixa e afirmou que poderia entrar em default se não conseguir levantar dinheiro rapidamente.

As agências de risco chinesas baixaram drasticamente os ratings da Evergrande, e o governo local tem se esforçado para negociar com os bancos para evitar um calote da rolagem da dívida da construtora.

Nesta quinta-feira expira o prazo que a incorporadora tem para apresentar um plano de reestruturação de sua dívida.

Na última quarta-feira (15), Mark Williams, economista-chefe da Capital Economics para a Ásia, afirmou em nota que o colapso de Evergrande “seria o maior teste que o sistema financeiro da China enfrentou nos últimos anos”.

Como está a reação do mercado?

Nos últimos dias o mercado já estava atento à crise da Evergrande, mas nesta segunda-feira (20) a situação refletiu de forma global.

As ações da empresa chegaram a cair 19% hoje na China. Com isso, a empresa viu seu valor de mercado chegar à mínima histórica. Ao fim dos pregões, a ação fechou em baixa de 10,24%. O índice Hang Seng de Hong Kong caiu mais de 3,3%. O empresário do setor imobiliário de Xangai, Zhang Yuanlin, perdeu somente nesta segunda-feira (20) US$ 1,1 bilhão de seu patrimônio de acordo com a revista Forbes por conta da crise da Evergrande.

Ao redor do mundo o temor também impacta as bolsas locais. Na Europa, índice continental Stoxx Europe 600 acompanhou a tendência de queda da China e fechou o dia em queda de 1,67%. O DAX, da Bolsa de Frankfurt, caiu 2,31%. Já o FTSE 100, de Londres, recuou 0,86%. Em Paris, o CAC 40 caiu 1,74%. Em Milão, o FTSE MIB caiu 2,57%.

No Brasil o temor também é sentido: nesta segunda-feira (20) o Ibovespa caía 3,28% às 14h45, perdendo mais de 3 mil pontos em um só dia.

Desde o início de 2021, as ações da Evergrande já perderam 80% de valor, arrastando também os papéis de outras grandes incorporadoras da China, como a Sunac China Holdings e a Guangzhou R&F Properties.

E não só o mercado tem reagido, como os próprios funcionários da Evergrande. Nesta segunda-feira (20), protestos irromperam na sede da empresa.

Imagens da Reuters mostraram vários manifestantes no local.

Porém, apesar da gravidade do problema, analistas consideram improvável que aconteça uma crise de proporções similares à que sucedeu a quebra do banco norte-americano Lehmann Brothers em 2008.

Entenda como, há 13 anos, a crise do Lehman Brothers causou impacto global.

Qual a solução para a crise?

A Evergrande contratou equipes de analistas financeiros para tentar encontrar uma saída para a crise – alguns inclusive atuaram no caso do Lehmann Brothers.

Enquanto isso, analistas esperam que o governo chinês intervenha para limitar as consequências caso a empresa entre em default.

Williams, da Capital Economics, prevê que o banco central do país “entraria com suporte de liquidez” se os temores de um grande calote se intensificassem.

Mas há o temor dos investidores de que as medidas do governo chinês para esfriar o mercado imobiliário tenham tido o efeito contrário e acabem por afetar a economia.

Analistas do Goldman recomendaram que as autoridades da China enviem uma “mensagem mais clara” sobre como planejam impedir que a companhia cause “impactos significativos” na economia em geral.

Há a expectativa de que o governo opte por promover uma quebra controlada da Evergrande, resgatando clientes, fornecedores e prestadores de serviços e fazendo com que o sistema financeiro local absorva o prejuízo.

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