Dólar dispara 2,89% no primeiro dia após os atos de 7 de Setembro

Fernando Augusto Lopes
Redator e editor
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Crédito: Arte / EQI

Não deu outra. Após o 7 de Setembro, o dólar disparou nesta quarta-feira (8), com mais 2,89%, na máxima do dia, passando a valer a R$ 5,3261. Os agentes de mercado recomeçaram a semana, após o feriado, ainda tentando compreender aonde a crise política vai levar o Brasil.

Ontem, especialmente em Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro, um bom número de apoiadores do presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), tomou as ruas, com bandeiras do Brasil e camisetas da seleção brasileira, pedindo basicamente a ruptura democrática: fechamento do Supremo Tribunal Federal (STF), fim do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e intervenção militar, com a manutenção de Bolsonaro no poder.

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Problemas atuais do país, como os mais de 14 milhões de desempregados, inflação quase chegando aos dois dígitos, o aumento do número de famintos, a crise hídrica, a pandemia e a fuga de investimentos não foram citados pelos manifestantes.

Os agentes de mercado, que vinham mostrando que a crise política provocada especificamente por Bolsonaro já estava até precificada, puxaram o freio e passaram a pregar cautela para ver o que vem pela frente.

Para piorar, os caminhoneiros, com suas pautas bastante dispersas, voltaram a tomar as estradas, a ponto de o Ministério da Infraestrutura ter que soltar nota para acalmar e dizer que não há risco, no momento, de desabastecimento.

  • segunda-feira (6): -0,15% a R$ 5,1763
  • terça-feira (7): feriado
  • quarta-feira (8): +2,89% a R$ 5,3261
  • semana: +2,74%

Moderação de Lira e do Centrão

O presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), fez um discurso bem moderado nesta quarta-feira (8), sem citar o presidente Bolsonaro nominalmente, nem a possibilidade do impeachment.

Lira afirmou novamente que a Câmara quer desempenhar o papel de pacificação, defendeu serenidade até as eleições e o compromisso da Casa em seguir votando o que é de interesse público – na visão dele e do Centrão.

O parlamentar falou em “bravatas” e disse que é hora de um “basta nesta escalada”. A única menção aos atos de 7 de Setembro foram contra o “radicalismo e excessos”.

As palavras jogadas ao vento, genéricas e sem contundência podem até colocar panos quentes, mas conseguirão frear o avanço bolsonarista sobre as instituições?

Resposta do STF

Luiz Fux, presidente do STF, instituição que virou alvo preferido dos bolsonaristas, disse que o desprezo por decisões judiciais configuram crime de responsabilidade, referindo-se ao fato de que Bolsonaro bradou aos apoiadores na Avenida Paulista que não iria cumprir decisões doi ministro Alexandre de Moraes, seu desafeto principal.

“O Supremo Tribunal Federal também não tolerará ameaças à autoridade de suas decisões. Se o desprezo às decisões judiciais ocorre por iniciativa do Chefe de qualquer dos Poderes, essa atitude, além de representar atentado à democracia, configura crime de responsabilidade, a ser analisado pelo Congresso Nacional”, disse Fux, na abertura da sessão plenária do STF hoje.

A única pessoa no planeta que pode dar andamento ao processo de impeachment de Bolsonaro é Arthur Lira, ainda seu aliado, mas que muita gente já vê como um tranquilo bem afortunado fiador da estrutura do governo. Se Lira e o Centrão não enxergarem mais no governo uma boa fonte de dinheiro e negócios, o processo de impedimento poderia andar.

Até lá, apreensão.

E o dólar?

A volatilidade deve prosseguir no cenário de câmbio pelo mês de setembro. Esta é a análise do BTG Pactual Digital, que segue com projeção de dólar a R$ 5 em um cenário básico, como no mês passado. No cenário pessimista, o dólar chega a R$ 5,40. No otimista, a R$ 4,80.

Já segundo as estimativas do mercado captadas pelo Boletim Focus semanalmente, o dólar deve chegar a R$ 5,17 até dezembro, ante R$ 5,15 da semana passada e R$ 5,10 de quatro semanas atrás.

As variações na moeda devem ocorrer com a escalada de tensão entre os poderes e os riscos fiscais no cenário interno. Já no externo, é grande a aposta de que a liquidez será reduzida entre o final deste e o início do próximo ano.

No âmbito doméstico, são esperadas alta da inflação, em um cenário hídrico adverso e com aumento de preços de serviços, o que deve pressionar o Banco Central brasileiro a ser mais firme nas suas decisões de política monetária – a expectativa para a Selic já está entre 8% e 8,5% ao ano.

Com a alta da taxa básica de juros, o fluxo financeiro para o Brasil pode aumentar, favorecendo a taxa de câmbio. Além disso, o mês de setembro também será decisivo para a agenda política, que tem no radar a discussão da Reforma Tributária no Senado Federal e da Reforma Administrativa na Câmara dos Deputados, além da questão sobre como acomodar o crescimento nas despesas com precatórios e da reformulação do Bolsa Família.

“A restrição temporal imposta pela eleição do próximo ano nos indica que caso estes temas não avancem este mês, poucas mudanças relevantes serão feitas até que a composição do novo governo seja definida”, ponderam os analistas do BTG.

*Com BDM e Agência Reuters