Dólar vai subir ou vai cair? Cenário permanece nebuloso

Cláudia Zucare Boscoli
Jornalista formada pela Cásper Líbero, com pós-graduação em Jornalismo Econômico pela PUC-SP, especialização em Marketing Digital pela FGV e extensão em Jornalismo Social pela Universidade de Navarra (Espanha), com passagens por IstoÉ Online, Diário de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e Editora Abril.

Crédito: Reprodução/Pixabay

O mercado financeiro trabalha com a estimativa de o dólar chegar ao fim do ano na casa dos R$ 5,40. Com a forte queda registrada nos últimos dias, pode-se dizer que a moeda está bem próxima da estimativa.

Mesmo assim, ficará ainda muito longe dos R$ 4 do pré-pandemia, o que dá bem a dimensão das oscilações que a divisa registrou nesse ano atípico, quando chegou a bater os R$ 6 em meados de maio. Há cerca de duas semanas, estava perto de novo dos R$ 5,70 e nesta sexta-feira (20) fechou em R$ 5,38.

O cenário ainda é bastante nebuloso, externa e internamente. e cercado de incertezas, como frisou Mathias Fischer, diretor de estratégia e inovação da Meu Câmbio.

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Hoje o Twitter é pauta na Money Week.

Ao mesmo tempo que há fatores puxando a cotação para baixo, há outros empurrando para cima.

Do lado da pressão para cima, estão a segunda onda da Covid-19 e o risco fiscal brasileiro.

Já a pressão para baixo vem da eleição de Joe Biden nos Estados Unidos. E também do possível pacote de estímulos a ser liberado com a chegada de um governo democrata.

Entenda o que vem acontecendo e as oportunidades de investimento.

Desvalorização gradual do dólar

A tendência do dólar, daqui para o ano que vem, é de desvalorização gradual.

De acordo com o Boletim Focus, do Banco Central, que semanalmente levanta as projeções das instituições financeiras para os principais indicadores econômicos, o dólar deve fechar 2020 em R$ 5,41. No ano de 2021, em R$ 5,20. Para 2022, R$ 5. E para 2023, R$ 4,88.

Externamente, o cenário político é favorável a um dólar menos forte. Isto porque a eleição de Joe Biden abre uma perspectiva maior de um pacote financeiro generoso de auxílio durante a pandemia.

A postura do banco central americano, Federal Reserve (Fed), mais “dovish” também pode contribuir para reduzir as pressões de alta do dólar.

Emergentes ganham com pacote nos EUA

Havendo a liberação do pacote fiscal, as novas emissões de dólar devem aumentar a liquidez e rebalancear os portfólios globais de investimento, com grandes chances para os países emergentes, Brasil incluído.

Bank of America, Credit Suisse e Morgan Stanley já elevaram recentemente a recomendação de compra para mercados emergentes, em especial para o Brasil.

A BlackRock, maior gestora do mundo, também afirmou que as ações dos países emergentes seriam beneficiadas a partir da eleição de Biden.

“Com um provável pacote fiscal robusto e mais emissão de moeda pelos Estados Unidos, esse dinheiro migra para alguns países. E o Brasil poderia ser o mais beneficiado”, aponta Paulo Filipe de Souza, sócio e assessor da EQI Investimentos.

Souza aponta que a tendência do dólar, agora, é realmente de baixa e afirma que já há casas de análise cogitando dólar a R$ 4,50 em 2021.

dólar

Preocupação com Covid-19 puxa alta do dólar

Em sentido contrário, o principal fator que impede a valorização do real ante o dólar e puxa a moeda americana para cima é, sem dúvida, a segunda onda da Covid-19.

Até aqui, a preocupação com uma nova etapa de pandemia e novos bloqueios era apenas uma suposição. Mas ela vem se materializando dia a dia, com a confirmação do avanço dos casos na Europa e nos Estados Unidos. E com o anúncio de novas medidas de restrição à movimentação das pessoas para conter o vírus.

O BTG Pactual revisou para cima sua taxa de câmbio para 2020 (R$ 5,40) em virtude da doença. “Revisamos nossa previsão em função da materialização de um dos principais riscos ao nosso cenário de câmbio este ano: uma segunda onda de Covid-19 no exterior”, afirmam os analistas do banco em relatório do mês de novembro.

Para 2021, o BTG projeta dólar a R$ 5,10, abaixo do Focus, que prevê R$ 5,20.

Como fica o dólar se a vacina vier?

O fato de as vacinas estarem a caminho é um sinal bastante positivo. O imunizante produzido pela Pfizer aparentemente está em estágio mais avançado, já tendo pedido de autorização para uso emergencial. E as demais vêm apresentando bons resultados nos testes clínicos.

Entretanto, a ampla utilização da vacina pela população mundial – o que daria sinal verde para a retomada da vida pré-coronavírus – é algo apenas para cenários de médio prazo, na melhor das hipóteses.

Neste contexto, segue o comportamento dos investidores mundiais de buscar proteção na moeda forte, ou seja, o dólar, o que explica sua valorização ante o real – que passa dos 28%.

Porém, o investidor deve estar atento a cada avanço da ciência rumo à imunização, que possivelmente provocará movimentos para baixo da moeda americana.

O Citigroup aposta em uma queda bastante significativa do dólar na hipótese de as vacinas contra a Covid serem adotadas. Pelos cálculos do banco, a queda seria de 20%, o que devolveria o dólar a patamares pré-crise.

“Acreditamos que a distribuição de vacinas marcará todas nossas indicações de mercado baixista. E permitirá que o dólar siga um caminho semelhante ao que experimentou desde o início até meados dos anos 2000”, afirmou em relatório.

Risco fiscal impede avanço do real

Enquanto Covid pressiona o dólar para cima e vacina para baixo, há ainda a questão da insegurança fiscal no Brasil, que impede que o real tenha uma valorização mais forte, mesmo diante das boas notícias.

O risco vem dos discursos conflitantes dos políticos e da equipe econômica do governo quanto à possibilidade de extensão do auxílio emergencial e da implantação de um novo programa assistencial (Renda Brasil ou Renda Cidadã). Ambos impediriam que ao país cumprisse com as metas de austeridade fiscal. Consequentemente, isto acarretaria menor confiança dos investidores estrangeiros no país e uma fuga de capitais que culminaria em dólar alto.

Vale lembrar que a “recompensa” pelo risco de investir no Brasil, hoje, é baixa, já que a Selic, taxa básica de juros, está em sua mínima histórica (2%) – e, a depender das falas dos integrantes do Banco Central, seguirá assim ainda por algum tempo.

Deterioração das contas públicas

“Fatores domésticos, como o cenário negativo para as contas públicas e o nível de taxas de juros domésticas, reduzirão a valorização mais forte do real. A deterioração adicional das contas públicas é o principal risco para nossa previsão de taxa de câmbio”, aponta o BTG.

Fischer concorda: “Diversos relatórios já apontam que existe uma chance grande do teto não ser respeitado”, ele diz. E cita ainda a demora para votações essenciais, como a PEC Emergencial e as reformas administrativa e fiscal, como fatores que complicam ainda mais o cenário.

“O investidor estrangeiro tem recursos, mas é um capital especulativo, que visa capturar o prêmio de risco quando ele existe. Neste cenário de incertezas, estes recursos secam”, explica Fischer.

Ao fim do ano, as agências de rating irão reavaliar a nota de crédito do Brasil e, em caso de piora na perspectiva ou na nota, o risco-país deve se elevar. O que levaria o real a se desvalorizar frente ao dólar.

Dólar e a atuação do Banco Central

Na última semana, foram muitas as notícias sobre uma provável intervenção mais firme do Banco Central. Ele faria novos leilões de dólares, para garantir a disponibilização da moeda e evitar uma pressão de alta.

Isto acontece porque já é sabido que os bancos demandarão US$ 15 bilhões até o fim do ano. É que eles terão que arcar com contratos futuros já firmados. O BC já confirmou que irá atuar, tranquilizando o mercado. Isso fez com que a divisa saísse do patamar dos R$ 5,76 para a casa dos R$ 5,31 no intervalo de duas semanas.

Como investir com dólar em tendência de queda?

A tendência de baixa no preço do dólar pode abrir uma janela de oportunidade para quem deseja ter uma parte da sua carteira alocada em ativos ligados ao dólar.

Isto garante uma correta diversificação e protege os investimentos de choques internacionais.

O fator proteção vem do fato de que os investidores de todo o mundo enxergam o dólar como um dos ativos mais seguros do mundo. Por isso, quando uma crise derruba todos os mercados, como no caso do coronavírus, o dólar tende a se valorizar.

Mas é preciso lembrar: os ativos atrelados ao dólar devem corresponder a uma pequena parcela da carteira de investimentos. Não é recomendado colocar “todos os ovos na mesma cesta”.

Para diversificar e se expor ao dólar, há as seguintes possibilidades de investimentos:

COE

Certificado de Operações Estruturadas é uma versão brasileira das chamadas Notas Estruturadas, bastante populares nos Estados Unidos. É um tipo de aplicação que une a segurança da renda fixa com a rentabilidade da renda variável.

Ele é indicado para quem está começando a investir no exterior e ainda está receoso a respeito.

E tem uma vantagem muito interessante: a maioria dos COE têm capital protegido. Isto quer dizer que o investidor recebe de volta todo o valor investido, mesmo que ocorra uma perda no investimento.

O COE pode estar atrelado a ações nacionais e estrangeiras, índices da bolsa brasileira e das bolsas americanas. E também a taxas de juros, commodities, e moedas. E a combinação destes ativos garante segurança, ao mesmo tempo em que busca mais lucratividade.

Fundos de investimento

Também indicado para os investidores menos experientes no mercado externo, os fundos de investimento internacional trazem a vantagem de contar com gestores que acompanham e definem as melhores opções. Você pode optar por fundos de ações, mais agressivos, ou fundos multimercado, que são mais seguros por diversificar os investimentos.

ETFs

Também é possível investir, a partir do Brasil, em fundos de índice (ETFs) que replicam ativos internacionais.

BDR

O Brazilian Depositary Receipt (BDR), ou certificado de depósito de valores mobiliários, permite investir diretamente em empresas norte-americanas pelo mercado brasileiro.

Desde 22 outubro, os BDRs estão disponíveis na bolsa brasileira para todo investidor interessado. Até então, eles eram reservados apenas para investidores qualificados, ou seja, aqueles com mais de R$ 1 milhão em investimentos.

A vantagem é que, ao adquirir um BDR, o investidor passa a deter, indiretamente, papéis da companhia com sede em outro país. Sem que para isso tenha que realizar os trâmites de um investimento internacional.

Dólar Futuro

É importante destacar que esta forma de investimento é de alto risco e exige maior preparo do investidor.

O investidor pode assumir uma posição de compra ou de venda do contrato futuro da moeda. Quem assume a posição comprada do contrato, ganha com a alta do dólar e perde com a queda. Se a posição for de venda, o investidor ganha com a queda do dólar e perde com a alta.

Esta negociação ocorre na B3 e exige que o investidor tenha uma conta em uma corretora de valores para operar. Trata-se de um mercado muito volátil e de alta liquidez.

No mercado de dólar futuro pode-se operar de forma alavancada. Isso significa que com um montante pequeno de dinheiro é possível movimentar grandes quantias. Ou seja, é possível ganhar muito mais do que o valor investido, mas o tombo também pode ser grande.

 

Quer uma assessoria especializada para saber como se proteger das oscilações do mercado cambial? Preencha o formulário abaixo que um assessor da EQI Investimentos irá entrar em contato!