Dólar: volatilidade segue, com tapering à vista, tensão entre poderes e riscos fiscais

Cláudia Zucare Boscoli
Jornalista formada pela Cásper Líbero, com pós-graduação em Jornalismo Econômico pela PUC-SP, especialização em Marketing Digital pela FGV e extensão em Jornalismo Social pela Universidade de Navarra (Espanha), com passagens por IstoÉ Online, Diário de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e Editora Abril.
1

Crédito: Pixabay

A volatilidade deve prosseguir no cenário de câmbio pelo mês de setembro. Esta é a análise do BTG Pactual Digital, que segue com projeção de dólar a R$ 5 em um cenário básico, como no mês passado. No cenário pessimista, o dólar chega a R$ 5,40. No otimista, a R$ 4,80.

Já segundo as estimativas do mercado captadas pelo Boletim Focus semanalmente, o dólar deve chegar a R$ 5,17 até dezembro, ante R$ 5,15 da semana passada e R$ 5,10 de quatro semanas atrás.

CASES DA BOLSA

Aprenda análise fundamentalista na prática, inscreva-se no evento!

As variações na moeda devem ocorrer com a escalada de tensão entre os poderes e os riscos fiscais no cenário interno. Já no externo, é grande a aposta de que a liquidez será reduzida entre o final deste e o início do próximo ano.

Dólar: cenário externo prevê redução da liquidez

Nos Estados Unidos, o comitê de política monetária Fomc se reúne no próximo dia 22 e poderá dar mais pistas sobre o início da redução gradual dos estímulos econômicos.

O panorama que se apresenta, até aqui, é que o tapering terá início em dezembro deste ano, com o anúncio ocorrendo na reunião de novembro, visto que o mercado de trabalho nos EUA ainda está performando abaixo da expectativa – vide a recente divulgação do payroll, bem abaixo da projeção: foram 235 mil novos postos de trabalho abertos em agosto, quando o mercado aguardava por 750 mil.

O Federal Reserve (Fed) segue alertando que, para retirar estímulos, precisa de inflação e Covid sob controle e dados consistentes de recuperação do mercado de trabalho.

“A reunião de setembro (do Fomc) pode confirmar que ainda é cedo para reduzir o suporte à liquidez, o que é elemento favorável para a composição do fluxo financeiro para os países emergentes, sendo, portanto, positivo para o real”, afirma a equipe do BTG (BPAC11).

Dólar: internamente, inflação e ruídos políticos preocupam

Já no âmbito doméstico, são esperadas alta da inflação, em um cenário hídrico adverso e com aumento de preços de serviços, o que deve pressionar o Banco Central brasileiro a ser mais firme nas suas decisões de política monetária – a expectativa para a Selic já está entre 8% e 8,5% ao ano.

Com a alta da taxa básica de juros, o fluxo financeiro para o Brasil pode aumentar, favorecendo a taxa de câmbio. Além disso, o mês de setembro também será decisivo para a agenda política, que tem no radar a discussão da Reforma Tributária no Senado e da Reforma Administrativa na Câmara dos Deputados, além da questão sobre como acomodar o crescimento nas despesas com precatórios e da reformulação do Bolsa Família.

“A restrição temporal imposta pela eleição do próximo ano nos indica que caso estes temas não avancem este mês, poucas mudanças relevantes serão feitas até que a composição do novo governo seja definida”, ponderam os analistas do BTG.

Para piorar, segue em escala crescente a crise institucional entre Executivo e Judiciário, o que aumenta a noção de risco de investir no país.

Projeção BTG (BPAC11)

 

dólar

Reprodução/BTG Pactual Digital

Variação cambial

dólar

Reprodução/Banco Central

Cenário externo

O cenário-base projetado pelo banco BTG com dólar a R$ 5 inclui os seguintes desfechos para temas externos que vêm influenciando na cotação:

  • Pacote de infraestrutura aprovado, sendo financiado parte em dívida e parte com elevação de impostos.
  • Início do tapering em dezembro deste ano e sinalização de aumento dos juros apenas para 2023.
  • Manutenção dos preço das commodities em patamar elevado devido à retomada da demanda global.

Cenário interno

Já internamente, o BTG prevê:

  • Reformulação do Bolsa Família com benefício em R$ 300, permitindo a manutenção da relação dívida bruta/PIB ao redor de 82%.
  • Manutenção do ritmo de vacinação de agosto, com o mês de setembro finalizando com 70% da população com algum grau de imunização.
  • Avanço da Reforma Tributária e da privatização dos Correios em 2021.
  • Manutenção do Teto de Gastos.

Vantagens de investir em dólar

Para o investidor que já tem ativos em dólar, ele deve estar preparado para aguentar a volatilidade atual. Para quem ainda não tem, vale tentar uma janela em meio à volatilidade.

Além da valorização do câmbio, investindo em dólar, também se ganha com diversificação e proteção a choques – sejam os internacionais, como a pandemia, ou os muitos ruídos políticos do Brasil.

O fator proteção vem do fato de que os investidores de todo o mundo enxergam o dólar como um dos ativos mais seguros do mundo. Por isso, quando uma crise derruba todos os mercados, como no caso do coronavírus, o dólar tende a se valorizar.

Mas é preciso lembrar: os ativos atrelados ao dólar devem corresponder a uma pequena parcela da carteira de investimentos. Não é recomendado colocar “todos os ovos na mesma cesta”.

Para diversificar e se expor ao dólar, há as seguintes possibilidades de investimentos:

COE

O Certificado de Operações Estruturadas é uma versão brasileira das chamadas Notas Estruturadas, bastante populares nos Estados Unidos. É um tipo de aplicação que une a segurança da renda fixa com a rentabilidade da renda variável.

Ele é indicado para quem está começando a investir no exterior e ainda está receoso a respeito. E tem uma vantagem muito interessante: a maioria dos COE têm capital protegido. Isto quer dizer que o investidor recebe de volta todo o valor investido, mesmo que ocorra uma perda no investimento.

O COE pode estar atrelado a ações nacionais e estrangeiras, índices da bolsa brasileira e das bolsas americanas. E também a taxas de juros, commodities, e moedas. E a combinação destes ativos garante segurança, ao mesmo tempo em que busca mais lucratividade.

Fundos de investimento

Também indicado para os investidores menos experientes no mercado externo. Os fundos de investimento internacional trazem a vantagem de contar com gestores que acompanham e definem as melhores opções. Você pode optar por fundos de ações, mais agressivos, ou fundos multimercado, que são mais seguros por diversificar os investimentos.

ETFs

Também é possível investir, a partir do Brasil, em fundos de índice (ETFs) que replicam ativos internacionais.

BDRs

O Brazilian Depositary Receipt (BDR), ou certificado de depósito de valores mobiliários, permite investir diretamente em empresas norte-americanas.

Desde 22 outubro, os BDRs estão disponíveis na bolsa brasileira para todo investidor interessado. Até então, eles eram reservados apenas para investidores qualificados, ou seja, aqueles com mais de R$ 1 milhão em investimentos.

A vantagem é que, ao adquirir um BDR, o investidor passa a deter, indiretamente, papéis da companhia com sede em outro país. Sem que para isso tenha que realizar os trâmites de um investimento internacional.

Dólar Futuro

É importante destacar que esta forma de investimento é de alto risco e exige maior preparo do investidor.

O investidor pode assumir uma posição de compra ou de venda do contrato futuro da moeda. Quem assume a posição comprada do contrato, ganha com a alta do dólar e perde com a queda. Se a posição for de venda, o investidor ganha com a queda do dólar e perde com a alta.

Esta negociação ocorre na B3 e exige que o investidor tenha uma conta em uma corretora de valores para operar. Trata-se de um mercado muito volátil e de alta liquidez.

No mercado de dólar futuro pode-se operar de forma alavancada. Isso significa que com um montante pequeno de dinheiro é possível movimentar grandes quantias. Ou seja, é possível ganhar muito mais do que o valor investido, mas o tombo também pode ser grande.