Dólar segue tendência de baixa, mas segundo semestre pede atenção do investidor

Cláudia Zucare Boscoli
Jornalista formada pela Cásper Líbero, com pós-graduação em Jornalismo Econômico pela PUC-SP, especialização em Marketing Digital pela FGV e extensão em Jornalismo Social pela Universidade de Navarra (Espanha), com passagens por IstoÉ Online, Diário de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e Editora Abril.
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Crédito: Divulgação

Depois de se aproximar dos R$ 6, o dólar agora recua, acompanhando um cenário mais otimista à valorização do real.

Nos Estados Unidos, o clima é bastante positivo, com uma bem-sucedida campanha de vacinação e a expectativa de retomada da normalidade. Somam-se a isso os estímulos financeiros de auxílio à pandemia e a inflação que segue, até aqui pelo menos, dentro do esperado pelo banco central americano.

No Brasil, apesar de a pandemia ainda ser considerada bastante grave, o mercado se mantém otimista com dados econômicos favoráveis e uma expectativa de que a vacinação acelere no segundo semestre, viabilizando uma retomada mais vigorosa da economia.

BDRs. Alternativas para investir no exterior diretamente da bolsa brasileira

Cenários para o dólar

Para o BTG Pactual, a projeção da taxa de câmbio é de R$ 4,90 até dezembro de 2021. Antes, era de R$ 5,30. Para 2022, a expectativa é de dólar a R$ 5,20.

A apreciação do real, explica o banco, vem da redução da incerteza trazida pela pandemia e do risco fiscal. “Esses fatores haviam levado a um descolamento importante entre a taxa de câmbio corrente e aquela sugerida pelos seus fundamentos”, explica o banco em relatório.

Para 2022, o banco espera a depreciação do câmbio em função do arrefecimento dos preços das commodities no mercado internacional, da retirada de estímulos no cenário global, e da elevação das taxas de juros nos EUA.

Um risco negativo importante para o cenário de câmbio continua sendo o de deterioração das contas públicas do país, em função do cenário das eleições presidenciais de 2022.

O Boletim Focus, do Banco Central, projeta dólar a R$ 5,30 até dezembro.

Volatilidade deve permanecer elevada

“Após superar a assustadora barreira dos R$ 5,80 em março, a taxa de câmbio já opera próximo aos R$ 5. Claro que a volatilidade do câmbio ainda permanece elevada, mas o fato é que tanto os fundamentos da economia americana quanto a redução do risco político-fiscal no Brasil ajudaram na apreciação do real nestas últimas semanas”, afirma o economista Álvaro Frasson, do BTG.

Para ele, a saída encontrada para resolver o impasse do orçamento de 2021, com vetos parciais ao texto do Congresso, reduziu a percepção de risco e manteve certa credibilidade das regras fiscais.

Para complementar o entusiasmo, o Congresso sinaliza com avanços nas reformas Tributária e Administrativa.

Já em relação à pandemia e à vacinação, o contexto não é o melhor possível, é certo, mas existe “luz no fim do túnel” com a chegada de mais imunizantes ao país.

Selic ajuda a conter o dólar

A subida da Selic, taxa básica de juros, também contribuirá para controlar a escalada do dólar, apontam os analistas, já que os rendimentos mais atraentes tendem a chamar o investidor estrangeiro de volta ao Brasil.

Vale lembrar que, nos EUA, o Federal Reserve vem reiterando que manterá os juros zerados até 2023. Já por aqui, a Selic encontra-se em 3,5%, depois de dois aumentos de 0,75 ponto porcentual nas duas últimas reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC).

Para a próxima reunião, que acontece no início de maio, é esperado que a Selic tenha novo aumento de 0,75 ponto porcentual.

Até o final do ano, o mercado estima que a Selic deve chegar próxima aos 6%.

Sendo assim, o diferencial de rentabilidade com os EUA pode tornar o Brasil destino de muitos investidores estrangeiros – o que traz dólares para o país e, consequentemente, empurra o câmbio para baixo.

EQI: atenção para possíveis altas no segundo semestre

De acordo com Alexandre Viotto, head de câmbio e comércio exterior daEQI Investimentos, no curto prazo, a expectativa é que o dólar continue o movimento de baixa. Mas para o próximo semestre, o investidor deve ficar atento a dois temas que podem fazer a taxa de câmbio subir.

O primeiro deles é externo e vem sendo acompanhado com lupa pelo mercado: a inflação americana. É grande a chance de o Federal Reserve (Fed) elevar a taxa de juros mais cedo do que o anunciado (2023), para conter a alta nos preços.

“Particularmente, eu não acredito que a inflação americana seja pontual, como aponta o Fed. E o mercado deve se antecipar a uma provável alta de juros futura, elevando o rendimento dos Treasuries (papéis do Tesouro americano). Com rendimento dos treasuries em alta, dólar sobe”, indica Viotto.

Uma fala recente da secretária do Tesouro, Janet Yellen, dá a dica de que o aumento na taxa de juros pode estar mesmo próximo: “Estivemos enfrentando por uma década uma inflação baixa demais e taxa de juros baixas demais. Queremos que elas voltem a um ambiente normal”, ela afirmou à Bloomberg.

O outro fator que pode valorizar o dólar é interno: as eleições presidenciais de 2022. No segundo semestre, tende a se intensificar a polarização entre os dois prováveis candidatos mais fortes ao pleito: Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro. Com isso, o mercado deve passar a contabilizar novos riscos fiscais com medidas eleitoreiras, vide discussões já em curso para nova rodada de auxílio emergencial, com possibilidade de valores maiores, e novo desenho do Bolsa Família.

“As contas públicas vindo melhores do que o esperado podem servir de pretexto para o governo gastar mais e tentar se eleger já no primeiro turno”, aponta Viotto.

Ele explica que, historicamente, desde 1989, salvo o ano de 2010, a tendência é sempre de alta para dólar em períodos próximos à eleição.

Vantagens de investir em dólar

Para o investidor que já tem ativos em dólar, ele deve estar preparado para aguentar a volatilidade atual. Para quem ainda não tem, vale aproveitar a janela.

Além da valorização do câmbio, investindo em dólar, também se ganha com diversificação e proteção a choques – sejam os internacionais, como a pandemia, ou os muitos ruídos políticos do Brasil.

O fator proteção vem do fato de que os investidores de todo o mundo enxergam o dólar como um dos ativos mais seguros do mundo. Por isso, quando uma crise derruba todos os mercados, como no caso do coronavírus, o dólar tende a se valorizar.

Mas é preciso lembrar: os ativos atrelados ao dólar devem corresponder a uma pequena parcela da carteira de investimentos. Não é recomendado colocar “todos os ovos na mesma cesta”.

Para diversificar e se expor ao dólar, há as seguintes possibilidades de investimentos:

COE

O Certificado de Operações Estruturadas é uma versão brasileira das chamadas Notas Estruturadas, bastante populares nos Estados Unidos. É um tipo de aplicação que une a segurança da renda fixa com a rentabilidade da renda variável.

Ele é indicado para quem está começando a investir no exterior e ainda está receoso a respeito. E tem uma vantagem muito interessante: a maioria dos COE têm capital protegido. Isto quer dizer que o investidor recebe de volta todo o valor investido, mesmo que ocorra uma perda no investimento.

O COE pode estar atrelado a ações nacionais e estrangeiras, índices da bolsa brasileira e das bolsas americanas. E também a taxas de juros, commodities, e moedas. E a combinação destes ativos garante segurança, ao mesmo tempo em que busca mais lucratividade.

Fundos de investimento

Também indicado para os investidores menos experientes no mercado externo. Os fundos de investimento internacional trazem a vantagem de contar com gestores que acompanham e definem as melhores opções. Você pode optar por fundos de ações, mais agressivos, ou fundos multimercado, que são mais seguros por diversificar os investimentos.

ETFs

Também é possível investir, a partir do Brasil, em fundos de índice (ETFs) que replicam ativos internacionais.

BDRs

O Brazilian Depositary Receipt (BDR), ou certificado de depósito de valores mobiliários, permite investir diretamente em empresas norte-americanas.

Desde 22 outubro, os BDRs estão disponíveis na bolsa brasileira para todo investidor interessado. Até então, eles eram reservados apenas para investidores qualificados, ou seja, aqueles com mais de R$ 1 milhão em investimentos.

A vantagem é que, ao adquirir um BDR, o investidor passa a deter, indiretamente, papéis da companhia com sede em outro país. Sem que para isso tenha que realizar os trâmites de um investimento internacional.

Dólar Futuro

É importante destacar que esta forma de investimento é de alto risco e exige maior preparo do investidor.

O investidor pode assumir uma posição de compra ou de venda do contrato futuro da moeda. Quem assume a posição comprada do contrato, ganha com a alta do dólar e perde com a queda. Se a posição for de venda, o investidor ganha com a queda do dólar e perde com a alta.

Esta negociação ocorre na B3 e exige que o investidor tenha uma conta em uma corretora de valores para operar. Trata-se de um mercado muito volátil e de alta liquidez.

No mercado de dólar futuro pode-se operar de forma alavancada. Isso significa que com um montante pequeno de dinheiro é possível movimentar grandes quantias. Ou seja, é possível ganhar muito mais do que o valor investido, mas o tombo também pode ser grande.