Mesmo com Selic em alta, rentabilidade está nos ativos de risco, apontam gestores

Cláudia Zucare Boscoli
Jornalista formada pela Cásper Líbero, com pós-graduação em Jornalismo Econômico pela PUC-SP, especialização em Marketing Digital pela FGV e extensão em Jornalismo Social pela Universidade de Navarra (Espanha), com passagens por IstoÉ Online, Diário de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e Editora Abril.
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Crédito: Reprodução/Pixabay

Com a alta da taxa básica de juros, Selic, de 2% para 2,75% e o aviso de que novos ajustes devem vir nas próximas reuniões, o investidor menos experiente já logo pensa que é hora de migrar para a renda fixa.

No entanto, os gestores, mais acostumados ao vai-e-vem do mercado, orientam: vá com calma.

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Há, sim, um evidente ganho para a renda fixa com a subida da Selic. No entanto, a avaliação é de que a Selic chegue ao final do ano em cerca de 4% e, no máximo, 6%.

Para o BTG Pactual (BPAC11), ela vai a 4,25%. Para a EQI Asset, até 4,5%. A opinião é a mesma da GTI. A Rio Bravo acredita em 4,8%. O Bradesco BBI, em 5%. Já para a Garde Asset, por sua vez, a Selic chega a 6%.

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Entretanto, mesmo que ela fique em 6% – que é a aposta mais alta e, vale dizer, da minoria -, ainda assim ela estaria muito próxima da alta da inflação. Isto porque, só até fevereiro, o IPCA, que é o indicador oficial da variação de preços no Brasil, já acumulava alta de 5,20% em 12 meses.

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Na prática, isto quer dizer que, mesmo que a Selic chegue a 5%, em uma mediana das projeções, muitos papéis da renda fixa ainda dariam retorno negativo ao investidor, porque a inflação “comeria” o rendimento.

“Apesar da alta, o juro real continua negativo. A gente considera que até final do ano, começo de 2022, a Selic fique em 5%, 5,5%, o que ainda é muito baixo para padrões históricos brasileiros. É ainda um juro real estimulativo”, reforça Aline Cardoso, gestora da EQI Asset.

De fato, historicamente, a Selic já esteve bem mais alta. Basta lembrar que ela estava sem ser reajustada para cima desde 2015, quando ultrapassava os 14%.

Subida é da Selic, mas a rentabilidade segue nos ativos de risco

Para Aline, da EQI, o aumento da Selic pode até sugerir uma certa migração da renda variável para a renda fixa. Mas isso não deve se confirmar na prática. A razão é que há “luz no fim do túnel” na economia brasileira, com vacinação e retomada da produção e do consumo.

“A vacinação deve acelerar a partir de abril, com uma melhora na mobilidade das pessoas e, consequentemente, com recuperação da atividade, do trabalho e do consumo. Com isso, o lucro das empresas também tende a se recuperar, o que deve sustentar a bolsa de valores ao longo do ano”, ela aponta.

A opinião é a mesma de André Gordon, da GTI Administração de Recursos. Para ele, a opção pelos ativos de risco estará, agora, mais diretamente relacionado à retomada econômica do que à Selic.

“O grau de crescimento da economia vai ser muito mais relevante. Nós já estamos positivamente surpreendidos com os resultados das empresas apesar de todas as adversidades da pandemia”, diz. “Se houve resiliência durante a crise, imagine com a recuperação? A bolsa tende a ficar bem mais atrativa”, considera.

Momento ainda é de realocação na renda variável

A bolsa, apontam os gestores, sempre será muito mais suscetível às alterações na curva longa de juros do que na curva curta. Então, a alta da Selic, por atingir exatamente a curva curta, não deve atrapalhar no fluxo do mercado.

Para Gordon, se houver migração da renda variável para a fixa só por conta da Selic, ela deverá ser pequena e de um dinheiro que estava alocado de maneira incorreta em ações ou fundos de ações.

“A gente ainda vive um processo de realocação à favor da renda variável. Nosso passado é de taxas de juros de dois dígitos e esse processo de mudança é muito lento. A Selic estava em 2% claramente por conta da pandemia. O cara que migrou para a renda variável só por causa da Selic a 2% fez errado, até porque ele continuava a ter opções dentro da renda fixa”, avalia.

Setores da bolsa que tendem a se sair melhor

Aline, da EQI Asset, alerta para outro ponto que pede atenção do investidor de renda variável: mesmo com a retomada econômica, nem todos os setores da bolsa terão recuperação uniforme. Em sua análise, exportadoras e companhias que se encontram muito alavancadas devem sofrer o impacto da Selic.

As exportadoras devem sentir a mudança devido à valorização do real que certamente virá como consequência da alta da Selic. Já as companhias endividadas, porque possuem dívidas atreladas ao CDI (certificado de depósito bancário, que por sua vez é balizado pela Selic). Ou seja, estas terão mais despesas ao longo do ano.

Já os setores de utilities (saneamento, energia e serviços públicos), shoppings, seguradoras e bancos devem se sair melhor. Especialmente os últimos devem performar bem, porque têm receitas importantes vinculadas ao CDI.

Quem ganha na renda fixa com a alta da Selic?

Já para o investidor que está ou pretende ir para a renda fixa, há as opções consideradas melhores a partir de agora.

Entre os títulos públicos, ganham aqueles vinculados à Selic e ao IPCA. E também os de vencimento no longo prazo, como afirmou o diretor de diretor de renda fixa do BTG Pactual (BPAC11), Bruno Carvalho, em live transmitida logo após a decisão do Copom na quarta-feira (17).

Isso porque, na renda fixa, o preço do ativo se comporta de forma inversamente proporcional à curva da taxa de juros. É ela que relaciona prazo e rentabilidade de um determinado ativo. Então, se a curva de juros sobe, o preço do ativo cai – e vice-versa.

Como a elevação de 0,75 ponto percentual foi maior do que o mercado esperava, a tendência é que a curva de juros dos ativos de curto prazo suba para se adequar ao novo cenário – o que diminui a rentabilidade do papéis no presente.

Já a curva de longo prazo deve cair, uma vez que o mercado já sabe o que vem pela frente. Isso aumenta os rendimentos dos títulos de vencimento mais longo no momento atual. Esse ajuste no valor de face do papel é chamado de marcação a mercado.

Mas vale dizer que isso vale apenas para quem negocia títulos no mercado secundário. Quem carrega o papel até o final recebe a taxa que foi contratada.

Renda fixa ou variável: para onde seguir?

Para Alan Ghani, analista de renda fixa da Exame Invest Pro, este é um bom momento para recalibrar a carteira. Vale observar o comportamento dos ativos, selecionando aqueles que terão aumento de rentabilidade por conta da Selic e ainda pagam prêmio, o que garante um retorno real ao investidor.

Mas é prudente lembrar que os ajustes devem ser feitos sempre com calma. E levando em conta o perfil do investidor, se mais arrojado ou conservador. Outra questão é que uma carteira equilibrada não foca apenas em um tipo de ativo. É preciso “distribuir os ovos em mais cestas” como estratégia de defesa e diversificação, equilibrando o desempenho dos ativos.

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