Open Banking deve sair do papel em 2021: entenda o que vai mudar

Giovanna Castro
Jornalista formada pela UNESP.
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Crédito: Entenda o que é o Open Banking -Foto: Pxhere

O Open Banking promete revolucionar os serviços bancários, aumentando a competitividade entre bancos e fintechs e dando maior poder de escolha aos clientes.

O Banco Central, responsável pela regulamentação, adiou a primeira fase da implementação do sistema de 30 de novembro de 2020 para 1º de fevereiro de 2021. Com isso, a última fase passou de 25 de outubro de 2021 para 15 de dezembro do ano que vem.

Saiba o que está em jogo com esse novo modelo e como ele vai transformar a forma como lidamos com as instituições financeiras.

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O que muda com o Open Banking?

O Open Banking será uma plataforma digital que dará ao cidadão direito total sobre seus dados bancários e históricos de transação com bancos e fintechs, podendo compartilhar essas informações com qualquer outra instituição financeira, na busca da melhor taxa e serviço do mercado.

Hoje, essas informações são de posse do banco. O cliente fica restrito a somente contratar crédito, por exemplo, nas instituições onde tem conta aberta. Já com a mudança, será possível contratar diferentes serviços bancários de diferentes empresas.

Isso beneficiará diretamente o consumidor. Afinal, ele poderá escolher as menores taxas de juros para empréstimos ou o maior retorno para aplicações financeiras, negociando com diferentes bancos ou fintechs, que poderão ter acesso ao histórico do cliente para fazer ofertas de serviços. Tudo isso de maneira digital e prática por meio da plataforma.

A plataforma do Open Banking está sendo desenvolvida pelos participantes do sistema financeiro, dentro da regulamentação do governo e supervisão do BC. O compartilhamento de dados só acontecerá mediante autorização do cliente. Ele escolherá com qual instituição e por quanto tempo vai fornecer suas informações bancárias.

Serviços financeiros personalizados

Para o diretor de Regulação do BC, Otávio Damaso, o modelo permitirá não só maior autonomia para o cliente, como também tornará os serviços mais personalizados.

“O cliente vai poder comprar um CDB em um banco, fazer um seguro em outro, e ter o cheque especial em um terceiro. Tudo isso a partir de uma informação que você vai compartilhar”, disse ao G1.

Assim, o consumidor poderá criar uma carteira de serviços bancários que atenda exatamente às suas necessidades. Além de ter mais chances de aprender sobre como lidar com o seu dinheiro e ter um retorno melhor. O que deve impulsionar ainda mais o movimento de educação financeira que vemos nos últimos anos.

Aumento da concorrência

A plataforma do Open Banking permitirá que instituições financeiras ofereçam constantemente serviços aos clientes. Com o compartilhamento de informações e com a tecnologia, cada vez mais presente dentro do mercado financeiro, os bancos e as fintechs poderão utilizar esses dados para criar um perfil de cada cliente.

Dessa forma, eles podem oferecer serviços personalizados para as necessidades do cliente. O que deve ocorrer cada vez com mais frequência, já que a concorrência vai aumentar e a busca por clientes precisará ser otimizada.

“Se você sempre está fazendo sua compra no mesmo supermercado, ele já sabe quais produtos você gosta de comprar. Ele vai sempre te oferecer promoções desses produtos, ou de substitutos que ele queira te vender”, exemplificou Damasio.

Utilizando a mesma analogia do supermercado, o Open Banking será como se todas as redes de supermercado estivessem cadastradas em um mesmo aplicativo. Assim, você, consumidor, poderia escolher comprar o arroz de determinado estabelecimento, que está com uma oferta melhor para esse produto, e o papel higiênico de outra rede, que está com um preço mais atrativo.

Impacto na taxa de juros

Com o aumento da competitividade, a tendência é que a taxa de juros caia. Questionado sobre, o diretor do BC disse ainda não ter essa estatística, mas concordou que provavelmente isso virá a acontecer. Ele citou o exemplo de aplicativos de transporte para mostrar que, com a concorrência, os preços dos serviços tendem a se tornar mais acessíveis.

“Quando se tem muitos carros na praça, o preço tende a cair. Quando tem poucos, o preço tende a aumentar. Então, são as curvas de oferta e demanda tentando encontrar o seu equilíbrio. E isso vai acontecer para todos os produtos e serviços financeiros. Hoje, não acontece porque o seu banco não deixa essa informação fluir, você está preso com ele lá”, explicou.

Um aspecto interessante é que o Open Banking permitirá que o cliente compre um crédito mais barato em uma instituição para cobrir o cheque especial do banco ao qual está vinculado. Isso pode ser contratado apenas uma vez e, recorrentemente, essa operação acontecerá, sempre que o cliente entrar no cheque especial.

“Ou seja, ao invés de ter um fornecedor do cheque especial, que é o seu banco, passou a ter todo o sistema financeiro podendo te oferecer essa linha”, disse o diretor do BC ao G1.

Com a facilidade e a diminuição dos preços, a novidade democratizará ainda mais os serviços financeiros. Pessoas de baixa renda terão mais acesso a crédito e outros serviços, utilizando um celular. O que já vem acontecendo desde que os processos se tornaram digitais, ganhou abrangência com o Auxílio Emergencial digital e agora expandirá com o novo sistema.

O que muda para as empresas?

No caso das empresas, o Open Banking promete resolver uma das principais dificuldades delas que é a organização financeira. Muitas precisam ter contas abertas em diversas instituições para dar conta da dinâmica empresarial. Isso demanda atenção redobrada ao fluxo de pagamentos e recebimentos.

Com o novo modelo, será possível ter o fluxo de caixa unificado. Se a empresa autorizar o compartilhamento de seus dados, as transações entre diferentes instituições se tornarão mais fáceis, seguras e rápidas, apontou Damaso.

Divergências entre bancos e fintechs

Por trás desse adiamento da primeira fase, está em jogo a resistência dos grandes bancos e a briga deles com as fintechs, pequenas empresas de tecnologia em serviços financeiros, que possuem interesses divergentes, apurou a Folha de S. Paulo.

Os bancos, liderados pela Febraban (Federação Brasileira de Bancos), pediram a prorrogação do prazo determinado pela autoridade monetária. Eles devem perder ainda mais poder com o aumento da concorrência proporcionado pelo novo modelo e por isso buscam ferramentas que assegurem seus negócios dentro do novo modelo. Pois, na prática, as informações seriam majoritariamente compartilhadas dos bancos para as instituições menores. Prejudicando as instituições mais tradicionais.

Já as fintechs, representadas no conselho pela ABCD (Associação Brasileira de Crédito Digital) e pela ABFintechs (Associação Brasileira de Fintechs), preferiam que o cronograma original seja cumprido. Afinal, serão beneficiados pela exposição maior a seus serviços, competindo de forma igualitária com os grandes bancos.

Vazamento de informações

Os bancos têm manifestado, simultaneamente, preocupação com relação à implementação do Open Banking. Eles querem garantir que o sistema esteja totalmente pronto antes. Hoje, a ideia é que ela aconteça em fases, ao mesmo tempo em que é desenvolvido.

O problema dessa implementação em fases, do ponto de vista dos bancos, é que, com ela, as instituições maiores, que têm participação obrigatória no sistema, seriam responsabilizadas por qualquer problema, como, por exemplo, uma possível vazamento de informações.

Nas discussões com o BC, o argumento principal era que a infraestrutura não estava completamente adaptada para comportar a primeira fase até o fim de novembro.

​Do lado oposto, as fintechs têm menos a implementar dentro do Open Banking, segundo os bancos. Por isso querem entrar no sistema o mais rápido possível.

Fases de implementação

Ao todo, serão quatro fases, que vão de fevereiro a dezembro de 2021. Ou seja, apenas no final do ano teremos o sistema funcionando com todas as suas modalidades de serviços.

Na primeira fase, prevista para o dia primeiro de fevereiro, as instituições financeiras participantes poderão começar a divulgar informações dos produtos e serviços que oferecem. Assim, terceiros poderão consultar as informações e compará-las.

Já na segunda fase, a ser finalizada até 15 de julho de 2021, os clientes poderão autorizar o compartilhamento dos seus dados e então eles ficarão disponíveis para as instituições autorizadas.

Na terceira fase, que acontecerá até 30 de agosto de 2021, ocorre a iniciação de transações de pagamentos.

Por fim, a quarta fase, prevista para até 15 de dezembro, ocorre a expansão dos serviços e consolidação do sistema.

Independentemente dos bastidores, a chegada do novo modelo é inevitável. Em novembro deste ano, já vimos a implementação do PIX, meio de pagamento eletrônico instantâneo. A resposta dos clientes ao serviço vem sendo bastante positiva, segundo as instituições. E a tendência é que o Open Banking facilite ainda mais a vida financeira da população brasileira.

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