Com PIX, empresas de meios de pagamento devem se reinventar

Cláudia Zucare Boscoli
Jornalista formada pela Cásper Líbero, com pós-graduação em Jornalismo Econômico pela PUC-SP, especialização em Marketing Digital pela FGV e extensão em Jornalismo Social pela Universidade de Navarra (Espanha), com passagens por IstoÉ Online, Diário de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e Editora Abril.
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Crédito: Reprodução/Pixabay

Assim como os bancos, as empresas de meios de pagamentos também correm contra o tempo para se adequar ao PIX e amenizar, dentro do possível, o impacto sobre a receita que ocorrerá com uma queda nos pagamentos com cartão de débito.

No entanto, as chamadas “empresas de maquininhas” seguem firmes com o negócio de antecipação de recebíveis. E têm a oportunidade de ver sua clientela aumentar consideravelmente com o movimento de bancarização da população brasileira que o PIX deve desencadear. Entenda como estas empresas perdem e como podem ganhar com o novo meio de pagamento.

Metade das transações de débito deve migrar para o PIX

O PIX, nova modalidade de pagamento – digital, instantânea e gratuita – promete modificar os hábitos dos brasileiros. E abocanhar uma boa fatia do que hoje se divide entre débito, DOC, TED e boleto. Já o uso do cartão de crédito não deve ser afetado, já que este não é um serviço financeiro comparável.

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Segundo um estudo da área de research do Santander, é esperada uma migração de 50% das transações com cartão de débito para o PIX. E o impacto financeiro deve ser de 13% a 38% no lucro antes dos impostos (Ebitda) das empresas de maquininhas. Entre elas, a Cielo (CIEL3) deve ser a mais afetada, seguida por Stone e PagSeguro (ambas listadas em Nova York).

Para Thiago Brehmer, sócio líder da área de serviços financeiros da Grant Thornton Brasil, até 2021 o PIX já deve responder por cerca de 30% dos pagamentos feitos atualmente via cartão de débito.

A consultoria em varejo financeiro Boanerges & Cia também classifica como “alto” o impacto que o PIX terá na concorrência com o débito.

Com isso, consequentemente, as taxas cobradas por bancos e adquirentes serão diretamente afetadas. Com o menor uso das maquininhas também tende a ser impactada a receita com as vendas e os aluguéis das maquininhas.

Espaço para se reinventar

Para Brehmer, as empresas de meios de pagamento, tanto as de hardware quanto para as adquirentes (ou credenciadoras, que compram o hardware para oferecer seu sistema de pagamento), serão, sim, bastante prejudicadas pelo PIX. Mas, ao mesmo tempo, serão forçadas a se reinventar e terão espaço para tanto.

Assim como para os bancos, a capacidade de atrair e fidelizar o cliente a partir de uma conta ou carteira digital e oferecer outros produtos, como crédito e seguros, será o grande diferencial das empresas de maquininhas a partir do PIX.

“Com o PIX, o meio de pagamento vira commodity. Em um primeiro momento, isto é prejudicial. Mas, em um outro movimento, as empresas ganham clientes com as contas e as carteiras digitais”, explica. Ele cita Conta Stone, Cielo Pay e Getnet (vinculada a contas do Santander) como exemplos de que este movimento já está em curso.

Até aqui, a projeção menos otimista de bancarização dos brasileiros a partir do PIX dá conta que 20 milhões de novos clientes passarão a ter uma conta ou carteira digital.

Antecipação de recebíveis segue como core business

Além da possibilidade de ver sua clientela aumentar com o PIX, as adquirentes ainda seguem com o negócio de antecipação de recebíveis. Esta forma de financiamento é muito utilizada no país, especialmente pelos pequenos negócios.

Nesta modalidade, o empreendedor vende no cartão de crédito (à vista ou parcelado). Mas, ao invés de só pegar o dinheiro em 30 dias, antecipa os recursos com a empresa de maquininha. Isto mediante o pagamento de uma taxa.

“O crédito para estabelecimentos comerciais continua como core e, com isso, as maquininhas garantem o espaço delas”, afirma Brehmer.

PIX depende de mudança no comportamento do consumidor

O Banco Central já afirmou que o PIX será apenas mais um meio de pagamento. E que sua ampla adoção dependerá do comportamento do consumidor. Neste sentido, a adoção do PIX é apenas estimada, e não garantida. E isso ocorre porque o consumidor brasileiro já é amplamente acostumado a utilizar cartões.

Um argumento utilizado pelos que enxergam vantagens do PIX em relação ao cartão de débito é que ele dispensa o uso físico do cartão. No entanto, já há no mercado carteiras digitais com a mesma vantagem. É o caso de PicPay, Google Pay, Samsung Pay, Apple Pay, entre outras.

Para analistas do Morgan Stanley, o PIX deve encontrar uma resistência natural do consumidor brasileiro.

Segundo eles, o custo-benefício do PIX não justificaria uma mudança brusca de comportamento em relação aos meios de pagamento tradicionais.

“Existe uma cultura profundamente enraizada de pagamentos com cartão. Quase todo mundo no Brasil carrega um cartão na carteira. Cerca de dois cartões de débito e um de crédito por adulto. Os gastos com cartão totalizam 39% do consumo pessoal”, afirma o banco.

O Morgan Stanley destaca ainda que o PIX exigirá “cinco ou mais cliques” para concluir uma transação. Exatamente o que já acontece com o cartão de débito.

PIX nas maquininhas

Ao mesmo tempo que a chegada do PIX impacta na receita em um primeiro momento, o novo meio de pagamento também estimula a inovação no setor. Cielo, Stone, GetNet já apresentavam soluções de QR Code e, agora, as adaptam ao PIX.

Na maquininha será exibida a opção de pagamento via PIX, exatamente como acontecerá nos aplicativos ou sites das instituições financeiras.

O consumidor usará sua chave-PIX para fazer o pagamento. No entanto, para isso, o lojista deverá ter uma conta ou carteira digital integrada à maquininha. Poderá haver a cobrança de uma tarifa do estabelecimento, mas valores e limites ainda estão em aberto.

WhatsApp pay

Depois do PIX, outra novidade que promete mudar hábitos de pagamento será o WhatsApp Pay. Ele já está em testes, mas ainda sem data de lançamento no Brasil. E depende, para tanto, de regulamentação e autorização do Banco Central.

Além do Banco Central, o serviço também precisa passar pelo crivo do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

Se liberado, a Cielo desponta na frente entre as adquirentes, por ser a parceira responsável por processar os pagamentos.

O serviço de pagamentos do Whatsapp foi lançado no Brasil em junho. Mas logo depois foi suspenso pelo Banco Central, que alegou que a ferramenta já nascia com milhões de usuários. Portanto, precisava passar pelo mesmo processo de aprovação dos demais integrantes do sistema de pagamentos, para comprovar segurança e competitividade.

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