Copom anuncia hoje sua decisão: para mercado, Selic deve ir a 5,25%

Cláudia Zucare Boscoli
Jornalista formada pela Cásper Líbero, com pós-graduação em Jornalismo Econômico pela PUC-SP, especialização em Marketing Digital pela FGV e extensão em Jornalismo Social pela Universidade de Navarra (Espanha), com passagens por IstoÉ Online, Diário de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e Editora Abril.
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Foto: banco-central

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) finaliza hoje sua reunião de dois dias e divulga, a partir das 18h, o resultado de seu 239ª encontro. E do anúncio sairá a decisão quanto à taxa básica de juros (Selic).

A expectativa prioritária do mercado é por uma quarta alta sequencial da Selic.

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Mas, agora, as apostas predominantes são de que o comitê abandone os reajustes de 0,75 ponto porcentual e seja mais agressivo na correção: aumente a Selic em 1%. O que levaria a taxa de juros dos atuais 4,25% para 5,25%.

Vale lembrar que, na reunião de março, o Copom promoveu a primeira alta da taxa de juros em seis anos, depois de ela se manter sete meses em 2%, a mais baixa já registrada. Novamente, em maio, veio mais um ajuste de 0,75 ponto porcentual. E em junho, a repetição dos 0,75.

Selic a caminho da quarta alta consecutiva

Selic

IPCA-15 faz apostas subirem

Na última ata de reunião, no entanto, o próprio Copom admitiu que um “ajuste mais tempestivo” poderia ser feito, caso houvesse uma deterioração das expectativas de inflação para o horizonte relevante.

Pois o IPCA-15 foi considerado pelo mercado como crucial para a aposta em uma postura mais agressiva do Copom.

Puxado pela alta de 4,79% da energia elétrica, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15), prévia da inflação oficial, ficou em 0,72% em julho.

O mercado projetava resultado inferior, de 0,64%. Ainda assim, houve recuo na comparação com junho, quando a leitura foi de 0,83%. Mas esta é a maior alta para o mês desde 2004, quando atingiu 0,93%. No ano, o índice acumula alta de 4,88% e, em 12 meses, de 8,59%.

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IPCA-15: variação mensal

IPCA-15

78,9% das casas apostam em alta de 1%

Em pesquisa do jornal Valor, de 95 instituições financeiras consultadas entre 26 e 29 de julho, 75 acreditam que a Selic aumente 1 ponto porcentual. Outras 20 apontam que o reajuste deve repetir 0,75 ponto.

Já para o fim do ano, de 94 casas consultadas, 77 projetam Selic a 7% ou até mais, enquanto 17 acreditam em taxa de juros entre 6,5% e 6,75%.

Selic

Reprodução/Valor

O BTG Pactual (BPAC11), por exemplo, aposta em alta de 1 ponto porcentual para agora. E Selic a 7,5% até dezembro.

Já o Boletim Focus, que semanalmente apresenta as projeções do mercado, aponta Selic a 7% até o final do ano.

O que é a Selic?

A taxa é o principal instrumento de política monetária utilizado pelo Banco Central para controlar a inflação.

Quando o Copom reduz a Selic, a tendência é que o crédito fique mais barato. O que incentiva a produção e o consumo, mas reduz o controle da inflação.

Em sentido contrário, quando o Copom aumenta a taxa básica de juros, seu objetivo é conter a demanda aquecida. Isso causa reflexos nos preços, porque os juros mais altos encarecem o crédito e estimulam a poupança.

Saber sobre a taxa Selic é importante para o investidor, porque a taxa funciona como um norte para montar uma boa carteira de investimentos.

A regra é: com a taxa de juros baixa, os rendimentos da renda fixa deixam de ser tão atrativos. Por outro lado, com taxa de juros alta, a renda fixa volta a ganhar destaque.

Como investir com Selic em tendência de alta?

Como ensina Paulo Filipe de Souza, assessor da EQI Investimentos, o investidor deve passar a olhar novamente com bons olhos a renda fixa com a projeção de alta de 7% ou até mais até dezembro.

“Mesmo com subida mais rápida dos juros agora, podem ser necessárias mais altas adicionais, dado que a inflação não vem dando sinais de arrefecimento”, ele explica.

Neste cenário, o que o investidor pode fazer para se proteger é conseguir boas taxas de CDI, porque Selic subindo, CDI sobe junto.

“Bons títulos de inflação e CDBs ou debêntures que pagam IPCA+ são boas opções, tendo em vista que a inflação deve continuar preocupando”, ele recomenda.

Vale lembrar que a rentabilidade dos investimentos deve ser sempre acima da inflação ou atrelada a ela (no caso de títulos e CDBs, por exemplo). Caso contrário, toda a rentabilidade será perdida.

No entanto, é importante entender que uma carteira equilibrada não foca apenas em um tipo de ativo. É preciso “distribuir os ovos em mais cestas”, como estratégia de defesa e diversificação, equilibrando o desempenho dos ativos.

Como o Copom define a Selic?

A principal função do Copom é realizar uma avaliação do cenário macroeconômico do país e os principais riscos a ele associados.

É com base nessas avaliações que são tomadas as decisões de política monetária.

Além de definir a Selic, desde 1999 o Copom também é responsável por acompanhar o cumprimento das metas de inflação definidas pelo Conselho Monetário Nacional.

Vale lembrar que o Copom não pode aumentar ou diminuir a taxa Selic sem que, para isso, exista uma justificativa pautada na tendência do cenário econômico e no mercado brasileiros.

Na realidade, as variações na Selic tendem a acompanhar as variações de um outro índice, o IPCA, que é o indicador base da inflação no país.

Nesse sentido, diante de um cenário em que a inflação esteja controlada, a tendência da taxa Selic é cair.

Já nos momentos em que há um aumento na inflação, a Selic normalmente sobe para ajudar no controle do mercado.

Atualmente, além da inflação, outro tema bastante recorrente nas atas do Copom era o risco de o governo não obedecer ao teto de gastos, ameaça que já foi parcialmente contida com a aprovação com vetos do Orçamento de 2021 – suscetível a críticas, mas dentro do teto.

Para o mercado, duas novas ameaças à austeridade são a pandemia, que pode justificar gastos descontrolados além do teto, e a corrida eleitoral de 2022, que pode fazer o governo tomar decisões eleitoreiras, gastando mais do que deveria – especialmente em uma eleição que promete ser muito polarizada, com o retorno de Luiz Inácio Lula da Silva ao cenário.

Como são as reuniões

As decisões do Copom são tomadas de 45 em 45 dias, em uma reunião que se estende por dois dias.

No primeiro dia, os chefes dos departamentos apresentam uma análise técnica de conjuntura do país. Essa análise envolve uma série de pontos importantes, tais como:

  • Inflação;
  • Nível de atividade;
  • Evolução dos agregados monetários, finanças públicas;
  • Balanço de pagamentos;
  • Economia internacional;
  • Mercado de câmbio;
  • Reservas internacionais;
  • Mercado monetário; e
  • Operações de mercado aberto e expectativas gerais para variáveis macroeconômicas.

Já no segundo dia da reunião, os diretores de política monetária e de política econômica, após análise das projeções atualizadas para a inflação, apresentam alternativas para a taxa Selic e fazem recomendações acerca da política monetária.

Depois dessas avaliações feitas pelos diretores citados acima, os demais membros fazem suas ponderações e apresentam eventuais propostas alternativas.

Ao final desse debate é que ocorre a votação das propostas, em que se busca o consenso sempre que possível.

Essa votação leva em consideração a maioria simples dos presentes, ou seja, para que uma proposta seja aceita, a maior parte dos membros presentes devem concordar com ela.

Além disso, em caso de empate, é o presidente do Copom  que irá proferir o chamado “voto de qualidade”, que é o voto de desempate.

As decisões emanadas do Copom devem ser publicadas por meio de comunicado do diretor de política monetária e esse comunicado deve acontecer no segundo dia, a partir das 18h, imediatamente após o término da reunião.

A taxa de juros fixada na reunião será a meta para a taxa Selic, que irá vigorar durante todo o período entre uma reunião ordinária e outra.

A ata dessa reunião geralmente é publicada na terça-feira imediatamente posterior à reunião.

O disse o Copom na ata da última reunião?

Em ata divulgada dia 22 de junho, o comitê afirmou que espera, para a reunião de agosto, outro reajuste de mesma magnitude (0,75 ponto porcentual). No entanto, enfatizou que não descarta um “ajuste mais tempestivo”.

Segundo o Comitê, o ajuste tempestivo teria duas vantagens: a de acumular mais informações sobre os determinantes da inflação e deixar claro que há transparência nas divulgações do Copom, mas que os passos futuros da política monetária são livremente ajustados para manter a inflação dentro da meta, conforme novas informações se tornam disponíveis.

“As informações obtidas no período entre as reuniões do Copom modificam as hipóteses presentes no cenário básico e no balanço de risco, e naturalmente alteram a trajetória futura dos juros”, salienta a ata.

Um ajuste maior do que 0,75 ponto porcentual virá, afirma o Copom, se houver deterioração das expectativas de inflação para o horizonte relevante. “O Comitê ressalta que essa avaliação também dependerá da evolução da atividade econômica, do balanço de riscos e de como esses fatores afetam as projeções de inflação”.

Reafirmou ainda sua intenção de zerar os estímulos até o final do ano. O que significa levar a Selic a pelo menos 6,5%, o que já foi ultrapassado pelas projeções do Focus.

Ambiente segue desafiador para emergentes

O Copom salientou ainda que existe incerteza quanto à escalada inflacionária nos demais países, o que pode tornar o ambiente desafiador para emergentes.

O Comitê destaca que acompanha de perto o comportamento do preço das commodities e também o prolongamento dos programas em resposta à pandemia, que podem elevar os prêmios de risco do país.

“Apesar da melhora recente nos indicadores de sustentabilidade da dívida pública, o risco fiscal elevado segue criando uma assimetria altista no balanço de riscos, ou seja, com trajetórias para a inflação acima do projetado no horizonte relevante para a política monetária”.

Já em relação à atividade econômica brasileira, apesar da intensidade da segunda onda da pandemia, os indicadores recentes continuam mostrando evolução mais positiva do que o esperado, implicando revisões relevantes nas projeções de crescimento. “Os riscos para a recuperação econômica reduziram-se significativamente”, afirmou o comitê.