BTG (BPAC11): falta de clareza estratégica da Marfrig (MRFG3) preocupa o mercado

Victória Anhesini
Jornalista formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie
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Crédito: Marfrig

As ações da Marfrig (MRFG3) caíram 3,16% nesta segunda-feira (24), perto das 15h30. A queda retorna, em parte, as fortes altas da última semana depois da confirmação da compra de 24,23% do capital da BRF (BRFS3), cujos papéis também caíram, a 2,79%.

Em relatório, o BTG Pactual (BPAC11) ressalta que houve rumores sobre uma renegociação da fusão entre as empresas.

Conforme o BTG, algumas reportagens noticiaram imediatamente que suas fontes negaram os rumores.

Isso acontece, supostamente, pelos mesmos motivos que impediram exatamente esse mesmo negócio de acontecer há dois anos. A Marfrig e a BRF não conseguiram chegar a um acordo sobre os procedimentos de governança corporativa da empresa combinada.

Em uma reviravolta inesperada, a Marfrig anunciou na última sexta-feira que vem comprando ações da BRF de forma agressiva no mercado. A companhia chegou a atingir até 24,23% do total de ações ao final da semana.

De acordo com o relatório, para a Marfrig, o fato de que a aquisição poderia significar pouco para sua alavancagem devido às fortes margens nos Estados Unidos (aumento de 0,5x no Ebitda dos últimos 12 meses) é uma boa notícia.

Balanço forte

Ou seja, a Marfrig não está sacrificando seu balanço forte além da capacidade da empresa. Ou, que pelo menos continua muito confiante na sustentabilidade desses resultados.

Entretanto, a falta de clareza estratégica quanto ao rumo que a empresa está tomando agora é um motivo de preocupação.

A situação pode parecer particularmente preocupante se as margens da carne bovina dos Estados Unidos começarem a se normalizar, conforme os analistas do BTG Pactual.

Quanto à BRF, apenas a possibilidade de uma nova rodada de disputa de acionistas e/ou mudanças estratégicas deve ser vista como negativa. Outra questão que surgirá é como os minoritários ficarão caso uma fusão aconteça.

Mandato do Conselho de Administração da BRF

O atual Conselho de Administração da BRF, lembra a BTG, foi eleito em abril de 2020 para um mandato fixo de dois anos, de acordo com o estatuto social da BRF.

“Portanto, nosso entendimento é de que qualquer mudança antes disso, não importa o tamanho do acionista, exigiria que uma assembleia geral fosse convocada para votar sobre a destituição dos membros do conselho.”

Prossegue o BTG: “E embora a Marfrig tenha descartado a possibilidade de implementar mudanças de curto prazo na BRF, acreditamos que isso seja questão de tempo. Ao longo dos anos, a Marfrig expandiu seus negócios em muitas direções diferentes: Seara, Moy Park, Keystone e National Beef, para citar alguns.”

Em todas as ocasiões, a Marfrig optou por deter uma participação majoritária que lhe confere um controle significativo sobre as operações. “Portanto, com base no perfil e histórico da Marfrig, e sabendo de sua tentativa anterior de fundir as duas empresas, esperamos que a Marfrig de alguma forma coloque o pé no conselho durante a eleição do conselho do próximo ano e gradualmente comece a implementar sua própria agenda.”

Operação pode ter mais desdobramentos

A questão chave, de acordo com a BTG, é obviamente o que vem a seguir. O estatuto social da BRF estabelece que qualquer acionista que adquira uma participação de 33,3% ou mais deve lançar uma oferta pública (OPA) para a compra de todas as ações remanescentes, com ágio de 40% sobre o preço médio das ações dos 30 ou 120 dias anteriores, o que for maior.

“Nosso entendimento é de que a assinatura de um acordo de acionistas que leve a uma posição consolidada acima desse limite também acionaria uma OPA, o que provavelmente limita a extensão de qualquer associação formal entre a Marfrig e outros grandes acionistas da BRF. E mesmo para a Marfrig, uma oferta pública de aquisição da totalidade das ações da BRF seria muito grande.

Portanto, diz o relatório do banco, “o raciocínio mais claro que vemos é que a Marfrig de o primeiro passo na BRF e comece a trabalhar em direção a uma integração mais profunda que acabaria resultando em uma fusão. Embora permaneçamos céticos sobre as sinergias operacionais relevantes, acreditamos que o portfólio mais diversificado de produtos e geografias da NewCo deve permitir ganhos financeiros por meio de redução adicional do custo de capital.”

Mas, sem uma integração comercial adequada, os benefícios da transação para os acionistas da Marfrig ou da BRF são difíceis de avaliar, lembra o BTG.