Barsi: tal pai, tal filha; a educação financeira no centro do convívio familiar

Fernando Augusto Lopes
Redator e editor
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Crédito: Reprodução/Facebook

“Sem trabalhar, sentado nesta cadeira, a Eletrobras me dá o equivalente a R$ 300 mil por mês. Um salário bem razoável”, brincou, em recente entrevista à CNN, o aclamado maior investidor pessoa física da Bolsa de Valores brasileira, Luiz Barsi Filho.

Ele é nasceu em março de 1939. Ou seja, hoje ostenta a experiência de 82 anos. Mas, ao contrário da brincadeira, ela ainda dá expediente no centro de São Paulo. Com uma fortuna estimada em R$ 2 bilhões, Barsi construiu seu patrimônio com uma estratégia baseada em dividendos. Hoje, é chamado de “O Rei dos Dividendos”.

Nesse Dia dos Pais, porém, o bilionário pode comemorar olhando para sua maior fortuna, seus filhos. Os quatro mais velhos, do primeiro casamento, não trabalham no mercado financeiro, mas a caçula, Louise Barsi, que em 2021 ostenta uma sólida carreira, ao 26 anos, segue os passos do pai – e além: ensina os métodos do pai.

Barsi do zero

Ao contrário de outros bilionários brasileiros, que herdaram suas fortunas ou os negócios da família, Barsi começou do zero. Perdeu o pai, um imigrante italiano, quando tinha apenas um ano de idade. Foi criado pela mãe, imigrante espanhola, em um cortiço, no bairro do Brás, em São Paulo.

Para ajudar em casa, foi engraxate aos 7 anos e vendeu balas no cinema. Aos 14, começou a trabalhar em uma corretora de valores e se interessou pelo universo dos investimentos. Tornou-se técnico em contabilidade, depois se formou em Direito e em Economia.

Foi na década de 1970, às vésperas de se tornar economista, que Barsi criou o método que anos depois o tornaria bilionário: “carteira previdenciária de ações”.

Estratégia

A estratégia passa longe da aposta no sobe e desce das ações para aumento do capital. Sua aposta era na perenidade e no longo prazo.

Barsi criou um método aparentemente simples, mas que exigia paciência: comprar mil ações de uma mesma empresa mensalmente durante 30 anos.

A partir do oitavo mês, de acordo com o economista, os dividendos recebidos são suficientes para reinvestir e não é mais necessário tirar dinheiro do bolso.

“É investir em bons projetos, é uma parceria de longo prazo, você se torna um pequeno dono dessas empresas”, comentou, ao site da revista Exame.

Naquela entrevista à CNN Brasil, Barsi afirmou que, depois de 10 anos de “paciência e disciplina” seguindo essa fórmula, estava aposentado. “Não como desejava, mas já não precisava mais trabalhar”.

A herdeira Barsi

Louise é a maior defensora das ideias do pai, por mais controversas que pareçam aos olhos de quem acompanha o mercado financeiro.

Ela explica que, para que a estratégia funcione, não basta “não vender e ponto final”. É necessário seguir as companhias de perto, estudar seus balanços, participar das teleconferências com acionistas. É trabalho persistente e constante.

“O investidor tem que se sentir confortável. Será que ele consegue acompanhar três empresas ao mesmo tempo? Enquanto não ganha uma musculatura, pode acompanhar só uma. Quando já tem frequência, pode se aventurar por mares nunca antes navegados”, aconselhou.

“Se você investe R$ 500 em 20 empresas, não ganha nem com a valorização dos papéis, nem com os dividendos”, complementou a herdeira.

Há uma lição que Louise parece ter compreendido perfeitamente. Questionado sobre o que muitos especialistas em mercado financeiro costumam falar sobre diversificação, Barsi foi categórico: “todo mundo fala que é necessário pulverizar, aí o Barsi vai falar para você: todo mundo está errado, porque todo mundo não chegou aonde eu cheguei. Eles não chegaram porque não fizeram o que eu fiz, fizeram o que eles fazem”.

Tal pai, tal filha

Ela é como o pai, defende os métodos do pai, e ensina os métodos do pai.

Além de fazer parte do conselho de administração da Eternit (ETER3) e dos conselhos fiscais da Klabin (KLBN11), do Santander (SANB11) e da AES Brasil (AESB3), Lousie, ao lado de dois sócios, toca a AGF (Ações Garantem Futuro), projeto para ajudar novos investidores a trabalharem com dividendos. O nome do projeto é o mesmo do livro em que o pai publicou seu método pela primeira vez, em 1972.

“Sempre pensem no longo prazo. Vai ajudar a mitigar muitos dos riscos”, disse Louise.

Pai e filha acreditam que existem dois tipos de investidores na bolsa: os órfãos da renda fixa, que agora está rendendo bem menos, por conta da baixa Selic (que na reunião do Copom de agosto de 2021, foi a 5,25% ao ano), e os que acharam que já perderam muito tempo.

“Ambos vêm buscando enriquecimento rápido, mas não é assim que funciona”, lembrou Lousie. “A gente experimentou um pouquinho disso [retorno rápido] agora na pandemia. A maioria das pessoas ganhou dinheiro, mas será que fizeram direito ou foi sorte? É perigoso pensar que no curto prazo terá ganhos de 50%, 100%. Quanto mais longevo for seu pensamento, maior a chance de retorno consistente”.

Barsi diz ter na carteira ações compradas há 50 anos. Entre elas estão as do Banco do Brasil (BBAS3), do qual é o maior acionista individual. Também têm participação nas empresas de papel e celulose Klabin (KLBN11) e Suzano (SUZB3), no Grupo Ultra (UGPA3), Itaúsa (ITSA4, holding que controla o Itaú), na concessionária Transmissão Paulista, na fabricante de materiais de construção Eternit (ETER3), e nas químicas Unipar Carbocloro (UNIP6) e Braskem (BRKM5).

“Eu fico comprando, nunca vendo”, reforçou Barsi, o pai. “Tenho ações do Banco do Brasil que comprei em 1972, por 60 centavos, e nunca mais vendi. Foi assim que virei o maior acionista pessoa física do banco, coisa que nem imaginava”.

Dividendos são a chave

“Eu me dei conta de que o empresário, dono de uma empresa de capital aberto, vai sempre ter uma aposentadoria”, disse Barsi. “Isso porque, além de seu trabalho, vai sempre ter um rendimento do negócio dele chamado dividendo”.

Barsi afirma que nem fica acompanhando o Ibovespa: “e não dou nenhum valor para o patrimônio, patrimônio não te alimenta. O que te alimenta é o dividendo, a renda que esse patrimônio gera, e é para isso que eu olho. O meu DNA é dividendo”, completou.

“Já tive R$ 3 bilhões, mas também já tive R$ 500 milhões. Não faço a conta”, afirmou, assegurando que não sabe quanto é seu patrimônio, mas se interessa muito pelos dividendos pagos pelas empresas em que investe dinheiro.

Barsi definitivamente não é o típico bilionário extravagante.

Pai e filha na Money Week

Na quarta edição da Money Week, que aconteceu entre os dias 24 e 28 de maio, pai e filha deram uma palestra com o título de “De pai para filha: educação financeira começa dentro de casa”.

Em meio a grandes nomes do mundo dos investimentos, com mais de 90 palestrantes, a dupla familiar ofereceu uma história que gostariam de ver se espalhar em outras famílias pelo Brasil.

“É importante que os jovens entendam, desde cedo, o valor do dinheiro. A lição que eu tive ao receber uma carteira [de ações] aos 14 anos, e não simplesmente R$ 300, foi de entender o organismo que é uma empresa, que gera empregos, movimenta a economia”, comentou Louise.

“É preciso ensinar a criança e o jovem que o dinheiro não cai do céu. Ele vem através do trabalho. Nesse caso, não do meu efetivamente, mas da empresa da qual eu era sócia. Entregar simplesmente o dinheiro na mão da criança pode não passar essa mensagem”, completou ela.

Nesse Dia dos Pais, é realmente uma lição para se levar em conta.