Weintraub só pedirá desculpas à China em troca da venda de respiradores

Fernando Augusto Lopes
Redator e editor

Crédito: Abraham Weintraub Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O ministro da Educação, Abraham Weintraub (sem partido), disse nesta segunda-feira (6) que condiciona um pedido de desculpas ao governo chinês, se os asiáticos venderem ao Brasil mil respiradores a preço de custo. O ministro esteve no programa de José Luiz Datena (MDB-SP), na Rádio Bandeirantes, e negou ter sido preconceituoso com o povo chinês.

No final de semana, Weintraub publicou no Twitter insinuações de que a China poderia se beneficiar, de propósito, da crise mundial causada pelo coronavírus.

O post do ministro imitava a fala do personagem Cebolinha, da Turma da Mônica, que troca a letra “R” pela “L”.

O ministro ridicularizou o fato de alguns chineses, quando falam português, efetuarem a mesma troca de letras e indicou que na pandemia a China havia sido a maior beneficiada.

“Geopoliticamente, quem podeLá saiL foLtalecido, em teLmos Lelativos, dessa cLise mundial? PodeLia seL o Cebolinha? Quem são os aliados no BLasil do plano infalível do Cebolinha paLa dominaL o mundo? SeLia o Cascão ou há mais amiguinhos?”, bricou, na rede social.

Os chineses tiveram 82.665 casos confirmados, 3.335 mortos e só agora, depois de três meses, estão flexibilizando as duras medidas de isolamento social impostas no país.

Pedido de desculpas condicionado

“Dado que a Embaixada chinesa ficou tão ofendida, e eu sei como é a negociação dos chineses, esse processo cultural, ‘estou extremamente ofendido, venha pedir desculpas de joelhos aqui’, (…) eu vou fazer o seguinte, meu acordo: eu vou lá, eu peço desculpas, peço ‘por favor, me perdoem pela minha imbecilidade'”, disse no programa.

“A única coisa que eu peço é que dos 60 mil respiradores que estão disponíveis, eles vendam mil para o MEC, para salvar vida de brasileiros, pelo preço de custo. Manda a embaixada colocar aqui nos meus hospitais, e eu vou lá à Embaixada e falo ‘eu sou um idiota, me desculpem'”, continuou.

Quanto ao publicado no Twitter, especificamente, Weintraub negou que tenha cunho preconceituoso e afirmou que ele não é racista.

“Não acho que foi um post tão pesado. Não xinguei nenhum chinês. Tenho um monte de amigos chineses e conheço a cultura chinesa. Falar que eu sou racista é uma acusação que, se fosse um brasileiro, ia ter que provar na justiça, exatamente como alguns chamaram e vão ter que provar, porque é uma acusação grave”, se esquivou

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Mais acusações

Waintraub seguiu jogando a culpa no governo chinês: “o governo da república chinesa, aonde começou o coronavírus, poderia ter alertado o mundo inteiro que ia faltar respirador. Que nós teríamos 3 meses para fazer respirador. Isso não foi feito. Agora, que estamos desesperados correndo atrás de respirador, o que é que acontece? Aparece 60 mil respiradores na China e eles estão leiloando. Aparece um monte de equipamento, de proteção, de máscara, e eles estão leiloando. Então, assim, teve tempo deles se prepararem para vender para o mundo, pelo preço mais alto, respirador e máscara”.

Weintraub lembrou que o ministério da Educação é responsável por todos os hospitais universitários do Brasil.

China vai comprar soja dos EUA

A coluna de Nelson de Sá, na Folha de São Paulo, publicou nesta segunda-feira (6), uma notícia que não foi declarada oficialmente pela China como uma resposta às atitudes de Weintraub e do governo brasileiro. Vai comprar soja dos Estados Unidos por achar mais “seguro”.

O diário “Xin Jing Bao cobriu no sábado (4) a coletiva sobre ‘segurança e suprimento alimentar’ de um diretor do ministério chinês da agricultura, convocada porque ‘muitas pessoas se preocupam que a soja importada do Brasil venha a ser afetada'”, escreveu.

“Wei Baigang (membro do ministério da Agricultura chinesa) afirmou que ‘as importações do Brasil não foram afetadas em março, e as importações dos EUA devem crescer’, agora que ‘a primeira fase do acordo comercial sino-americano foi implementada'”, seguiu.

Informou ainda que “a agência de notícias chinesa Xinhua, em levantamento que envolveu 13 correspondentes na América Latina, ressalta que o total de casos de coronavírus na região está em 30 mil, sendo mais de um terço no Brasil, muito à frente de Chile e Equador – que por sua vez se apartaram dos demais”.

Para eles, o Brasil teve uma reação muito lenta à crise.

E ainda destacou a ironia do tabloide Huanqiu/Global Times, mostrando que, “em meio à escalada dos números, ‘Presidente brasileiro convoca jejum para se livrar do pecado’. Mas o tom sobre o país na cobertura chinesa é, de modo geral, sombrio”.

Ainda disse que os brasileiros podem enfrentar três epidemias ao mesmo tempo, acrescentando dengue e gripe.

Respiradores e máscaras

Não só a China. A Argentina também bloqueou a exportação de mil respiradores comprados pelo ministério da Saúde do Brasil.

Os equipamentos era para instalação em leitos de UTI nos estados para combate ao coronavírus, disse o secretário-executivo do Ministério da Saúde, João Gabbardo.

“Argentina fez o que também fizemos (bloquear exportações). Não é uma crítica. Fechou porque ela vai precisar”, disse Gabbardo.

Com a demanda por respiradores e máscaras cada vez maior, os Estados Unidos causaram uma polêmica mundial, ao praticar o que os alemães chamaram de “pirataria moderna”. Autoridades da França e da Alemanha afirmaram que os EUA estão pagando valores muito acima do preço do mercado para comprar máscaras médicas da China, maior produtora do mundo.

“Em alguns casos, eles estariam ‘roubando’ contratos ao oferecer valores mais altos, mesmo depois de compradores europeus acreditarem que a compra já estava acertada, ou inclusive já terem pago por ela. Casos semelhantes ocorreram no Brasil nesta semana”, informa o Portal Terra.

“Uma carga de 600 respiradores artificiais chineses, que seriam distribuídos entre os estados da Bahia e do Ceará, ficou retida no aeroporto de Miami durante uma conexão aérea antes de ser enviada ao Brasil, informaram autoridades estaduais nesta sexta-feira (03/04)”, conta o portal.

Nessa guerra, talvez nem o pedido de desculpas irônico do ministro Weintraub seja suficiente.

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