Visão do Gestor: Banco Central fez o movimento certo ao elevar Selic, mas futuro é incerto

Ronaldo Araújo
Engenheiro e Agente Autônomo de Investimentos, hoje me dedico a divulgar ensinamentos sobre como funciona a Previdência Privada. Acredito que com mais conhecimento é possível fazer melhores escolhas para a formação do patrimônio de longo prazo. Para saber mais acesse www.ronaldoaraujo.com.br
1

A alta da taxa de juros promovida pelo Banco Central nesta quarta-feira (27) trouxe mais discussão sobre o mercado de juros no Brasil e a alta da inflação.

Para analisar melhor o tema, Ettore Marchetti, sócio daEQI Investimentos, conversou com Pedro Dreux, gestor da estratégia macro dos fundos multimercados da Occam Investimentos, e com Bruno Cordeiro, sócio-diretor da Kapitalo Investimentos. Acompanhe o bate-papo, que faz parte da programação da Money Week, evento online e gratuito que segue até sexta-feira (29).

Praticidade e precisão, saiba quais melhores investimentos e como melhorar rentabilidade de suas ações

Para onde vai a Selic afinal de contas?

Para Pedro Dreux, a decisão de elevar a Selic, taxa básica de juros a 7,75% ao ano foi acertada. “O BC fez a coisa certa, apesar de ficar atrasado em relação à alta de juros. Já houve compromisso com uma nova alta, sem perspectiva para o fim do movimento. O próprio mercado já está precificando a Selic com dois dígitos e fica difícil precisar qual seria o valor final. Já prevíamos isso desde março, por conta da deterioração fiscal. Em termos práticos, o teto de gasto não existe mais, apesar de existir no papel.”

Ele continua: “Podemos afirmar que não temos mais regime fiscal e isso acaba sendo um passo atrás em um ciclo virtuoso que existia desde 2016. A perda da âncora fiscal perdida enseja em um afrouxo da política fiscal. Em algum momento, o provável é que a meta de 5% não seja alcançada em 2022. Será difícil a vida do BC para abandonar esse ciclo de alta”.

Já Bruno Cordeiro pondera que falar dos números em períodos pré-eleitorais é muito difícil, e os micro números mostram que o cenário não é positivo.

“A popularidade do atual governo vem caindo e a inflação alta com crescimento baixo é um cenário bem difícil. Sendo assim, a raiz das discussões provavelmente serão os aspectos fiscais. Está cedo para os mercados dizerem que não farão financiamento, mas é provável que isso aconteça”, acredita.

Nesses casos, ele diz, o Banco Central acaba por virar um “passageiro da situação”.

“Vê-se pouca vontade política de endereçar esse problema e os ativos brasileiros terão dificuldades em performar bem com o cenário atual. É difícil acertar o valor da Selic, mas é provável que o movimento será ascendente ainda em 2022, talvez chegando a dois dígitos. Aqui na gestora, estamos nos concentrando em estratégias offshore. No Brasil, a aposta é no prêmio da curva de juros, pois o cenário de juros altos só se materializa. Por isso, vale a pena continuar”, afirma Bruno.

Visão do gestor: para onde vão os juros internacionais?

Pedro Dreux pensa da seguinte forma: “Estamos migrando o risco para o exterior, por conta do movimento que está acontecendo. Assim, estamos com 80% do patrimônio da gestora alocado internacionalmente. A demanda está forte, mais do que o mercado pode entregar e isso é um limitador da atividade econômica no curto prazo”.

As atividades não crescem tanto, ele diz, e a inflação já é preocupante. “A Alemanha, por exemplo, está com inflação de 4% e esse cenário nos traz preocupação, porque é uma questão mundial. A dúvida persiste e é normal, mas muitos países não aguentarão o tranco. A pandemia está revelando quem estava com a razão, pois muitos cenários não se concretizaram. Alguns acham que isso dura até 2023 e o momento é de ter humildade em qualquer prognóstico”.

E acrescenta: “A preocupação continua, pois o cenário é incerto. Achamos que isso não se resolve tão cedo, pois há escassez em praticamente todas as áreas, como logística, comida e eletrônicos. O que anima nossa equipe é o Beige Book (livro bege) do Federal Reserve (Fed, banco central americano), um relatório sobre a economia americana. Em janeiro, pensou-se que os problemas de oferta acabariam em 2021 e as precisões não se confirmaram. As dúvidas pairam na cabeça de todos”.

Por fim, ele revela que todo o portfólio da gestora foi reposicionado, inclusive em bolsa. “Expandimos as posições tomadas em juros, pois captamos vários movimentos bons ao redor do mundo. Na margem, aumentamos as posições nos EUA em relação aos outros países. É pouco provável a antecipação da curva de juros, mas se o mercado sentir que isso vai acontecer, haverá forte movimento”.

Visão do gestor: como o investidor posicionado em bolsa no exterior deve agir?

Sobres este tema, Bruno Cordeiro diz que há surpresa com a resiliência da inflação. “No final das contas o que interessa para nós é qual país vai resistir a esse movimento. Duas coisas são interessantes nisso, a primeira é que o juro real de longo prazo está fechando nos EUA. Novas mínimas do ciclo foram feitas hoje e isso é impressionante. Os BC’s dizem que estão reagindo e isso não se discutia três meses atrás. É óbvio que isso não afeta o mercado de ações”.

Outro ponto, ele diz, é o período de divulgações de resultados do terceiro trimestre de 2021 e os resultados estão sendo bons, ou seja, o mercado está reagindo bem. “Achamos que vamos entrar em um ambiente de forte demanda, sendo propício a um aumento na taxa de juros. O que nos preocupa é em relação ao mercado de real estate na China, pois está sendo induzida uma desaceleração muito forte”.

Cordeiro complementa: “Por outro lado, os EUA estão retirando liquidez. Será, portanto, um ambiente difícil de atravessar, porque são duas economias importantes no mundo. Estamos muito tomados em juros norte-americano, mas pouco presentes na bolsa dos EUA. As divulgações são boas, mas estamos cautelosos aqui, pois o passivo dos juros continuará pressionando para cima. Alguns setores podem se beneficiar disso, como energia e empresas que comercializam commodities”.

Como escolher bons investimentos em moedas?

Pedro Dreux é muito claro: o mercado está desafiador há muito tempo e há dificuldade de definir os movimentos em moedas.

“Olhando para frente, a questão do fiscal é importante, pois ele está ruim ou péssimo atualmente. Se o mercado perceber que o risco pode subir, o mercado não ficará mais tão passivo assim. Se o mercado entender que o mercado de juro real pode ser mais baixo, será difícil o dólar se fortalecer”.

Como o mercado de commodities deve se comportar daqui para frente?

A resposta vem de Bruno Cordeiro: não existe estoque de nada hoje e esse é um ambiente muito vulnerável. Qualquer choque de demanda causa uma grande aceleração de preços. Com o gás foi a mesma coisa no meio desse ano. Óleo é uma questão mais induzida por conta da Opep.

“Vemos esse ciclo um pouco mais longo. Com a desaceleração da China alguns metais básicos tendem a se equilibrar e o ciclo de preço deve continuar alto por algum tempo. O único vetor que joga contra é justamente essa desaceleração da China”, finaliza.