Empresários do varejo ameaçam demitir 600 mil se isolamento for mantido

Felipe Moreira
Especialista em Mercado de Capitais e Derivativos pela PUC - Minas, com mais de 8 anos de vivência no mercado financeiro e de capitais. Certificações: CPA-10, CPA-20 e AAI. Apaixonado por educação financeira e investimentos.
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Crédito: Reprodução/Pixabay

Gigantes do varejo brasileiro, um dos segmentos mais impactados pela pandemia de covid-19, estão pressionando o presidente Jair Bolsonaro, avisando que irão demitir um terço de seus funcionários caso as lojas não voltem a funcionar até meados do próximo mês, conforme informou a reportagem da Folha de S.Paulo.

O setor é responsável por empregar aproximadamente 9,1 milhões de pessoas, o equivalente a 23,5% dos trabalhadores com carteira assinada do país. Os grandes varejistas abarcam 1,8 milhão de trabalhadores, 20% do total.

De acordo com executivos, as demissões totalizariam ao em torno de 600 mil empregos. Vale lembrar que no ano passado foram criados 644 mil empregos formais no Brasil, conforme o Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados).

Por mais que as empresas afirmem estar trabalhando para manter os postos de trabalhos e seguir recomendações das autoridades de saúde, as companhias vem conversando com o presidente e o ministro da Economia para que seja adotado um modelo parecido com o da Coreia do Sul.

Parte dos sul-coreanos foi liberada para o trabalho após o país assegurar que não aconteceria uma nova fase de contaminação.

Liderados pelos donos da Riachuelo e da Magazine Luiza, Flávio Rocha e Luiza Trajano, respectivamente, os grandes varejistas estão preocupados com os impactos do isolamento prolongado na cadeia de suprimentos.

“Uma empresa do porte da nossa tem estrutura de capital e caixa para atravessar este momento sem precisar demitir”, afirmou à Folha de S.Paulo Rocha, dono da Riachuelo.

“Estamos empenhados em seguir as orientações, mas aguardamos uma retomada o mais breve possível.”

Segundo o Flávio Rocha, sua rede enfrenta uma redução de mais de 90% nas vendas.

“Demitir será o último recurso”, disse.

Rocha recomenda que o Brasil implemente o modelo de Nova York, no qual o estado realizou testes maciços na população para acabar com o isolamento social.

Mas, os varejistas não apresentaram formas de arcar com os custos dos testes em massa.

Segundo a Folha de S.Paulo, não se sabe se o governo terá recursos para fazer testes na população economicamente ativa, algo que, para os varejistas, poderia ser mais vantajoso do que lidar com uma recessão.

“Estamos vivendo um pandemônio”, afirmou Marcelo Silva, presidente do IDV (Instituto para o Desenvolvimento do Varejo), que representa os 30 mil maiores varejistas do Brasil e 200 centros de distribuição.

“Há locais a que os distribuidores já não conseguem chegar por restrições de circulação, e isso afeta o abastecimento de supermercados e farmácias que estão funcionando.”

Para o dirigente é necessário “sincronizar as medidas” para evitar o exagero.

Silva afirmou à Folha de São Paulo que as demissões já iniciaram nas pequenas e médias. “Por enquanto, a recomendação do instituto para seus associados é negociar ao máximo antecipação de férias, redução de jornada, e home office para evitar uma recessão.”

Abilio Diniz, fundador do Pão de Açúcar e hoje principal acionista da rede de supermercados Carrefour, conservou com Guedes “sobre a necessidade de colocar muito dinheiro na retomada”, conforme informou à reportagem da Folha de S.Paulo.

O setor de varejo enviou ao ministério da Economia uma série de demandas para conseguir sobreviver à crise. “Boa parte foi acolhida pelo governo com a medida provisória que flexibilizou as regras trabalhistas”, afirmou Silva, do IDV. “Mas o que realmente vai fazer a diferença são as medidas tributárias.”

“Não adianta o governo injetar liquidez na praça, dando linhas de crédito, tudo mais, e, na outra ponta, continuar com o aspirador de pó gigante dos tributos dragando os recursos. Isso não resolve”, afirmou Rocha.

Apesar do pleito, o ministro da Economia resiste à postergação do pagamento de impostos.

Diante do agravamento da crise, que levou o FMI (Fundo Monetário Internacional) a rever para baixo as projeções de crescimento da economia mundial, Guedes se fechou à proposta, segundo assessores.

A medida que o vírus foi se propagando a previsão para o PIB ficou mais realista, chegando a uma taxa de crescimento de 0,02%. Técnicos da equipe econômica não descartam uma nova recessão no segundo semestre, segundo a Folha de S.Paulo.

Apesar da injeção de liquidez no sistema financeiro, os bancos estão aumento suas taxas, principalmente em operações de curto prazo. Sendo assim, o crédito irá para as grandes companhias, justamente às que possuem maior arsenal para enfrentar a crise.

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