Vale perde quase R$ 70 bilhões em valor de mercado e ações caem mais de 20%

Inevitavelmente, a atenção dos investidores – não só brasileiros – está voltada para a tragédia na cidade de Brumadinho (MG), depois de um fim de semana prolongado pelo feriado de aniversário de São Paulo, que manteve a bolsa de valores brasileira fechada na última sexta-feira (25).

Patrícia Auth
Patrícia Auth é jornalista formada pela Univali de Itajaí/SC. Trabalhou em impressos, como o Jornal de Santa Catarina, e também, como repórter na Rede Record e RBS TV. É casada, mãe da Lívia e adoradora de boa música e gastronomia.Na equipe EuQueroInvestir, é responsável pela produção de vídeos, e também escreve e edita artigos para o site.Entre em contato com a Patrícia pelo e-mail: patricia.auth@euqueroinvestir.com

Crédito: Crédito da imagem: Presidência da Republica/Divulgação - Agência Brasil

Crédito da Imagem: Nilton Fukuda/AE

O rompimento da barragem de rejeitos de mineração da Vale, que deixou um rastro de destruição no meio ambiente e dezenas de pessoas mortas, fez as ações da mineradora caírem mais de 23% com a abertura do pregão nos Estados Unidos. Tal queda já representa uma perda de R$ 69,38 bilhões em valor de mercado para a mineradora.

No início da tarde desta segunda-feira (28), cada ação da Vale valia em média R$ 43 reais. Queda maior do que a registrada em 2015, quando ocorreu o desastre semelhante na cidade de Mariana (MG). Na época, as ações da mineradora tiveram queda de 7,5%.

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A Vale tem grande participação no Ibovespa. Sendo assim, no início da tarde desta segunda-feira (28), a Vale também influenciava negativamente o desempenho do índice. Às 14h23h, o Ibovespa caía 2,17%, a 95.559 pontos, depois de ter caído à mínima de 94.783 pontos.

Segundo especialistas do mercado financeiro, o fato de o problema ser reincidente e envolver a mesma empresa, abala a confiança do investidor, que até o início da tarde desta segunda-feira (28) já era responsável por gerar um volume de transações cinco vezes maior do que em dias normais.

Mais reflexos financeiros

Se falarmos apenas dos impactos operacionais, a mina Feijão, que se rompeu, representa entre 1,5% e 2,5% da produção total de minério da Vale. Porém, as consequências judiciais do desastre tendem a ser bem maiores.

Os questionamentos sobre as causas e os culpados pelo acidente ainda são grandes. Enquanto as respostas não chegam, não para de aumentar o número de pessoas mortas com a tragédia. Até o início da tarde desta segunda-feira (28), de acordo com as equipes de resgate, havia confirmação de 60 mortos e 292 pessoas ainda desaparecidas.

Justamente por causa desse grande número de vítimas fatais – maior do que na tragédia de Mariana (MG), quando 19 pessoas morreram – é que a justiça de Minas Gerais determinou, até agora, três bloqueios de valores da Vale desde o rompimento da barragem na cidade de Brumadinho. Até o momento, a mineradora Vale terá que dispor de pelo menos R$ 11,8 bilhões para ressarcir danos e perdas de maneira geral.

Esse valor bilionário representa 48,4% de todo o caixa da Vale, ou seja, quase metade do caixa, de acordo com dados publicados pela própria mineradora em seu balaço mais recente, no terceiro trimestre do ano passado. Tal documento, na época, indicou que a Vale tinha R$ 24,4 bilhões disponíveis em caixa.

Crédito da imagem: Presidência da Republica/Divulgação – Agência Brasil

Além disso, a Vale recebeu multa do Ibama no valor de R$ 250 milhões e, também foi multada pelo estado de Minas Gerais em aproximadamente R$ 99,1 milhões. A Justiça do Trabalho do estado mineiro determinou, ainda, o bloqueio de mais de R$ 800 milhões da mineradora.

Para completar o cenário negativo, o governo de Minas Gerais solicitou a indisponibilidade de todas as ações de propriedade da Vale nas bolsas de valores de São Paulo (Bovespa), Rio de Janeiro, Nova York, Madrid e Euronext Paris. O dinheiro seria usado para as despesas envolvendo a tragédia em Brumadinho. Conforme consta no documento, o limite para o bloqueio seria de R$ 20 bilhões. Atualmente, o valor de mercado da mineradora Vale é de R$ 296 bilhões, sendo a maior empresa brasileira de capital aberto.

Vale reage suspendendo bônus e dividendos

Diante de tudo isso, nesta segunda-feira (28), a Vale anunciou que o conselho de administração da mineradora decidiu suspender o pagamento de dividendos e juros sobre o capital próprio (remuneração aos acionistas) e de remuneração variável (bônus) aos executivos da empresa.

A Vale também anunciou a criação de dois comitês independentes, “coordenados e compostos por maioria de membros externos”.

O diretor-presidente da Vale, Fabio Schvartsman, durante entrevista coletiva, sobre rompimento de barragem em Brumadinho. (Crédito da imagem: Tomaz Silva/Agência Brasil)

O primeiro será dedicado ao acompanhamento das providências destinadas à assistência às vítimas e à recuperação da área atingida pelo rompimento da barragem. E o segundo será dedicado à apuração das causas e responsabilidades pelo rompimento da barragem.

Os nomes dos integrantes dos “comitês independentes” serão indicados, entretanto, pelo conselho da Vale.

Confira a íntegra do comunicado da Vale:

“Em função do rompimento da Barragem I da Mina do Córrego do Feijão, em Brumadinho (MG), a Vale informa que o Conselho de Administração, em reunião extraordinária, no dia 27.01.2019, deliberou as seguintes medidas de governança:

Com fundamento no Art. 15, §1º do Estatuto Social, constituiu dois Comitês Independentes de Assessoramento Extraordinário (“CIAE”) ao Conselho de Administração, coordenados e compostos por maioria de membros externos, independentes, de reputação ilibada e com experiência nos temas de que se ocuparão, a serem indicadas pelo Conselho.

O primeiro Comitê Independente será dedicado ao acompanhamento das providências destinadas à assistência às vítimas e à recuperação da área atingida pelo rompimento da barragem, de modo a assegurar que serão empregados todos os recursos necessários – “CIAE de Apoio e Reparação”.

O segundo Comitê Independente será dedicado à apuração das causas e responsabilidades pelo rompimento da barragem – “CIAE de Apuração”.

Adicionalmente, deliberou as seguintes mudanças no sistema de remuneração e incentivos:

(i)A suspensão da Política de Remuneração aos Acionistas e, consequentemente, o não pagamento de dividendos e juros sobre o capital próprio, bem como qualquer outra deliberação sobre recompra de ações de sua própria emissão; e

(ii)Suspensão do pagamento de remuneração variável aos executivos.

O Conselho de Administração permanece em prontidão e acompanhando a evolução dos eventos relativos ao rompimento da barragem e tomará as medidas adicionais necessárias.”

Relembre o desempenho das ações da Vale na época da tragédia em Mariana

Em 5 de novembro de 2015 — dia em que o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, matou 19 pessoas — os papéis da Vale encerraram a sessão em queda de 2,6%. No pregão seguinte, o recuo foi maior, de 7,5%. Na época, os ativos eram negociados na casa dos R$ 15.

Com o desdobramento do caso e a responsabilização da Samarco e de suas controladoras, as ações se desvalorizaram até chegar à mínima de R$ 7,97 no dia 2 de fevereiro de 2016. Nos meses seguintes, os papéis ensaiaram uma recuperação, mas se mantiveram abaixo dos R$ 20 até o fim de 2016.

Em 2017 e 2018, os ativos seguiram se valorizando até que, em setembro de 2018, em meio à valorização da bolsa brasileira com as perspectivas eleitorais, chegaram à máxima de R$ 62,20. No pregão da última quinta-feira (24), os papéis encerraram o dia cotados a R$ 56,15, em alta de 0,89%.

Em resumo: As ações da mineradora Vale acumularam alta de 258% na B3 desde o desastre de Mariana (MG), ocorrido em novembro de 2015 após o rompimento de uma barragem da Samarco, empresa controlada pela Vale e BHP. Da mínima alcançada pelo papel, com os desdobramentos do caso, até a sessão da última quinta-feira (24), a valorização foi de 604%.

Vender as ações é o caminho?

Analistas financeiros são quase unânimes ao dizer que, é normal que o mercado “exagere” neste momento, com a queda das ações da Vale, até mesmo pela tragédia e pelo pânico dos investidores. Esse pânico, segundo os especialistas, vai gerar uma onda de vendas de ações, e fará com que elas despenquem ainda mais.

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Crédito da imagem: Nelson Almeida/AFP Photo

Porém, toda a essa fase negativa, com os bloqueios financeiros e acumulado de multas, não tendem a significar o “fim” da mineradora Vale. Portanto, se desfazer das ações de maneira desesperadora, ou, motivado pela emoção, não seria a melhor saída neste momento.

“Nós sabemos que o impacto ambiental e a dor das famílias das vítimas são incalculáveis. É horrível o que aconteceu e não podemos minimizar a tragédia de forma alguma. Mas a empresa está perdendo quase 60 bilhões de reais em valor de mercado hoje. Me parece bastante exagerada essa baixa”, disse William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue Securities, em entrevista ao Portal Exame.

Segundo Alves, o mercado deve ser, como sempre, pragmático. “O curto prazo ainda é incerto. Vamos saber somente nos próximos dias o tamanho da conta que a Vale deverá pagar pelo rompimento da barragem, com indenizações, limpeza e consertos. É algo maior do que o rompimento da barragem em Mariana (MG), mas a empresa tem condições de arcar com esse custo”.

Juliano Custódio, assessor de investimentos e CEO da EuQueroInvestir, acrescenta que, diante do ocorrido, levando em consideração apenas o lado financeiro, fica de lição para o investidor a “diversificação”. Ele explica com o exemplo abaixo.

“Supondo que as ações da Vale tenham queda 20% e você tem três ações diferentes no seu portfólio, você perde 6%, porque a Vale representa 1/3 do seu portfólio. Agora, considerando que você tem 10 ações no portfólio, com a queda de 20% das ações da Vale, seu portfólio cai apenas 2%. E assim por diante… Essa é a ideia da diversificação, o motivo de ela ser interessante, principalmente quando a gente trata de problemas que não são conjunturais, mas sim, de uma empresa só”, explica Custódio.

Fonte da notícia: Portal Infomoney, Globo.com e Portal Exame.