Valeixo: Bolsonaro queria diretor da PF com quem tivesse “afinidade”

Fernando Augusto Lopes
Redator e editor

Crédito: Reprodução / SinpecPF

O ex-diretor-geral da Polícia Federal (PF), Maurício Valeixo, disse nesta segunda-feira (11), em depoimento, que o presidente da República Jair Bolsonaro decidiu exonerá-lo para colocar no cargo alguém com quem tivesse “mais afinidade”.

A afirmação de Valeixo vai ao encontro do que foi dito pelo próprio Bolsonaro, no dia 24 de abril, logo após o ex-ministro da Justiça e Segurança Pública Sergio Moro pedir demissão: “quero um delegado, que pode não ser o seu, que pode não ser o meu, mas que eu sinta, além da competência óbvia, se bem que isso é uma coisa comum entre os delegados da Polícia Federal, que eu possa interagir com ele”.

E foi mais longe, tentando justificar a ação: “Por que não? Eu interajo com os homens de inteligência das Forças Armadas, se preciso for, eu interajo com a Abin (Agência Brasileira de Inteligência), interajo com qualquer um do governo”.

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Valeixo não pediu para sair

Valeixo ainda afirmou que, ao contrário do que foi publicado no Diário Oficial da União (DOU) do dia 24 de abril, que ele não pediu para ser exonerado. Na publicação, a exoneração foi a pedido de Valeixo, o que ele negou no depoimento de hoje.

Sua exoneração, inclusive, tinha a assinatura de Sergio Moro, que negou ter firmado qualquer documento nesse sentido, o que presume crime de falsificação. Logo depois, saiu edição extra do DOU sem a assinatura do ministro.

O próprio Bolsonaro telefonou a Valeixo avisando de sua saída. Foi uma demissão pura e simples, sem negociação, e por telefone.

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Ingerência na PF

Moro saiu do ministério acusando Bolsonaro de querer interferir politicamente na PF.

Com a acusação, o procurador-geral da República (PGR), Augusto Aras, pediu ao Supremo Tribunal Federal (STF) abertura de inquérito para apurar se houve alguma conduta criminosa do presidente ou se Moro caluniou ou prevaricou. O ministro do STF Celso de Mello aceitou o pedido.

“A dimensão dos episódios narrados revela a declaração de Ministro de Estado de atos que revelariam a prática de ilícitos, imputando a sua prática ao Presidente da República, o que, de outra sorte, poderia caracterizar igualmente o crime de denunciação caluniosa”, disse Aras.

Bolsonaro escolheu para ser o novo diretor-geral da PF Alexandre Ramagem, amigo do seu filho Carlos, vereador pelo Republicanos na cidade do Rio de Janeiro. Outro ministro do STF, Alexandre de Moraes, de maneira monocrática, sustou a posse de Ramagem, alegando que poderia haver interferência em processos em andamento contra familiares do presidente.

Então, o novo diretor-geral da Polícia Federal acabou sendo Rolando Souza, muito próximo a Ramagem. A primeira medida de Souza foi trocar o comandante da corporação no Rio de Janeiro, base eleitoral da família Bolsonaro. Carlos Henrique Oliveira, homem de Valeixo, estava no cargo e foi sacado, aumentando as suspeitas de interferência.

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Investigação

Ainda prestam depoimento à PF, em Brasília, o próprio Alexandre Ramagem, e o ex-superintendente da PF no Rio de Janeiro Ricardo Saadi, que deixou o cargo no ano passado, após Bolsonaro pressionar por sua saída.

Celso de Mello ainda ordenou oitivas dos ministros Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional), Walter Braga Netto (Casa Civil) e Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo), todos na terça-feira (12); e da deputada bolsonarista Carla Zambelli (PSL-SP), na quarta (13).

Todos foram citados por Moro, em seu depoimento à PF de Curitiba, em 2 de maio, como testemunhas de que Bolsonaro o pressionou para trocar o comando da PF, especialmente para mexer na cúpula do Rio de Janeiro.

Se Bolsonaro for denunciado pela PGR, após o fim das investigações, e a Câmara aprovar o prosseguimento, ele será afastado do cargo automaticamente por 180 dias.

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