Vale investir na BRF (BRFS3)? Saiba o que acontece com as ações

Cláudia Zucare Boscoli
Jornalista formada pela Cásper Líbero, com pós-graduação em Jornalismo Econômico pela PUC-SP, especialização em Marketing Digital pela FGV e extensão em Jornalismo Social pela Universidade de Navarra (Espanha), com passagens por IstoÉ Online, Diário de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e Editora Abril.
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Crédito: Divulgação/BRF

Do início do ano até aqui, as ações da BRF (BRFS3) registram uma queda de quase 50%. Em 2 de janeiro, o papel da empresa valia R$ 35,88. Nesta quarta(21), fechou em R$ 18,26.

Olhando para a máxima de R$ 71,55 alcançada em setembro de 2015, fica a pergunta: o que está acontecendo com a BRF? Vale a pena comprar agora, aguardando uma recuperação no longo prazo? Confira.

A queda das ações da BRF, bastante significativa, acontece justamente em um período em que houve aumento da exportação de proteína animal para a China. E também aumento no consumo interno no Brasil, devido ao maior preparo de alimentos em casa e também à ajuda financeira às famílias, com o auxílio emergencial.

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Por que então a companhia não se beneficiou desse movimento? Para o analista Luis Sales, da Guide Investimentos, apesar de a BRF estar “fazendo a lição de casa”, reestruturando sua dívida e melhorando questões de governança, a visão do mercado sobre a empresa mudou.

“A percepção anterior era de uma empresa muito mais resiliente em relação a resultados e melhor em termos de governança”, diz. Para ele, o valor da ação está subdimensionado no momento, mas isso não acontece sem razão.

BRF: turbulências societárias e Carne Fraca

Fruto da fusão entre Sadia e Perdigão, a BRF tem capital aberto, com ações negociadas tanto na bolsa brasileira quanto em Nova York.

Em 2018, a empresa foi alvo da Polícia Federal nas duas operações Carne Fraca. A maior exportadora de carne de frango do mundo foi acusada de fraudes cometidas nos laudos de salmonela em lotes para exportação. E chegou a ter plantas interditadas e a venda proibida para países da União Europeia.

Paralelamente, acionistas da empresa, como os fundos de pensão Petros e Previ e os antigos herdeiros da Sadia, passaram a pressionar pela saída de Abilio Diniz da presidência do conselho administrativo, alegando resultados insatisfatórios. Pedro Parente, recém-saído da Petrobras, assumiu em seu lugar.

“Foram dois eventos dolorosos e significativos em um espaço curto de tempo”, diz Greco Montagna, daEQI Investimentos.

“Por conta disso, a empresa teve resultados muito ruins e um endividamento grande. Parente iniciou um processo de venda de ativos, o que não foi muito significativo. Mas, pelo menos, conseguiu interromper a trajetória de crescimento da dívida”, complementa.

Montagna avalia que, hoje, há segurança maior para fazer investimento na empresa. “Um ano atrás, eu não recomendaria a compra”, diz.

No segundo trimestre, a BRF registrou um lucro líquido consolidado de R$ 307 milhões. A alavancagem líquida, medida pela dívida líquida/Ebitda ajustado, foi de 2,89 vezes, ante 3,74 vezes de um ano antes. No primeiro trimestre, a empresa teve prejuízo líquido de R$ 38 milhões.

Alta dos grãos e consumo de bovinos atrapalham

Simultaneamente, há duas questões de mercado que, atualmente, prejudicam a BRF. Primeiro, a alta nos preços dos grãos. O momento é atípico e reflete o aumento da demanda mundial por milho e farelo de soja. As cotações do milho, por exemplo, estão há semanas em escalada e atingiram recorde histórico nesta quarta-feira (21).

O segundo fator é a alta do dólar. Ambos geram impacto e encarecem demais a ração dos animais.

Adicionalmente, a empresa não tem se beneficiado tanto das exportações de proteína animal, porque houve uma mudança perfil de consumo.

A China, que antes tinha preferência por frango e porco, agora demanda cada vez mais carne bovina.

Esse fator explica, por exemplo, a diferença no desempenho dos papéis de JBS (JBSS3) e Minerva (BEEF3) em relação a BRF. As duas companhias comercializam bovinos e tiveram quedas no valor da ação muito menores ao longo do ano: 17,79% e 8,35%, respectivamente, de janeiro a 20 de outubro.

Paralisação de fábrica

Na terça-feira (20), a BRF anunciou que vai paralisar temporariamente, de 16 de novembro a 5 de dezembro, os abates de frango na unidade de Carambeí, no Paraná. Isto para ajustar sua produção à demanda.

A produção de Carambeí atendia principalmente o Oriente Médio, onde a demanda também teve queda, devido ao efeito da pandemia em destinos turísticos como Dubai.

Vale a pena comprar BRFS3?

Para a Guide Investimentos, a recomendação é de compra, com preço-alvo de R$ 28. “A empresa está, sim, descontada. Mas, no curto prazo, a questão dos grãos ainda pressiona o valor do frango. Então, o resultado do terceiro trimestre ainda deve ser baixo”, afirma Sales.

Ele acredita, porém, que isto se ajuste com o tempo. “A ação pode ter um retorno atrativo, mas não voltando a patamares de 2019, muito menos aos anos anteriores”, alerta.

Festas de fim de ano devem impulsionar vendas

Em entrevista à Época Negócios, o CEO da empresa, Lorival Luz, afirmou que, apesar do cenário, mantém o otimismo. Ele aposta em um aumento na demanda neste final de ano com reflexo nos resultados de vendas da companhia. Isto porque, com a pandemia, os consumidores tendem a comemorar em casa.

O aumento atual do preço da carne bovina e a questão da imagem dos frigoríficos, bastante abalada por razões ambientais, são pontos negativos da concorrência que podem acabar por favorecer a empresa no longo prazo e, por isso, devem ficar no radar do investidor.