Vale a pena investir em empresas de energia? Confira

Cláudia Zucare Boscoli
Jornalista formada pela Cásper Líbero, com pós-graduação em Jornalismo Econômico pela PUC-SP, especialização em Marketing Digital pela FGV e extensão em Jornalismo Social pela Universidade de Navarra (Espanha), com passagens por IstoÉ Online, Diário de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e Editora Abril.
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Crédito: Reprodução/Pixabay

O setor elétrico brasileiro faz parte, junto com abastecimento de água, gás e a coleta de lixo do setor chamado de utilities, que seriam os serviços básicos fundamentais para a sociedade.

O segmento de energia, em particular, é considerado bastante estável, com empresas consolidadas e demanda garantida. Por ser menos suscetível à volatilidade, é encarado pelos investidores como uma opção defensiva, que protege a carteira em tempos de crise, como a atual.

  • Para quem tem interesse em investir em empresas de energia, elencamos as principais características do setor, o que faz a ação subir ou descer e as perspectivas. Confira.

As empresas de energia do Ibovespa

Vamos começar mostrando quais são as empresas do segmento listadas no Ibovespa, principal índice da B3, com as ações que têm maior movimentação nos pregões. São elas:

BDRsDay TradeUnicórnios e novos IPOs.

Hoje é dia de insights para investir em 2021.

  • CEMIG (CMIG4)
  • CPFL ENERGIA (CPFE3)
  • ELETROBRAS (ELET3)
  • ELETROBRAS (ELET6)
  • ENERGIAS BR (ENBR3)
  • ENERGISA (ENGI11)
  • EQUATORIAL (EQTL3)

Entenda o segmento de energia

O setor elétrico brasileiro atual é dividido em três grandes grupos: geração, transmissão e distribuição.

A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) é responsável por regular o sistema como um todo dentro de suas competências legais.

As empresas de geração são bastante estáveis, mas podem enfrentar o risco climático. Com a falta de chuva, a energia pode escassear, sendo necessárias medidas de racionamento.

“O ideal é que estas empresas tenham sua fonte de energia em diferentes matrizes, como eólica , solar , hídrica e térmica, sendo que a térmica é sempre a mais cara”, afirma Greco Salvatore Montagna, assessor de mesa de renda variável da EQI Investimentos.

A Engie Brasil Energia (EBE), por exemplo, opera com 60 usinas de geração de energia, sendo 11 hidrelétricas, 4 termelétricas e 45 pequenas centrais hidrelétricas, eólicas, solares e de biomassa.

O papel das empresas de transmissão é levar a energia elétrica da fonte geradora até os responsáveis pela entrega ao cliente final (distribuidores). A transmissão é o negócio mais seguro e estável de toda a cadeia, uma vez que as empresas basicamente transportam e energia entre a geração e distribuição.

A distribuição, por sua vez, é o mais difícil dos subsegmentos. Isso porque o Brasil possui muita perda operacional por ligações clandestinas e as empresas acabam por gastar muito com controles e prevenção.

Empresas avançam nos 3 segmentos

Apesar da divisão em geração, transmissão e distribuição, muitas empresas vêm crescendo via expansão nos três grupos, por meio de leilões, aquisição e privatização.

A Engie tem na geração de energia sua principal receita. Mas, nos últimos anos, fez investimentos também em transmissão. A Equatorial atua na geração e também na transmissão.

Pontos de atenção ao investidor

Para quem investe em ações de empresas de energia, a dica é ficar atento ao noticiário dos leilões, privatizações e fusões.

Além disso, o que comanda a variação das ações no setor é mesmo oferta e demanda. Atualmente, com a economia em recessão, a demanda por energia está em um patamar menor, o que tende a influenciar na performance do segmento.

Em sentido oposto, no entanto, se o Brasil crescer a um ritmo muito forte, o setor corre o risco de colapsar. “É um setor em que a oferta não é muito grande”, aponta Montagna.

Privatizações à vista

Com pouca oferta de ativos, as próximas privatizações do setor devem ser bastante concorridas.

Deve ocorrer, em breve, a privatização da distribuidora Companhia Energética de Brasília (CEB), em estágio mais avançado. E também da Companhia Estadual de Distribuição de Energia Elétrica (CEEE), do Rio Grande do Sul. Esta última pode ainda ser fatiada em dois leilões: um para a empresa de geração e outro para de transmissão.

De acordo com a avaliação do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o leilão da CEB terá preço mínimo de R$ 1,4 bilhão. O valor veio da média de duas avaliações feitas por consultorias independentes e contratadas pelo banco. A companhia tem endividamento alto e acumula prejuízos, sem condições financeiras de cumprir metas regulatórias.

Cenário com pandemia

Com a pandemia de coronavírus, a demanda por energia teve uma queda significativa. Pelos cálculos da Agência Internacional de Energia (AIE), a redução do consumo global de energia foi de 5% no ano.

No Brasil, o consumo de energia apresentou queda de 0,2% no bimestre julho-agosto. Mas, apesar do recuo, foi uma recuperação considerável em relação ao segundo trimestre, que teve retração de 8,1%. Agora, o cenário é de retomada lenta.

Os distribuidores seguem parcialmente impactados pela decisão do governo de proibir o corte de energia dos consumidores de baixa renda enquanto durar o estado de calamidade (provavelmente até dezembro de 2020).

Até julho, no entanto, elas tiveram que arcar com inadimplência geral. O corte de energia estava proibido para todo tipo de consumidor. Para aliviar os impactos, o governo estruturou a “Conta Covid”, empréstimo de R$ 14,8 bilhões ao setor.

A Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee) afirma que as perdas do setor com o coronavírus são de R$ 6 bilhões. O valor é negado pela Aneel.

Distribuidoras enfrentam dificuldades

Um estudo da Kearney mostra que as empresas de distribuição de energia vêm apresentando dificuldades para atingir os indicadores de saúde financeira necessários para a manutenção das concessões. A tendência é que haja uma deterioração em 2020, justamente por conta da pandemia.

A consultoria constatou que, entre 2015 e 2019, 32 concessionárias brasileiras de distribuição tiveram uma perda total com inadimplência e fraude de R$ 13,3 bilhões. O que impacta diretamente nos resultados das empresas. Isto porque acabam por apresentar Ebitda (lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização) abaixo do patamar regulatório.

Segundo o pesquisador do Grupo de Estudos do Setor Elétrico da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Gesel-UFRJ) Roberto Brandão, o mercado de distribuição é heterogêneo. “Na média, é um setor com dificuldades em atingir os indicadores. Mas não é homogêneo: tem empresas bem eficientes e outras ineficientes. Em geral, no entanto, é um setor atrativo”, afirma.

Projeção para o terceiro trimestre

Segundo a Eleven, os resultados do terceiro trimestre devem apresentar melhorias para as empresas de energia. Mas a recuperação é realmente lenta. E a rentabilidade poderá ser baixa, principalmente para as distribuidoras. A aposta é por resultados melhores do que no segundo trimestre, mas ainda assim menores do que o terceiro trimestre de 2019.

“Apesar do consumo nacional de energia em setembro ainda não ter sido publicado, em termos de volumes o terceiro trimestre poderá apresentar um pequeno crescimento. O mês foi mais quente que a média histórica e deverá sustentar uma pequena recuperação, principalmente nas regiões Sudeste e Sul”, afirmam os analistas.

As recomendações da Eleven são de compra para EDP Brasil (ENBR3) e Copel (CPLE6).

Energia: bons pagadores de dividendos e JCPs

Uma característica do setor é que as empresas são boas pagadoras de dividendos e juros sobre capital próprio (JCP).

Isso porque são empresas mais sólidas e consolidadas, que não necessitam reinvestir tanto de seu lucro no negócio.

A Economática realizou recentemente um levantamento das empresas que mais pagaram dividendos e JCPs de 2016 até 27 de julho de 2020. E há empresas de energia na lista das vinte melhores pagadoras dos últimos cinco anos.

A Cesp (CESP3) e a Companhia de Transmissão de Energia Elétrica Paulista, Trans Paulista (TRPL4) são duplamente interessantes. Elas integram a lista dos maiores pagadores de dividendos e JCP.

Taesa (TAEE11) e Trans Paulista (TRPL4) integram as lista dos maiores pagadores de dividendos. Copel (CPLE3) desponta como uma das melhores pagadoras de JCPs.

O pagamento de juros e JCPs consiste na divisão de lucros das empresas com os acionistas. Pela lei, toda empresa de capital aberto deve distribuir aos seus acionistas no mínimo 25% de seu lucro líquido.

Isto quer dizer que, ao comprar uma ação, o investidor está se tornando proprietário de uma parte da empresa. Como tal, tem direito a participar dos lucros. Então, paralelamente à valorização da ação, o investidor também recebe esse percentual. Os pagamentos podem acontecer de maneira mensal, trimestral, semestral ou anual, dependendo do que estabelece o estatuto da empresa. Explicamos tudo sobre dividendos e JCP neste outro post.