Tudo o que você precisa saber sobre investimentos em BDR

Carla Carvalho
Graduada em Ciências Contábeis pela UFRGS, pós-graduada em Finanças pela UNISINOS/RS. Experiência de 17 anos no mercado financeiro, produtora de conteúdo de finanças e economia.
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A partir de setembro, todos os investidores brasileiros poderão ter acesso aos chamados BDRs, ativos que representam ações de empresas estrangeiras.

Com a mudança autorizada pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), os Brazilian Depositary Receipts (BDRs) deixam de ser restritos a instituições financeiras e  pessoas com mais de um R$ 1 milhão em investimentos.

A novidade foi bem recebida por boa parte do mercado, que busca novas formas de rentabilidade diante da queda dos juros. Entretanto, há muitas dúvidas sobre qual a melhor forma de investir em ativos externos.

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BDRs e investimentos no exterior são a mesma coisa? Em que situações é interessante ter BDRs na carteira? Como investir?

Vamos esclarecer todas as dúvidas agora.

Primeiro, que é um BDR?

Esses ativos representam ações de empresas estrangeiras, porém são emitidos no Brasil. Quem adquire um BDR está, indiretamente, participando de uma empresa no exterior, e terá direito aos dividendos distribuídos pela companhia lá fora.

Uma coisa deve ficar clara para o investidor: BDRs não são investimentos no exterior. Apenas acompanham a variação das ações das empresas lá fora. Se a companhia tiver lucro, o investidor brasileiro se beneficiará disso através da distribuição de dividendos. Se os papéis se desvalorizarem, esse reflexo também será sentido por quem os adquiriu no Brasil

E por que é importante saber isso? Uma vez que os BDRs são investimentos nacionais, estarão sujeitos às normas brasileiras para todos os fins, inclusive sucessórios e de tributação. Logo, se a intenção do investidor é diluir o risco Brasil, é necessário que saiba que não conseguirá isso através de BDRs.

Quem emite os BDRs?

Por se tratar de um investimento relacionado a ativos estrangeiros, para a emissão dos BDRs são necessárias duas instituições. A primeira é a custodiante, no país que deu origem ao título. A segunda é a emissora, que será responsável pela colocação do papel no Brasil e pela garantia de que o mesmo está lastreado pelas ações a que correspondem.

Todavia é importante atentar para o fato de que esse investimento, diferentemente das ações, não dá ao seu titular os direitos de sócio. Os BDRs se assemelham mais a um fundo de investimento.

Para comercializar um BDR, a instituição emissora adquire várias ações de empresas estrangeiras, monta um “pacote” e vende partes dele aos investidores. Logo, esses títulos são como cotas, e o seu detentor não necessariamente estará adquirindo uma ação cheia, e sim parte dela.

Tipos de BDR

Os BDRs podem ser patrocinados ou não patrocinados, e o que definirá isso será a sua origem.

Os patrocinados surgem quando a própria empresa estrangeira decide emitir seus títulos no Brasil para captar recursos no nosso mercado. Para isso, procura uma instituição depositária aqui para a colocação e acompanhamento de seus papéis no mercado nacional.

Por sua vez, os não patrocinados não têm qualquer participação da companhia emissora na sua venda. Nesse caso, a iniciativa de ofertar os títulos é exclusiva da instituição depositária nacional. No Brasil, os BDRs são, predominantemente, não patrocinados.

BDRs na bolsa brasileira

Atualmente, há mais de 500 BDRs disponíveis para negociação na B3. Nomes famosos como Apple, Amazon, Tesla, Microsoft, Mercado Livre, Twitter, Facebook estão entre as opções que podem ser adquiridas pelo investidor brasileiro.

Os BDRs mais negociados

Estudo recente da Economática mostra que as empresas de tecnologia estão entre as preferidas dos investidores. As empresas estrangeiras que tiveram BDRs mais negociados na média diária até 12 de agosto foram as seguintes:

  • Amazon: R$ 3,7 milhões
  • Mercado Libre: R$ 3,6 milhões
  • Alphabet (Google): R$ 3,3 milhões
  • Apple: R$ 3,2 milhões
  • Microsoft: R$ 3,2 milhões

Os BDRs mais rentáveis

Quanto aos os BDRs mais rentáveis, as maiores valorizações acumuladas em 12 meses até 12 de agosto foram:

  • Tesla: +822%
  • Nvidia: +308%
  • Apple: +213%
  • PayPal: +151%
  • Mercado Livre: +148%

Ao contrário de suas principais concorrentes, que se desvalorizaram em 2020, a fabricante de carros elétricos Tesla disparou neste ano. Para se ter uma ideia, a empresa liderada por Elon Musk passou a Ford, maior montadora do mundo, em valor de mercado.  As ações acompanharam o bom momento.

O segundo lugar no ranking é da californiana Nvidia, especializada na fabricação de processadores gráficos. Em julho desse ano a empresa superou a Intel e se tornou a empresa de semicondutores mais valiosa dos EUA. Dessa forma, suas ações tiveram valorização de 68% em 2020.

A companhia fundada por Steve Jobs está na terceira posição entre os BDRs mais rentáveis. Em agosto, o valor de mercado da Apple superou o patamar de US$ 2 trilhões – um feito inédito.

Em quarto lugar está a plataforma online PayPal, que teve alta de 86% no lucro do segundo trimestre de 2020. Com a pandemia, a empresa teve 7,4 milhões de novos usuários registrados em abril. Isso fez com que o lucro líquido atingisse US$ 1,26 bilhão, ante os US$ 848 milhões do mesmo período de 2019.

A argentina Mercado Livre, na quinta posição, atingiu um valor de mercado de US$ 60,6 bilhões. Isso supera os valores da Vale (US$ 59,3 bilhões) e Petrobrás (US$ 57,5 bilhões) e a torna a companhia a mais valiosa da América Latina.

Para conhecer o desempenho de outros BDRs, clique aqui.

Investir no exterior ou adquirir BDRs?

É fato que o apetite do investidor por formas mais arrojadas é maior na queda de juros. E as novas normas dos BDRs vieram em bom momento.

A novidade é um sinal do amadurecimento do mercado brasileiro.  “As novas regras serão uma grande oportunidade de amadurecimento não só para corretoras, analistas e gestores, mas também para as empresas brasileiras,” diz André Massaro, especialista em finanças. “Uma vez que competirão com esses títulos, as empresas, necessariamente, deverão melhorar em termos de governança para se tornarem mais atrativas ao investidor.”

Entretanto, apesar de muitos terem comemorado a novidade, não há uma resposta única para a pergunta. Quando se compara BDRs com investimentos diretos no exterior, as opiniões se dividem.

Vejamos alguns pontos que podem ser vantagens ou desvantagens em relação a ambos. E se quiser ler mais sobre o assunto, clique aqui. 

Há bem menos BDRs do que ações internacionais

Enquanto que, na Bovespa, há cerca de 600 BDRs listados, as bolsas norte-americanas NYSE e NASDAQ negociam, juntas, ações de mais de 6 mil empresas. Ou seja, a gama de opções para o investidor é muito maior quando tem acesso direto aos investimentos no exterior.

A liquidez desses títulos ainda é baixa

O volume de BDRs negociados no Brasil ainda é pequeno. Isso faz com que esses títulos tenham baixa liquidez.

Dados da Economática apontam que a média diária de negociações de BDRs é de R$ 59,8 milhões. Esse volume é infinitamente menor do que, por exemplo, a média diária da Via Varejo, que é de R$ 1 bilhão.

Outro exemplo são os papéis da Yduqs, um dos menos negociados na Bovespa. O volume médio diário dessa companhia é de R$ 137 milhões, também bastante superior ao somatório de todos os BDRs listados na B3.

Entretanto, a expectativa é de aumento do volume médio de negociação desses títulos com as novas normas. André Massaro acredita na melhora da liquidez e acrescenta ainda que, “se esse mercado pegar no Brasil, provavelmente muitos farão arbitragem entre os BDRs e suas ações de origem.”

Variação cambial

Os BDRs estão expostos às oscilações cambiais, por representarem títulos de empresas estrangeiras. Logo, o investidor terá ganhos quando o real se desvaloriza e também perdas na via contrária.

Para Elias Wiggers, assessor de investimentos e sócio da EQI Investimentos, é muito importante que o investidor tenha consciência de que seu dinheiro vai variar com a cotação do dólar. “Uma queda do dólar, por exemplo, trará diminuição de seu patrimônio, mesmo que a ação lá fora se valorize.”

A atual cotação do dólar também é um ponto que merece especial atenção. “Historicamente, estamos num patamar muito alto de dólar”, alerta Elias. “E os motivos são diversos. Juros baixos, economia mais dependente do cenário internacional, contas públicas no vermelho, entre outros. Esse conjunto de fatores expõe a fragilidade de nossa economia, e leva o investidor internacional a pensar duas vezes antes de deixar seu dinheiro no Brasil.”

Logo, como conclui Elias, “se o investidor entrar agora em BRD, caso o cenário fique novamente favorável ao Brasil, seu patrimônio sofrerá perdas.”

Tributação

Já vimos que os BDRs seguem as regras brasileiras quanto à tributação. E isso pode ser uma vantagem quando se observa a pesada carga tributária de outros países.

Nos EUA, por exemplo, os impostos sobre ativos financeiros são altíssimos. Segundo o advogado Bruno Peixoto, especialista em tributação internacional, naquele país a alíquota mínima federal é de 40% e pode sofrer acréscimos de acordo com os estados.

Por outro lado, há que se considerar também que os BDRs não têm incentivo fiscal. No caso das ações no exterior, se, dentro do mês, o investidor fizer vendas até R$ 35 mil, terá isenção de imposto de renda sobre o ganho de capital. Nos BDRs, não há esse incentivo.

Outro ponto importante a considerar são os dividendos. A legislação brasileira isenta essa distribuição da tributação. Porém, lá fora, isso não acontece. Logo, no Brasil, o investidor receberá o valor de dividendos líquido dos impostos – ao menos por enquanto. 

Conta no exterior

Atualmente, é bem mais fácil abrir uma conta no exterior. Renato Breia, sócio fundador da Nord Research, falou recentemente sobre isso no canal da corretora. Segundo ele, “muitas vezes a aprovação do correntista ocorre em poucas horas, e várias corretoras já teêm, inclusive, atendimento em português.”

Outro ponto que defende ao preferir investimentos no exterior aos BDRs é a facilidade na remessa de recursos para fora. Renato argumenta que, em função da concorrência, o IOF e o spread na remessa reduziram bastante nos últimos tempos.

No entanto, para o investidor com menos recursos, pode não ser vantajoso investir numa estrutura no exterior. Segundo Massaro, “muita complexidade pode ser desproporcional para as expectativas do investidor comum. Logo, para quem simplesmente busca diversificação, o BDR vale a pena pela simplicidade.”

Como investir em BDRs?

Para adquirir BDRs o investidor precisa procurar uma instituição intermediária, que poderá ser um banco ou uma corretora de valores autorizados pela CVM. Atualmente somente três bancos no Brasil emitem BDRs: Itaú, Bradesco e o Banco B3, da própria bolsa.

As novas normas estão sendo regularizadas para que, a partir de primeiro de setembro, todas as instituições financeiras possam estar aptas a comercializar o título. Contudo, a expectativa da B3 é de que as operações não sejam complexas. Espera-se que essas transações sejam tão simples quanto as negociações de ações.

Além disso, será importante também que bancos e corretoras reforcem suas equipes de análise. Assim como ocorre com as ações, os BDRs também precisam de uma boa análise técnica. Não é só no mercado interno que há empresas em situação financeira não tão boa. Logo, identificar isso é fundamental para que o investidor seja bem orientado no momento de adquirir BDRs.

Quais as vantagens?

Basicamente, há duas razões para o investidor buscar ativos estrangeiros: diversificação ou proteção cambial.

No caso dos BDRs, Elias Wiggers considera que a mais importante delas é a diversificação.

“O Brasil representa cerca de 1% do mercado de renda variável. Por isso, a questão de diversificação é o ponto crucial ao se avaliar esse ativo. Com os BDRs, o investidor estará expondo seu capital ao mundo. E isso é muito bom, pois não precisará se contentar apenas com ativos locais, e nem se preocupar somente com o desempenho da economia brasileira. Logo, se você tem uma parte do capital no exterior, isso fará com que aproveite situações de bonança lá fora.”

A proteção cambial é o segundo ponto importante que Wiggers destaca sobre esse ativo. Segundo ele, “ter parte do capital exposto à moeda forte (no caso, o dólar), é uma boa estratégia de defesa do patrimônio. Em geral, o dólar e a bolsa têm correlação negativa (quando um cai, o outro sobe). Nesse sentido, os BDRs são adequados para o equilíbrio do portfólio.”

E quanto investir em BDRs?

Isso dependerá da intenção e da necessidade do investidor. Para Elias Wiggers, “a diversificação é sempre interessante. Mas também não adianta pulverizar demais. Não faz sentido dividir meio a meio a carteira em investimentos locais e internacionais. Para diversificação, o saudável é ter de 15 a 20% da carteira exposta a ativos cambiais.”

No entanto, quando a estratégia é o hedge de carteira, é mais difícil encontrar um número exato. Segundo Elias, faz sentido manter essa proporção entre 5 e 10% dos investimentos. E complementa: “além dos BDRs, há várias outros ativos que servem como proteção. Contratos futuros, fundos cambiais, vendas de índices e aplicações em metais preciosos são também boas opções defensivas que podem colaborar para a preservação do patrimônio.”