Trump: como o diagnóstico positivo para Covid-19 mexe nos mercados

Fernando Augusto Lopes
Redator e editor
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Crédito: Reprodução / White House

Na virada de quinta-feira (1º) para sexta-feira, em um tuíte, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, confirmou que tinha testado positivo para Covid-19. Foi o suficiente para deixar os mercados pelo mundo com uma série de dúvidas e acelerar a volatilidade.

Com quase um milhão de retuítes, já era possível perceber a importância daquelas três linhas:

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Ele tem 74 anos e é hipertenso.

Ou seja, está no grupo de risco para um desenrolar preocupante da doença. Ele está num hospital militar.

Entretanto, no dia seguinte, as notícias que corriam eram que ele estava experimentando apenas “sintomas leves” da doença, para alívio de todos.

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Mesmo assim, os agentes dos mercados globais sentiram o impacto.

Bolsas

Os três índices mais importantes de Nova York, o Dow Jones (-0,48%), o S&P 500 (-0,96%) e o Nasdaq (-2,22%) caíram nesta sexta.

O os mercados de ações na Ásia retrocederam acentuadamente. Na Europa, houve fechamento misto.

No Brasil, o Ibovespa caiu 1,53%, embora cenário doméstico também tenha contribuído.

O que se percebeu de imediato é que a notícia colocou a Covid-19 novamente nos holofotes dos investidores, que, sabe-se lá quem mundo viviam, haviam simplesmente deixado a pandemia em segundo plano.

Olhando os números econômicos de alguns países, como o próprio Estados Unidos, a Alemanha, a China e até mesmo o Brasil, em certa medida, percebeu-se que a economia está em franca recuperação.

Mesmo que os parâmetros não sejam os melhores.

Doença de Trump é um evento de risco

Jeff Henriksen, co-fundador da Thorpe Abbotts Capital, disse à CNBC que esse tipo de percepção tem ocorrido nos últimos três meses.

“Empresas mais orientadas para o crescimento – aquelas que podem ter um bom desempenho em qualquer tipo de mundo, aconteça o que acontecer com a Covid – versus as empresas que precisam de recuperação vão bem”, observou.

Mas agora, segundo ele, há um aumento da incerteza política.

Isso porque há uma eleição presidencial nos EUA em 3 de novembro, que por si só já é um evento de risco importante para os mercados..

“Acho que você verá que provavelmente o setor de tecnologia continuará se segurando muito bem, e eu acho que alguns dos nomes mais cíclicos que requerem uma recuperação provavelmente não serão beneficiados”, previu à CNBC.

A doença de Trump é outro risco sério.

“Isso realmente traz à realidade que estamos potencialmente entrando em uma segunda onda”, resumiu.

E é essa a percepção que deve tomar os mercados nos próximos dias.

Ou, pelo menos, até Trump conseguir se recuperar.

Aversão ao risco

Assim que saiu a notícia, foi possível perceber que o ouro subiu e as duas referências do petróleo mundial caíram.

Os mercados Forex também reagiram, com o franco suíço, o iene e o dólar – consideradas moedas portos-seguros – subindo, lembra a CNBC.

“Há uma reação adversa ao risco, então as três moedas mais fortes no mercado são o franco suíço, o iene e o dólar. Isso é apenas uma reação automática”, disse à CNBC Kit Juckes, chefe global de estratégia de câmbio no Societe Generale.

O que os investidores estão demonstrando é que há agora uma incerteza com relação à eleição.

Não do resultado em si. Mas do pleito acontecer ou não.

Há medo, inclusive, de judicialização.

A eleição pode ser adiada?

A eleição pode ser adiada? Sim, mas é muito improvável que isso aconteça, assegura a Reuters.

A Constituição dos EUA dá ao Congresso o poder de determinar a data da eleição. De acordo com a legislação dos EUA, a eleição ocorre na primeira terça-feira após a primeira segunda-feira de novembro, a cada quatro anos.

A Câmara dos Representantes, controlada pelos Democratas, quase certamente se oporia ao adiamento da eleição, mesmo se o Senado controlado pelos Republicanos votasse por isso.

Vale lembrar que uma eleição presidencial nunca foi adiada.

E vale lembrar que um acordo sobre qual o tamanho do novo pacote de estímulo à economia está encontrando problemas entre os dois partidos dominantes justamente porque eles não se entendem.

E se Trump vier a falecer?

Os dois partidos têm regras que exigem que se escolha um candidato substituto.

No entanto, é tarde demais para substituir um candidato a tempo para a eleição. Até porque a eleição já começou.

Mais de 2,2 milhões de votos já foram realizados. O prazo para mudar as cédulas em muitos estados também já passou; cédulas pelo correio, que devem ser amplamente utilizadas devido à pandemia, foram enviadas aos eleitores em duas dezenas de estados.

E o que acontece se um candidato morrer antes da votação do Colégio Eleitoral?

Nos Estados Unidos, o vencedor da eleição é determinado pela maioria dos “votos eleitorais” atribuídos aos 50 estados e ao Distrito de Colúmbia, proporcionalmente à sua população.

O Colégio Eleitoral se reunirá em 14 de dezembro para votar para presidente. O vencedor deve receber pelo menos 270 do total de 538 votos do Colégio Eleitoral.

Os votos eleitorais de cada estado geralmente vão para o vencedor do voto popular do estado. Geralmente. Alguns estados permitem que os eleitores votem em quem quiserem, mas mais da metade dos estados obrigam os eleitores a votarem no vencedor.

Acontece que a maioria das leis estaduais não diz o que fazer se um candidato morrer. Haveria um limbo jurídico?

Após a votação do Colégio Eleitoral, o Congresso ainda deve se reunir em 6 de janeiro para certificar os resultados. Se um candidato obtivesse a maioria dos votos eleitorais e morresse, não está totalmente claro como o Congresso resolveria a situação.

A Suprema Corte provavelmente seria chamada a lidar com a situação. Mas faria o quê?

Todas essas incertezas afetam diretamente os mercados globais, que se fiam diretamente na maior potência econômica do mundo.