Trump anuncia suspensão do financiamento à OMS

Fernando Augusto Lopes
Redator e editor

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou nessa terça-feira (14) que o país suspendeu o financiamento da Organização Mundial da Saúde (OMS), insistindo que a agência deve ser responsabilizada por suas supostas falhas na condução da crise do Covid-19.

“Hoje estou instruindo meu governo a suspender o financiamento para a OMS, enquanto uma revisão é conduzida para avaliar o papel da organização na má administração e encobrimento da disseminação do coronavírus”, disse Trump em coletiva na Casa Branca.

Os repasses dos EUA à OMS giram em torno de US$ 58 milhões anuais.

Bode expiatório de Trump

A OMS tornou-se um bode expiatório de Trump recentemente. Ele chegou a dizer hoje que a organização tem “problemas que ninguém pode acreditar”, sem apontar que problemas seriam esses.

Para o governo Trump, o papel da OMS foi “desastroso” ao “encobrir” o início do surto do novo coronavírus na China.

O mandatário norte-americano acredita que os países poderiam ter se preparado antes e melhor se tivessem sido orientados de forma mais eficiente pela OMS.

“A realidade é que a OMS não conseguiu obter, verificar e compartilhar informações em tempo hábil”, disse Trump. “A OMS falhou em seu dever básico e deve ser responsabilizada”.

“Quantias tremendas de tempo” foram “perdidas” devido à lentidão atribuída por Trump à organização.

Em 7 de abril, ele foi ao Twitter para reclamar: “a OMS realmente estragou tudo. Por alguma razão, financiada em grande parte pelos Estados Unidos, mas muito centrada na China. Daremos uma boa olhada nisso. Felizmente, rejeitei o conselho deles de manter nossas fronteiras abertas à China desde o início. Por que eles nos deram uma recomendação tão falha?”.

Trump restringiu a entrada de chineses no país em 31 de janeiro, mas já nesse dia muitas companhias aéreas não estavam mais voando nem para, nem vindo da China.

Elogios e atrasos

A OMS foi criticada também pelo Japão e pelo Brasil, entre outros.

Entretanto, em sua conta no Twitter, em 24 de janeiro, o próprio Trump elogiou os esforços chineses na contenção da iniciada crise.

“A China tem trabalhado duro para conter o Coronavírus. Os Estados Unidos apreciam muito seus esforços e transparência. Tudo vai dar certo. Em particular, em nome do povo americano, quero agradecer ao presidente Xi!”, ele tuitou.

O vírus, recém-descoberto, era desconhecido e dez dias antes uma investigação preliminar de autoridades chinesas não havia encontrado evidências de transmissão de humano para humano, o que fez Trump saudar a eficiência científica chinesa.

Vale lembrar que naquele momento, os dois países estava em contato constante para um acordo comercial que vinha paralisando o mundo.

Foi só em 30 de janeiro que a OMS declarou o novo coronavírus uma “emergência de saúde pública”. Seis semanas depois, quando já não era mais possível ignorar o tamanho do problema em escala mundial, em 11 de março, a OMS finalmente declarou pandemia.

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Países como os EUA e o Reino Unido, entretanto, insistiram em não levar em conta as orientações da OMS. Nesse momento, a Itália já havia virado o novo epicentro da pandemia e não havia mais como fugir: os países precisavam agir. Mas Trump não agiu a tempo. Nem Boris Johnson. Nem Bolsonaro, aqui no Brasil.

O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, falou de “níveis alarmantes de inação” de muitos países.

Fraqueza da OMS

A OMS “foi drenada de poder e recursos”, disse Richard Horton, editor da influente revista médica The Lancet, ao jornal inglês The Guardian. “Sua autoridade e capacidade de coordenação são fracas. Sua capacidade de direcionar uma resposta internacional a uma epidemia com risco de vida é inexistente”.

O governo Trump e o próprio presidente repetidamente minimizaram a crise, subestimando especificamente a ameaça para os EUA, comparando-a incorretamente com a gripe e dizendo a seus apoiadores que as crescentes preocupações com o coronavírus eram uma “farsa”.

Hoje, o país tem 611.156 casos confirmados e 26 mil mortos.

Internamente, também não foi por falta de aviso. Em 2014, o ex-presidente Barack Obama alertava sobre a necessidade do país estar preparado para uma pandemia, como a “gripe espanhola”.

Obama estava tentando vender o seu projeto mais audacioso, o Obamacare, para garantir que todos os norte-americanos tivessem acesso a um seguro de saúde. Não chega a ser um SUS, que dá a todos acesso à saúde. ma essa foi a solução para resolver a falta de cobertura que afetava cerca de 15% da população.

O vídeo chegou a viralizar nesse momento em que Trump e os governadores batem cabeça para decidir quando “reabrir” a economia e quanto a crise vai custar aos cofres público.

Para muitos analistas, a solução de Obama, se ainda em funcionamento, custaria bem menos.

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