Alta dos juros pode surpreender, diz gestor da 3R Investimentos

Felipe Moreira
Especialista em Mercado de Capitais e Derivativos pela PUC - Minas, com mais de 7 anos de vivência no mercado financeiro e de capitais. Apaixonado por educação financeira e investimentos.
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Crédito: 3R investimentos

Foram poucos os fundos de investimentos que passaram quase que incólumes pelo turbilhão de março que derrubou a bolsa brasileira. Um deles é o multimercado 3R Genus Hedge FIM, da gestora independente 3R Investimentos, fundada por Tomás Awad.

Ele foi o entrevistado da semana na live comandada por Luis Fernando Moran, sócio da EQI. Na conversa, Awad detalhou a estratégia da gestora, falou de suas apostas e de setores que considera caros demais. Também explicou o por que de sua preocupação com o cenário ecônomico.

Confira o vídeo na íntegra:

Ferramenta ajuda na escolha de suas ações de acordo com balanços

Com 24 anos de mercado de capitais, Tomás Awad diz estar preocupado com o cenário macroeconômico. Na avaliação dele, o que vem pela frente é uma crise fiscal de difícil solução e uma crise de dívida. “Existe uma miragem de Selic a 2% que não é verdade. Se você olhar a curva DI, já está precificando juros de 4% ou 5% no final de 2021”, ressaltou. “Eu não tinha  o costume de olhar e agora estou olhando todos os dias a curva DI.”

Ele lembra que, no segundo semestre, o Tesouro tem que emitir aproximadamente R$ 400 bilhões. “A gente não vê quem vai comprar a 2% esses títulos, o BC vai ter que pagar cada vez mais para colocar isso aí”, disse Awad. “Nem todo mundo no mercado viu isso.”

Segundo ele, velocidade de subida dos juros pode surpreender. “E, aí vai bater em tudo, vai bater em crédito, recuperação da economia, no fiscal”, disse. “O Governo vai precisar realizar uma agenda mais liberal, aumentar imposto. Mas tem que vir com credibilidade e vontade política de fazer.”

Eestratégia da 3R Investimentos

A 3R tem dois fundos sob gestão. Um multimercado (3R Genus Hedge FIM) e outro de ações (3R RE FIA). O primeiro tem parte do patrimônio investido em ações,  com estratégia direcional e também long & short. O segundo mantém em carteira entre 10 e 15 empresas, com objetivo de obter retorno num prazo de 2 a 3 anos.

O 3R Genus acumula um retorno de 10,76% no ano. O fundo tem uma volatilidade baixa e pouco risco, reforça Awad. “Se a gente vai muito bem numa semana, na semana seguinte a gente toma mais cuidado e coloca a sandália da humildade porque o mercado é cíclico”, afirma.

Sobre o bom desempenho do fundo durante a crise de março e no ano, Awad relaciona com a cautela da equipe, que vinha olhando o cenário externo e interno, desde o ano passado, com preocupação. “Na nossa avaliação, o estrutural do Brasil era menos bom do que o mercado achava.”

Em janeiro, com o coronavírus, a gestora começou a apostar mais forte na queda. “Quando a bolsa caiu de 115 mil para 105 mil, a gente colocou o pé no acelerador.”

Já o 3R RE registra perdas de 23,45% em 2020. O fundo foi criado em 2016 só para comprar incorporadoras, um setor que Awad acompanha há 15 anos.  “Achávamos que tinha uma assimetria muito grande, mas as coisas saíram diferentes.”

Em fevereiro, a gestora começou uma mudança no fund, mas pegou a Covid no meio do caminho. “O regulamento tinha um defeito: não podia fazer nenhum tipo de proteção. Ficamos atrás da bolsa porque não consguimos proteger como gostaríamos.”

Agora, as maiores posições do 3R RE são em Ambev, BRF, Pão de Açúcar, Equatorial, Qualicorp. E  o fundo tem  proteção.

Setores

Tomás Awad avalia todo o varejo como caríssimo e totalmente sem sentido. Também não vê sentido em investir nas empresas brasileiras de tecnologia. Em sua avaliação, são negócios com baixíssima barreira de entrada e com muitos players fazendo as mesmas coisas.

Por outro lado, os fundos sob sua gestão estão comprados em ativos mais defensivos, como Ambev (ABEV3) e BRF (BRFS3).  “O cara vai vender cerveja em qualquer cenário, o cara vai entrar no Pão de açúcar em qualquer cenário, o cara vai comprar frango em qualquer cenário.”