Todos querem a Linx (LINX3): entenda a disputa pela empresa

Cláudia Zucare Boscoli
Jornalista formada pela Cásper Líbero, com pós-graduação em Jornalismo Econômico pela PUC-SP, especialização em Marketing Digital pela FGV e extensão em Jornalismo Social pela Universidade de Navarra (Espanha), com passagens por IstoÉ Online, Diário de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e Editora Abril.
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Crédito: Reprodução/Instagram Linx

A Linx (LINX3), plataforma de software para o varejo, está no centro de uma disputa que tem mexido com o mercado nos últimos dias.

Não conhece a empresa? Ela detém 45% do mercado de sistemas de gestão para o setor varejista. Entre seus princpiais clientes estão nomes como Boticário, Natura, Centauro, Tok&Stok, Ipiranga e Drogaria São Paulo.

No momento, a Linx tem na mesa duas propostas de fusão: uma da Stone e outra da Totvs.

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“A Linx é uma ‘noiva’ bastante disputada faz tempo”,  diz Fabricio Winter, sócio e líder de projetos na consultoria Boanerges & Cia, especializada em varejo financeiro. “Isso porque, no negócio de automação comercial, de frente de caixa para o setor varejista, quando você tem uma solução muito bem amarrada, como é o caso, muito dificilmente o cliente troca de fornecedor.”

Segundo Winter, ao adquirir a Linx, tanto Stone quanto Totvs apresentariam aos seus clientes atuais e potenciais um portfólio de produtos muito mais atraente.

A decisão sobre quem leva a empresa é aguardada para os próximos dias, mas colocou as três empresas em um enredo que envolve até acusação de falta de ética nas propostas apresentadas.

Para entender a disputa pela Linx

Tudo começou na terça-feira, dia 11 de agosto, quando a Stone, fintech de meios de pagamentos, anunciou que estava em negociação avançada para aquisição da Linx.

A oferta é de R$ 6 bilhões, sendo que 90% do pagamento seriam feitos em dinheiro e 10% em ações.

Para financiar a compra, a Stone emitiu, nos Estados Unidos, onde é listada, US$ 1 bilhão em ações.

Encarada como uma operação que uniria “o melhor dos dois mundos”, associando uma empresa de software de vendas com uma de maquininha, as ações de ambas as empresas reagiram fortemente. As ações da Linx chegaram a subir mais de 30%.

Mas a alta ligou o radar da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que investiga se houve insider trading (negociação com informação privilegiada).

Acusação de que oferta “fere a ética”

Colocando ainda mais lenha na fogueira, a Fama Investimentos publicou uma carta na quinta-feira (13), questionando a oferta da Stone. A Fama detém 3% da Linx, sendo uma de suas maiores acionistas.

Segundo Fabio Alperowitch, gestor e fundador da gestora, a transação “fere a ética”, porque os três fundadores da Linx receberiam um prêmio maior por ação do que os demais acionistas da empresa.

Pelas contas de Alperowitch, enquanto os acionistas comuns receberiam R$ 34 por ação, os três fundadores receberiam R$ 46.

Por fim, a Totvs entrou na disputa, oferecendo um valor superior aos R$ 6 bilhões da Stone –  R$ 6,045 bilhões. E mais: anunciou que trataria os acionistas de forma “igualitária e equânime”. Na oferta da Totvs, todas as ações teriam o preço de R$ 34,09.

O que acontece agora?

As ofertas feitas por Stone e Totvs serão levadas à aprovação dos acionistas. Segundo Winter, este processo não deve ser demorado e é aguardado já para os próximos dias.

“Essas propostas têm impacto imediato de fazer as ações subirem. Se os acionistas demorarem na decisão, as ações voltam ao patamar anterior de preço, o que não é interessante para eles próprios. Então, acredito que, em uma semana no máximo, teremos uma definição”, avalia.

No entanto, qualquer que seja a definição, a fusão teria potencial para mudar a dinâmica competitiva do setor.

Por isso, seja quem for que leve a Linx, a transação deverá passar ainda pela aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). E isto pode significar meses para uma conclusão definitiva. Luis Sales, analista da Guide Investimentos, acredita que o período de avaliação será de três a seis meses, pelo menos.

Winter acredita, de toda forma, que o Cade não deve interferir negativamente no negócio.

Reprodução/Instagram Linx

“Falta de ética” pode implicar em multa

Outro ponto que pede atenção de quem está de olho na valorização das ações da Linx é quanto a possíveis processos por falta de lisura no processo de venda.

A proposta feita pela Stone vem sendo questionada do ponto de vista ético. Isto porque ela favoreceria, financeiramente, três dos cinco conselheiros da Linx (e também seus fundadores). A oferta feita pagaria mais pelas ações que pertencem a eles, o que representaria uma desvantagem para os acionistas minoritários.

Caso a denúncia seja comprovada, ela não terá, no entanto, poder de desfazer o negócio. Mas, possivelmente, implicará em pagamentos de multas.

“Acredito que, no máximo, a penalização pela CVM vai representar um custo adicional na transação”, diz Winter.

Qual a tendência dos acionistas?

Podem pesar na decisão dos acionistas três fatores.

O primeiro é a questão de a proposta da Stone ser desvantajosa para os minoritários.

O segundo é a questão da lisura da negociação. Pode ser que o mercado não interprete com bons olhos a fusão com a Stone, depois das acusações feitas.

O terceiro é que, ao vender as ações para a Stone, o acionista abre mão de participar da Linx, já que as ações da Stone são negociadas em Nova York. Ao contrário, fechando com a Totvs, ele terá a possibilidade de participar da combinação das duas empresas.

Vale a pena comprar ações da Linx agora?

Sales, da Guide, afirma que a tendência das ações da Linx é de volatilidade durante a disputa. Após a conclusão da oferta, é esperada uma estabilização do preço até o fechamento de capital da companhia.

A corretora mantém recomendação neutra de compra. “Tínhamos recomendação de compra até o anuncio da oferta da Stone. Mas, nos atuais níveis, não vemos grande potencial de valorização. A não ser por um acirramento na disputa, o que levaria a um leilão semelhante ao visto no caso da Netshoes”, afirma.