Têxteis demonstram confiança na retomada da atividade econômica

Marcello Sigwalt
null

Crédito: Site A Crítica

Nunca antes a palavra crise foi tão persistentemente traduzida como oportunidade para o setor têxtil, parafraseando, ironicamente ou não, o ditado chinês, epicentro da pandemia global.

Retomada breve

É com essa visão de esperança e confiança na retomada breve da atividade econômica que representantes do setor têxtil participaram de uma live promovida pela Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit).

Apoio providencial

Todos foram unânimes em afirmar que a crise do setor estaria muito pior, sem o apoio providencial da tecnologia para viabilizar as vendas. No entanto, eles também admitiram que a loja física é e continuará a ser, essencial.

Perdeu a Money Week?
Todos os painéis estão disponíveis gratuitamente!

TI estratégica

Para que o avanço digital sobre a estrutura de atendimento tivesse sucesso, porém, a contribuição dos departamentos de Tecnologia da Informação das empresas foi fundamental. Como reflexo, tornou-se comum reduzir de dois anos para duas semanas o prazo de projetos voltados à digitalização de processos.

Vantagens comparativas

Pela indústria, o presidente da Coteminas, Josué Gomes da Silva, enumerou as vantagens comparativas dos têxteis, no país e no exterior.

“Se levarmos em conta que dispomos hoje de matéria-prima de alta qualidade, tecnologia, mão-de-obra qualificada e escolas nacionais de formação, sem esquecer de que temos marcas fortes no mercado, será mais fácil recuperar o nível de atividade”, confia Gomes da Silva.

Reforma pendente

Mas para que esse horizonte solar se concretize, Gomes da Silva lembra ser urgente e necessária a aprovação da reforma tributária, atualmente em tramitação no Congresso Nacional.

“Precisamos acabar com esse ‘cipoal burocrático’ de impostos que afeta muito nossa indústria”, criticou, ao sugerir a criação do ‘microimposto’ ou ‘nano imposto’, em substituição aos existentes.

O empresário observa, contudo, que há um caminho longo para destravar a atividade.

Desonerar para decolar

“Também precisamos desonerar a produção, o trabalho e o investimento para que possamos alçar voos mais altos. Aí pode ter certeza de que a indústria têxtil vai decolar”, garantiu.

Interesse amarelo

Motivação para isso existe. Segundo o presidente da Coteminas, o potencial do país no setor já estaria chamando a atenção de investidores asiáticos, a julgar pela “realocação crescente de pedidos para a América Latina”.

Mas enquanto o front externo emite sinalizações positivas, sobre o interno pairam muitas dúvidas.

Crédito preocupa

“Temos um problema sério de crédito, que não chega na ponta. E, quando chega, chega caro, com excesso de pedidos de garantias, mas também estamos buscando alternativas”, acrescentou.

Embora considere corretas as medidas do governo voltadas à manutenção dos empregos, o presidente da Coteminas lembrou o esforço de algumas empresas têxteis para se ‘manterem vivas’, mediante a produção de itens médico-hospitalares.

“Mas só isso não dá conta do recado”, acrescentou.

Atração fatal

Ao atribuir interesse semelhante dos europeus pelo mercado têxtil nacional, o presidente do Conselho de Administração da Vicunha Têxtil, Ricardo Steinbruch argumenta que, com o dólar cotado a quase R$ 6, o investidor estrangeiro vai se sentir ‘naturalmente’ atraído pela economia brasileira.

Reposicionamento da cadeia

O novo cenário econômico, prevê Steinbruch, demandará o reposicionamento da cadeia de compras no contexto mundial. “Por isso, precisamos fortalecer os ‘elos’ dessa cadeia (no país) por meio da união”, emenda.

Nesse aspecto, ele sugere a substituição do modelo produtivo diversificado por outro, mais concentrado e focado na demanda do mercado.

“Nos conectando à cadeia de suprimento mundial, poderemos nos tornar um importante fornecedor dela”, comenta.

Home office

No plano interno, Steinbruch confessou sua admiração com a capacidade de resposta das vendas por meio do atendimento ‘home office’, mas ainda muito aquém do patamar anterior à crise.

Assim, o canal digital é o único disponível hoje, tanto para renegociar dívidas, quanto para consumar uma compra.

Crédito ‘empoçado’

Ao mesmo tempo, o presidente da Vicunha reforça que as empresas têm enfrentado uma situação grave no fluxo de caixa, uma vez que o crédito, ao invés de fluir, está empoçado nos bancos.

Lentidão oficial

“Os bancos oficiais estão se movimentando, mas com certa lentidão, para dar solução do problemas. Enquanto isso, negociamos com fornecedores e clientes, tendo em vista o que é melhor para todos. A palavra-chave do momento é flexibilidade”, pondera.

A movimentação do mundo corporativo na direção da retomada, segundo Steinbruch, pode ser medida pela criação de uma pintura ‘higienizadora’ do ambiente (com reaplicação a cada três meses) utilizado pelos consumidores, como provadores e paredes, como também sobre os próprios tecidos por eles manuseados.

Mesmo antes da crise, embora seja uma empresa b2b, a Vicunha passou a desenvolver alternativas que a aproximassem mais do consumidor final.

Mostruário digital

“Estamos lançando o mostruário digital, para que o público tenha pleno acesso a toda a nossa linha de produtos”, revela, acrescentando que a Vicunha já vinha investindo forte na indústria 4.0.

A cunha tecnológica também promete mudar para sempre as relações entre comércio e clientela. “Observamos uma aderência muito rápida ao home office, mas nunca vamos prescindir da loja. Por isso, esperamos elas reabram logo, para que a indústria volte a ‘rodar’”, apela.

Medidas sustentáveis

Steinbruch comenta que o período de quarentena, igualmente, serviu para reforçar a necessidade de adotar medidas sustentáveis, seja no meio ambiente, nos negócios ou, ainda, no uso racional da água, da energia e no tratamento de resíduos industriais.

Além da revisão dos métodos de gestão, a principal preocupação da Vicunha, salienta seu presidente, é com a preservação dos empregos.

“Se mantivermos, o máximo possível, o nível de emprego, a recuperação da atividade vai ser mais rápida”, argumenta.

A repaginação do setor têxtil, não só brasileiro, mas mundial, é reforçada pelo presidente da Riachuelo, Flávio Rocha, para quem o setor de “fast fashion”, apesar de amargar perdas, vem se adaptando rapidamente para não perder espaço no mercado.

Descentralização propícia

A descentralização é uma das estratégias vencedoras da Riachuelo, que procurou distribuir suas unidades de costura em cidades menores nos estados nordestinos do Rio Grande do Norte, Paraíba e Ceará.

“Esse é o momento de tirar mais proveito e que a indústria têxtil seja mais produtiva na retomada”, justifica.

O presidente da Abit, Fernando Pimentel vislumbra um ‘admirável mundo novo’ para os têxteis, em que a tecnologia joga um papel visceral.

Revolução cultural

“Está na cabeça do consumidor uma verdadeira revolução cultural, pois vemos velhinhos usando aplicativos de celular para pedir uma refeição. Tudo isso nos levará a um novo patamar de eficiência”, emenda.

Força produtiva

A Abit abrange 27,5 mil empresas, de todos os portes, que empregam mais de 1,5 milhão de trabalhadores e faturam anualmente cerca de US$ 51,58 bilhões.